PASSEIO PELA BÍBLIA


COMPREENDENDO A BÍBLIA

1. INTRODUÇÃO

(As reflexões aqui apresentadas foram, originalmente, escritas para o Jornal Comarca de Garça, um artigo por semana. Apresento nesta página todas as reflexões feitas, ficando a critério de cada um ir lendo em sequência ou escolher sobre um assunto específico. Espero que ajude pelo menos algumas pessoas a terem uma visão um pouco mais rica sobre a bíblia. João Loch, aos 08 de Março de 2013).

Como era no início? Um nada? Um caos total e só o Espírito de Deus existindo? Sim. Era isso mesmo, conforme o Gênesis. Mas parece que a compreensão aí não está completa. Nós damos um salto para o Novo Testamento e vamos aprender, com o evange­lista João, que no princípio era o Verbo. E o Verbo era Deus. Este Verbo-Deus que já exis­tia antes de tudo, resolve armar a sua tenda e morar entre nós. Deus se torna um de nós. Se Ele se tornou um de nós é porque Ele sempre foi um de nós e sempre esteve em nós. Em consequência, nós também sempre estivemos e sempre estaremos nele. A própria sabedo­ria bíblica reconhece isto quando afirma: “Vós sois deuses” (Sl 82,6). Em Deus, nós tam­bém sempre existimos. Como Deus é eterno, conforme a fé, em Deus tanto você como eu também somos eternos. Uma eterni­dade que é sintetisada na existência de cada um e de todos nós. De certa forma nós já existimos em todos os que viveram antes de nós, existi­mos em nós e existiremos nos que virão depois de nós. O homem mais solitário em qual­quer tempo e lugar, sempre estará unido a toda a humanidade. A sua solidão nunca será completa, porque ninguém existe sozinho. Cada um de nós é uma síntese de toda a humanidade. E Deus é o sentido de tudo.

Na Bíblia nós vamos encontrar a contínua tentativa, por parte do homem, de expli­car a sua própria existência e o sentido de sua vida. Com o conhecimento possível na época de cada escritor sagrado, vão sendo traçadas as diversas explicações para o mundo, o início da existência de todos os seres, inclusive do homem, o porquê do sofrimento, da doença, da morte, o que haverá depois da morte, das diferentes línguas, das derrotas políticas, das brigas entre ir­mãos… Tudo visto à luz do relacionamento entre Deus e o homem.

Quando parece que tudo está perdido, o homem sempre percebe a ação de Deus que age em benefício do seu povo, do povo que Ele ama. Esta percepção de Deus, num primeiro momento era bem exclusivista. -“O nosso Deus tem que cuidar de nós e destruir todos os nossos inimigos, pois os nossos inimigos são seus inimigos”. Depois esta percepção foi sendo ampliada e se tornando menos egoísta. Percebem que Deus é também Deus dos outros povos e, por isso, não podem exigir que Ele destrua as outras nações, como fica refletido no livro de Jonas. Com Jesus fica mais claro ainda que a salvação é oferecida a todos aqueles que “procuram fazer a vontade do Pai”, independente se são judeus ou não. O próprio judeu não teria garantida a sua salvação só por ser judeu. Como hoje, também,  ninguém pode se considerar o melhor, o perfei­to, o preferido de Deus, só por pertencer a tal denominação religiosa, seja ela qual for. Pertencer a uma religião, pode ser muito válido para ajudar a se encontrar, encontrar a Deus e vivenciar a vontade desse Deus, mas é ser muito limitado achar que Deus é obrigado a dar a salvação só para o seu grupo e condenar os demais. Agir e pensar assim é tomar o lugar de Deus e decidir por Ele. Parece-me muita pretensão. O mais triste é que algumas pessoas são inocentemente usadas para defender os interesses de alguns “espertos” e se acham defendendo os interesses de Deus.

À partir de hoje estarei fazendo algumas reflexões com a finalidade   de ajudar a entender melhor os vários livros bíblicos, contextualizando-os. Acredito que entendendo o essen­cial de cada livro, o tempo em que foi escrito, porque foi escrito, talvez fique mais fácil ter um maior aproveitamento de toda a Bíblia, numa visão mais global da mesma. Com estas explicações já dá para começar a ler a Bíblia de um modo mais aberto para o que ela quer transmitir, podendo ir além da simples compreensão literal. Quem fica numa leitura desvinculada, dependente, só das palavras, desenraizada do contexto histórico, pode matar o espíri­to bíblico. Quando acontece isto a Bíblia não é mais uma fonte de vida, mas pode ser uma fonte de escravidão, exploração de sentimentos, deturpações e empobrecimento do homem. Querer entender a Bíblia, lendo só a Bíblia, pode ser matar a Bíblia. Ainda bem que existe hoje uma ciência bem fundamentada que procura sempre mais conhecer o mundo que gerou a Bíblia – a cultura, a história, o conhecimento astronômico, os recursos literários, o domínio científico. Co­nhecendo tudo isto, nós temos mais segurança em atualizar o rico sentido bíblico para os nossos dias. São várias as pesquisas publicadas que nos podem ajudar nessa empreitada.

Cada capítulo apresenta uma reflexão sobre um aspecto específico relacionado à bíblia, ou sobre um livro bíblico.

As questões colocadas no final do estudo de cada livro bíblico têm a finalidade de ajudar na compreensão do livro. Pode facilitar numa reunião de grupos, para que não se fique perdido sem saber o que conversar sobre o assunto lido. Contudo, não é necessário tratar sobre as questões apresentadas, nem se limitar a elas. Pode-se fazer outras perguntas e até mesmo trazer outros conhecimentos como complemento – que seria o ideal.

João Loch

Teólogo, Psicólogo e Acupunturista

Rua Carlos Gomes, 697 – Garça –SP

fone: (14) 34061605 – e-mail: jloch1@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cap.2.

A Palestina no Tempo de Jesus

É importante conhecer um pouco de história nesses tempos em que Roma era o grande reino, que dominava inclusive a Palestina. Serão elencados alguns reis e o tempo de reinado, porque vários desses reis são cita­dos  no Novo Testamento. Alguns ocuparam um espaço importante no cristianismo pelo fato de te­rem participado ativamente da perseguição aos cristãos. São responsáveis pelas torturas sofri­das pelos primeiros cristãos. Localiza-los no tempo é ter certeza de que existi­ram e também serve para localizar historicamente o próprio Jesus.

O Império  Romano tinha na agricultura a base econômica. Os principais produtos: ce­reais e legumes; vinha e oliveira nas regiões mediterrâneas; pecuária para o corte. Também usavam animais para o transporte.

Havia também o artesanato e a exploração mineral.

O meio mais rápido de locomoção era por via marítima. O tempo navegável era de 5 de março a 31 de novembro, quando o mar estava “aberto”.

Resumo cronológico dos imperadores romanos que reinaram antes de Cristo.

49: César entra na Itália com seus exércitos. Tem início as guerras civis. É im­plan­tada a ditadura de César.

48: Pompeu é vencido na batalha de Farsala.

44: Assassinato de César.

43: Triunvirato: Marco Antônio, Otávio e Lápido.

42: Os “Republicanos” são derrotados em Filipos.

31: Batalha de Actium – derrota de Marco Antônio e Cleópatra.

27: Otávio recebe o título de Augusto. Seu poder é confirmado pelo Senado e lhe é reconhecido o domínio proconsular sobre as províncias imperiais.

12: Augusto toma o título de Pontífice Máximo.

2: Augusto proclamado Pai da Pátria.

Resumo cronológico dos imperadores que reinaram no Império Romano depois de Cristo.

14: Morte de Augusto.

Dinastia dos Júlio-Cláudios

14-37: Tibério.               37-41: Calígula.

41-54: Cláudio.              54-68: Nero

68-69: Reinados efêmeros de Galga, Otão e Vitelio

Dinastia dos Flávios

69-79: Vespasiano.              79-81: Tito.                   81-96: Domiciano.

96-98: Nerva.                      98-117: Trajano.            117-138: Adriano.

Dinastia dos Antoninos        138-161: Antonino, o Pio.

161-180: Marco Aurélio.     180-192: Cômodo

 

2. ECONOMIA DA PALESTINA NO SÉCULO

Um dogma essencial da fé de Israel: “A terra pertence a Deus que lhe deu o país de Canaã”.

Tamanho da Palestina: 50 a 100 Km de base por 220 Km de altura.

Base da alimentação: trigo, produzido um pouco em toda a parte, principalmen­te na Galiléia, que produzia mais que suas necessidades, armazenando o excedente e suprindo outras cidades.

A Palestina só importava trigo nas grandes secas( 21aC e 49 d.C.).

Cevada: segunda cultura. Habitualmente era a farinha dos mais pobres. Servia para fa­zer ração.

As figueiras: essenciais para a alimentação. Normalmente exportava para Roma. Em 45 d.C importou do Chipre.

Oliveira: encontrada em toda a Palestina. Exportava o óleo. Mas não era de primei­ra qualidade.

Vinha: era de boa qualidade e produzida em toda a Judéia. Servia até para a expor­ta­ção. O vinho fazia parte dos hábitos alimentares do povo, tanto que na última ceia Jesus e seus discípulos tomaram vinho. O primeiro milagre de Jesus narrado nos evangelhos foi para transformar água em vinho. Parece que Jesus gostava de festejar. Caso contrário não teria feito um milagre desse.

Frutas e legumes: lentilhas, ervilhas, alface, chicória, agrião, romãs, tâmaras, ma­çãs e nozes.

Em Jerusalém havia roseiral de onde se extraia óleo ou essência de rosas para a venda. Produzia também um bálsamo muito apreciado.

A pecuária era o setor mais deficitário. O Templo era o maior consumidor de carne. O povo mesmo só comia carne na Páscoa ou por ocasião dos sacrifícios de comunhão (Lv 3).

A Palestina possuía no séc. I a.C. uma população estimada em 600 mil habitan­tes concentrados em 20 mil Km2.

 

3. A INDÚSTRIA

a) A pesca: costa mediterrânea, Rio Jordão, e sobretudo no Lago de Tiberíades.

b) Construção: ampliação e embelezamento do Templo (20 a.C. – 64 d.C). No fim dos trabalhos no Templo: calçamento das ruas de Jerusalém, empregando 18 mil funcioná­rios. Em 20 d.C foi construída Tiberíades, por Herodes Antipas.

c) Fiação e tecelagem: grande mão-de-obra feminina, mas também homens traba­lhavam nesta profissão (tecelões). A Judéia trabalhava sobretudo com lã (tinha um enorme re­banho de carneiros). A Galiléia produzia seda e linho.

d) Indústria de couro: era alimentada principalmente pelas vítimas oferecidas no Templo.

e) Cerâmica: para vasilhame.

f) Betume: substância viscosa e colante, que numa determinada época bóia sobre as águas de um lago da Judéia.

g) Artesanato de luxo: feito em Jerusalém, para o Templo e para os peregrinos.

2. O COMÉRCIO

O comércio era centrado no Templo. A corte e a classe abastada não faziam eco­nomia.

O comércio nas províncias era feito, principalmente, de trocas. O excedente era ex­portado principalmente para Jerusalém, cuja população pulava de 50 mil habitantes para 180 mil no tempo de festas.

Comércio externo: importação de produtos de luxo (cedro do Líbano, incenso da Arábia…; seda para o sumo sacerdote e a aristocracia, vinda diretamente da Babilônia.

Exportação: alimentos, frutas, óleo, vinho, peixe. Também exportavam alguns pro­dutos industriais: peles, tecidos e betume.

A Palestina, no tempo de Jesus, graças ao produto do solo e ao Templo, que empre­gava muita gente, deveria ser “a terra onde correm leite e mel”, no entanto, havia muita pobreza.

4.  AS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS

Toda a existência judaica ( econômica, social e política) era marcada pelo elemento religioso.

1. O Templo: centro de Israel.

O primeiro Templo foi construído por Salomão que reinou por 40 anos no sec. X a.C. Foi destruído em 587 a.C. com a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor.

O segundo Templo começou a ser construído após a volta do exílio, em 538 a.C., e inaugurado em 515. Era muito mais modesto que o primeiro. Foi reedificado por Herodes. Con­forme Flávio Josefo, o Templo era de um grande esplendor.

Na participação nos cultos religiosos, no Templo, havia uma divisão das pes­soas conforme a classe. Cada classe tinha o seu lugar estabelecido seguindo uma hierarquia: sumo-sacerdote, sacerdotes, homens, mulheres, pagãos.

O altar do Templo era mais parecido com um crematório, para os sacrifícios dos animais. Todos os dias eram oferecidos dois carneiros, para os sacrifícios. A pele das víti­mas dos sacrifícios sempre ficava para os sacerdotes.

As mulheres e os incircuncisos não penetravam no “coração” do Templo. Em volta ao Templo havia um verdadeiro comércio. O comércio da cidade, de certa forma, girava em torno do Templo que, em muitos aspectos, era um centro mais de interesses políticos e econômicos, defendendo os poderosos, que religioso. Por isso, certamente, Jesus teve aquela manifestação de revolta no Templo. Não conseguiu suportar toda aquela deturpação feita em nome de Deus.

2. A sinagoga: Tinha uma grande importância no cotidiano dos judeus. Cada aldeia tinha a sua si­nagoga. Na sinagoga eram realizadas as reuniões, que devem ter tido origem no ano de 587 a.C., no exílio babilônico. Tinha por objetivo fortalecer a fé do povo que se encontrava longe do Templo. As reuniões consistiam principalmente em leituras da Lei e dos profetas. A reu­nião sempre começava pela recitação do Shemá ( o credo do povo – Dt 6,4-9; 11,13-21; Nm 15,37-41). Algumas orações eram proclamadas pelo responsável, enquanto o povo participava com o “Amém”.

Nos prédios das sinagogas eram guardados os rolos da Lei. Naquele tempo não existia um livro organizado com todos os livros sagrados, como temos hoje. Eram rolos. Os rolos foram sendo organizados em seqüência de livros num tempo posterior. E a divisão da bíblia em capítulos e versículos é de um tempo bem mais recente ainda.

Em muitas comuni­da­des era nas sinagogas que funcionavam as escolas.

 

5.  AS FESTAS RELIGIOSAS

As principais festas eram: Páscoa, Pentecostes, Tabernáculos (Tendas). As fes­tas sempre estavam relacionadas a uma comemoração de um fato histórico ou de um ciclo da natu­reza.

1. Festa da Páscoa: A população da cidade de Jerusalém que era de 50 mil hab., durante esta festa salta­va para 180 mil hab. O pai de família levava um cordeiro que era imolado no altar e oferecido o sangue a Deus. Após a imolação o cordeiro era levado para casa, onde era assado e comido com ervas amargas e pão sem fermento. Durante a ceia eram cantados os salmos 113-118, entrecortados com a bênção dada ao vinho pelo pai de família. Eram também re­cordados os grandes feitos de Deus em favor de seu povo. Esse modo de lembrar a ação de Deus na história era uma maneira de manter os fatos na memória e continuar sendo fiel a Deus.

Para os cristãos a Páscoa ficou sendo a festa da Ressurreição de Jesus.

2. Pentecostes: Era celebrada 50 dias após a Páscoa (Dt 16,9). É lembrada em Ex 23,16 como festa da colheita; e em Ex 34,22 como festa das semanas. Foi adaptada à celebração da Ali­ança do Sinai. Desde o século I era também a festa da renovação da Aliança. A comunidade cristã adap­tou esta festa à vinda do Espírito Santo, celebrada  50 dias após a Páscoa.

3. Tendas: Também era uma festa de origem rural. Celebrava-se o fim das colheitas frutífe­ras. Lv 23,43 relaciona esta festa com a história. Ficava-se em tendas para recordar o tempo em que Deus fez os filhos de Israel morarem em cabanas, quando saíram do Egito e peregri­naram pelo deserto. Cada família construía, nas cercanias de Jerusalém, uma cabana, onde morava por uma semana.

A dedicação do Templo de Salomão coincide com esta festa (1Rs 8,65-66) – o San­tuário fica sendo o lugar da presença e proteção de Deus. Podemos encontrar referências à festa também em Esdras (3,4), Neemias (8,13-18) e Levítico (23,40-43).

4. Outras festas

  • Yon Kipur: dia da expiação. Era celebrada alguns dias antes da festa das “Tendas”. Fazia-se o rito do bode Azazel, portador de todos os pecados. Era o bode que expiava os pecados de toda a comunidade. Lançava-se, num gesto simbólico, todos os pe­cados sobre um bode e deixava-se o mesmo abandonado no deserto. Até hoje usamos a ex­pressão “bode expia­tório” como sendo aquele sobre o qual os outros justificam a própria culpa, jogam os seus pro­blemas e ficam aliviados. Nas famílias, em muitos casos, há um bode expiatório da família – aquele filho e/ou irmão problema no qual todos jogam a culpa pelas próprias desgraças, descontentamentos e irrealizações. E o que faz o papel de bode acaba sendo o mais forte da família, pois assume o papel para que os outros possam continuar se equilibrando.
  • Hosh Hashana: festa do ano novo. Era celebrada 10 dias antes do Yon Kipur. Era uma festa para preparar a celebração do perdão.
  • Os Purin ou as sortes: comemorava a libertação do povo narrada em Ester.
  • O sábado. Guardar o sábado como um dia dedicado ao Senhor é de origem com­plexa. Foi codificado durante o exílio pelas legislações sacerdotais (Lv 23,3; Ex 31,12-17) que juntaram duas instituições doutrinais muito antigas: um dia de festa semanal e um dia de folga obrigatória (Ex 23,12; 34,21). Para o cristão, este dia de folga e de oração passou a ser  o do­mingo, considerado o dia da ressurreição de Jesus. Passou-se a guardar o primeiro dia da sema­na.
  • A oração cotidiana. Além das festas tradicionais, todos os homens adultos deviam rezar todos os dias, antes de qualquer atividade, voltados para o Templo de Jeru­salém.

 

6. A SOCIEDADE JUDAICA

“A terra pertence a Deus que a dá a seu povo, por isso todos são iguais diante dele…”  Apesar disso a desigualdade social também era grande.

Para tentar fazer um pouco de justiça e amenizar as desigualdades foi instituído o ano sabático e o ano jubilar, em que eram perdoadas as dívidas.

A lei civil e a religiosa eram uma coisa só. Não havia separação. A classe social mais importante era a dos sacerdotes.

1. O Clero

a) Sumo-Sacerdote.

Com a volta do exílio, em 538 a.C., não havendo mais rei, o sumo-sacerdote foi se tornando cada vez mais importante na sociedade judaica. Era responsável pela Lei, pelo Templo  e presidente do Sinédrio, por ofício.

Era o único que podia orar e expiar os pecados por todo o povo – entrar uma vez por ano no coração do Templo (Santo dos Santos), para a expiação. Sua morte era considerada ex­piatória – os assassinos eram agraciados. Possuía grande dignidade e situação financeira confortável. Toda tarde era o primeiro a escolher parte das oferendas feitas no Templo. Assim, ficava sempre com a melhor parte. Depois que ele escolhia é que se dividia o resto entre os de­mais  que também tinham direito.

O Templo era também uma grande fonte de renda. Todos os negócios giravam em torno do sumo-sacerdote que fazia tudo para aumentar suas economias. Usava até da violência para arrancar alguns bens. No tempo da dominação romana ainda tinham que fazer o jogo dos imperadores para permanecer no cargo.

De 200 a 36 a.C. houve 36 sumo-sacerdotes. De 36 a.C. a 67 d.C houve 26 sumo-sacerdotes. Foi o tempo da intervenção de Herodes Magno e, depois, dos procuradores romanos. Dos vinte e seis sumo-sacerdotes desse tempo, vinte e cinco são de quatro famíli­as. Constata-se aí as disputas para se obter este cargo.

O sumo-sacerdote era auxiliado por toda uma equipe de ajudantes – chefes dos sa­cerdotes. Eram de sua própria família ou amigos:

  • Comandante do Templo: responsável pelo culto e policiamento no Santuário. Quando necessário, substituía o sumo-sacerdote, em certas ocasiões;
  • Os chefes das vinte e quatro seções semanais;
  • Os sete vigilantes do Templo – manutenção.
  • Os três tesoureiros.

Com esta pequena descrição já dá para perceber o poder que estes homens con­cen­travam em suas mãos. É compreensível que tenham ficado tão preocupados e revoltados com a atitude de Jesus, quando se sentiram ameaçados pelos seus ensinamentos e posicionamento contra o que eles estavam fazendo. É difícil para qualquer grupo que esteja se aproveitando de uma situação e, principalmente da ignorância do povo, aceitar ser desmascarado. A reação, quase sempre, é calar a voz que está fazendo a denúncia. Foi o que fizeram com Jesus naquele tempo e continua sendo feito através da história..

b) Os Sacerdotes

A função dos sacerdotes, um número aproximado de sete mil, era oferecer os sacri­fícios e conservar a parte central do Templo.

Eram divididos em 24 grupos, cada grupo prestando serviços uma semana. Toda manhã era tirada a sorte para ver quem teria uma função particular no culto (Lc 1,9). Nas três festas de peregrinação, todos prestavam serviços.

Era uma classe pobre. A renda constituía-se da parte retirada dos sacrifícios (cinco semanas por ano), e o dízimo. Mas o dízimo não era pago por todos os fiéis. Como eram em muitos e a parte principal ia para o sumo-sacerdote, os sacerdotes ficavam com quase nada.

Para complementar a renda todos tinham um ofício: carpinteiro, talhadores de pe­dra, comerciantes, açougueiros e, alguns se tornavam escribas.

Pelo salário que recebiam estavam bem próximos do povo humilde. Muitos ti­nham o mesmo nível de instrução e comungavam o mesmo ideal do povo pobre.

O sacerdócio era transmitido por hereditariedade. A esposa do sacerdote tinha que ser verdadeira judia e o filho tinha que ser normal física e mentalmente, para poder ser sacerdote.

c) Os levitas

Aproximadamente dez mil. Tinham o mesmo esquema de divisão dos sacerdo­tes, para a prestação de serviços no Templo. Só que não ganhavam nada. O dízimo lhes foi tirado em benefício dos sacerdotes (Nm 18,8-32). Eram divididos em dois grupos (músicos e porteiros), sendo que um não podia fazer a tarefa do outro. Em 64 d.C Agripa II deu uma pro­moção aos grupos – os músicos poderiam vestir as vestes distintas dos sacerdotes e os porteiros poderiam aprender os hinos.

Como os sacerdotes, os levitas também exerciam outras profissões.

c) O POVO

1. Os Anciãos: O grupo de anciãos formavam o Sinédrio de Jerusalém. Formavam a aristocracia leiga de Israel. Grupo pequeno mas poderoso, pelo poder aquisitivo e influência política.

Estavam ligados ao Templo e ao poder romano. Caso fizessem oposição ao po­der romano poderiam ter os bens confiscados e serem deportados ou mortos. Herodes ma­tou 45 an­ciãos por terem feito oposição ao seu governo.

O ressentimento dos anciãos era não poderem chegar ao ápice da nobreza e da honra, que era ser sumo-sacerdote.

2. A Classe Média: Era formada por comerciantes e artesãos. Giravam em torno do Templo do qual, em geral, dependiam. Conforme Dt 12,17-18, os judeus deveriam gastar, nas festas, o se­gundo dí­zimo, em gêneros que poderiam ser oferecidos em sacrifícios. Os peregrinos vi­nham da Pales­tina ou de fora e faziam questão de cumprir este preceito. Por causa disso as coisas eram muito mais caras em Jerusalém.

3. O Povo:

3.1. Pequenos proprietários agrícolas. Na Judéia e na Samaria existiam lavouras pequenas, tipo familiar. Geralmente o mais velho é que herdava a terra.

Na Galiléia as propriedades eram mais extensas. Por volta de 15 a.C. todos fugi­ram (1Mc 23,45). Os inimigos ficaram com estas terras, mas quando João Hircano recon­quistou a Galiléia, tiveram que se converter ao judaísmo ou abandona-las.

3.2. Os artesãos. Não eram agricultores. Trabalhavam por conta própria.

3.3. Curtidor. Não era uma profissão bem vista. Conforme fontes rabínicas anti­gas a esposa podia até se separar do marido curtidor, por causa do mau-cheiro.

3.4. Tecelão. Era tido como mentiroso. Em conseqüência dessa má fama não podia dar testemunho.

3.5. Pastor. Era considerado ladrão. Foi um símbolo bastante usado por Jesus, sem­pre acentuando a diferença entre o bom e o mau pastor. O mau pastor era aquele que saqueava, roubava as ovelhas que não eram suas.

3.6. Médico. Era praticada uma medicina de classe. O povo acabava ficando de­sassistido.

3.7. Operários e diaristas. Trabalhavam para um patrão, por um dia, ou de bra­çal, numa lavoura de grande ou médio porte; numa empresa de transporte; junto a um arte­são; junto a um nobre da corte; nos canteiros de obras. Os diaristas costumavam ficar numa praça, espe­rando que aparecesse alguém interessado nos seus serviços. Lembram um pouco o bóia-fria do nosso tempo.

Esse povo, “han há ares”, era desprezado pelos escribas e fariseus, esperava com paciência a intervenção libertadora de Deus.

 

d) Os  Miseráveis

1. Os mendigos. Viviam de preferência em Jerusalém. Havia um número muito grande de mendigos leprosos, considerados impuros que viviam isolados do convívio social, numa misé­ria total.

2. Ladrões. Procuravam roubar os viajantes imprudentes, seja em Jerusalém ou nas estradas. Para evitar esses assaltos, o povo costumava viajar em caravanas. Em 35 a.C. He­rodes desfechou uma verdadeira guerra contra esses grupos. Em 60 d.C eles aumenta­ram muito mais, porque aumentou a miséria na região.

3. Escravos. Havia uma distinção dada ao escravo judeu e ao pagão. Da família judia só se podia pegar para escravo o varão (chefe de família) e a filha de menos de 12 anos. A esposa e os filhos não podiam ser tomados como escravos. Aos 12 anos a menina adquiria a li­berdade e deixava de ser escrava. Casando-se com o senhor também deixava de ser escrava. A liber­dade também podia ser resgatada. No ano sabático todo escravo judeu era libertado.

O escravo pagão era considerado propriedade do patrão, que poderia tratá-lo como quisesse. Era considerado impuro. Deveria ser circuncidado.

e) Os Escribas

Tinham grandes estudos e conhecimento perfeito da Lei. Eram poucos mas ti­nham um considerável valor social. Eram provenientes de várias classes, superando a ori­gem pela sa­bedoria.

Eram especialistas da Lei que deviam atualizá-la. Esperava-se que cada escriba fosse um guia espiritual. Reconhecidos como filhos espirituais e sucessores dos antigos profetas. Eram indispensáveis nos conselhos e tribunais. Eram mais respeitados até que os sumo-sacerdotes. Prestavam os ensinamentos gratuitamente.

Os escribas fariseus estendiam o ideal de pureza ao povo, suscitando a espe­rança de que também podiam estar próximos de Deus. Após o ano 70 dC, com a destruição de Jerusalém, eles se tornaram os chefes do povo.

f) A Mulher

A mulher não ocupava um lugar de destaque no judaísmo. Era uma sociedade do­minada essencialmente por homens. Jesus deu uma atenção muito especial à mulher, considerando-se os costumes daquele tempo. No sec. II d.C. aumentou o anti-feminísmo, tanto no judaísmo como no cristianismo. Vejamos a seguinte afirmação, cuja data não é bem certa se do I ou II sec. dC: “Compra-se a mulher por dinheiro, contrato ou relações sexuais. Compra-se um escravo pagão por dinheiro, contrato e tomada de posse. Não há diferença na aquisição”.

Antes de a menina completar os doze anos e meio de idade o pai tinha que arranjar um noivo. Caso não conseguisse um pretendente para a filha esta era declarada emancipada e o pai não poderia receber o dote que tinha por direito. O dote que o noivo pagava correspondia ao status social que a família da noiva ocupava. Era um pagamento. Às vezes o noivo, por falta de dinheiro ou bens, ficava trabalhando para o sogro por um bom tempo, para pagar a esposa.  Por isso, o noivado já era um compromisso muito sério. Nem a noiva nem o noivo podiam romper sem uma grave acusação contra o outro.

O lugar da mulher era a casa e a sua função principal era a educação dos filhos. Quando saísse de casa deveria guardar completo anonimato, usando o véu que lhe cobria o rosto, além de deixar o cabelo comprido, para ajudar a esconder a face. Por causa disso, São Paulo ordena que as mulheres não cortem o cabelo. Deveria aceitar que o marido tivesse outras mulheres e mesmo concubinas. No entanto, o marido tinha que lhe dar o mínimo de dignidade. Contudo, em muitas circunstâncias, o amor matrimonial superava esses tipos de leis.

 

g) O Filho e a Educação

Para o judeu, ter filhos era sinal da bênção de Deus. Cada família tinha que ter o maior número possível de filhos. Assim que tinha condições de procriar a menina deveria se ca­sar, para que a prole pudesse ser numerosa. Todos deveriam colaborar para que o povo de Israel se tornasse numeroso, conforme promessa de Deus. Era um sinal de maldição a mulher não ter filhos.

Os partos aconteciam em casa, com a ajuda de uma parteira. Em casas pequenas da Palestina era normal a mulher se retirar para o estábulo para dar à luz – era um lugar cos­tumeiro para a mulher ficar tranqüila. Quando Jesus nasceu em um estábulo, o fato não foi tão estranho para eles como hoje é para nós.

O nome da criança era dado pela mãe ou pelo pai.

Quatro dias após o nascimento era feita a circuncisão – tinha um valor cultural de manutenção da identidade do povo. Este costume adquiriu importância no tempo do exílio na Babilônia. Como o filho primogênito pertencia ao Senhor (Ex 13,12), devia ser resgatado (Ex 13,13). Esse resgate era feito mediante um pagamento (Nm 18,15-16). Maria e José também fo­ram ao Templo, resgatar o seu filho. Como eram pobres, certamente ofereceram uma pombinha em troca do filho, que era a oferta do pobre.     

Purificação da mãe: 40 dias após o nascimento, se fosse menino e, 80 dias se fosse menina, a mãe deveria ser purificada. Era uma purificação mais no sentido de “dessacralização”.

A educação do filho era rígida. Até os 4 anos a educação era toda por conta da mãe. Só os meninos freqüentavam as escolas. A menina podia ser vendida como escrava após os seis anos. As meninas, quanto menos aprendessem melhor. Mesmo em nossa sociedade, até hoje, uma grande parte de nossas famílias continua deixando a educação dos filhos por conta da mãe – o pai vai se ocupar com o sustento e por isso acha que não tem tempo para orientar os filhos.

 

h) O Ensino Superior

Bem antes de Cristo, os mestres já se preocupavam em formar discípulos e futu­ros escribas para continuar a tradição. Este costume de formar discípulos era comum nos povos an­tigos. Os sábios tinham os seus discípulos. Portanto, Jesus não era o único mestre com discípulos.

Antes da ruína do segundo Templo (70 dC) não se tem informações claras quanto à educação. Mas a preocupação com a leitura e homilias na Sinagoga era constante. O judeu en­sinava ensinando a Lei. A educação era voltada para as coisas práticas da vida.

Havia uma organização das famílias para orientar os filhos.

Havia uma espécie de escola secundária num lugar mais central. Não eram todos que freqüentavam a escola. Para quem morava em aldeias menores e afastadas, ou na roça, ha­via a dificuldade de freqüentar as aulas o dia todo e ainda ter que pagar a pensão. O mes­tre era considerado mais importante que os pais, na educação dos filhos.

 

i) O Matrimônio, Noivado, Divórcio…

1. A Emancipação – Até os  doze anos a pessoa era considerada de menor idade. Quando completava os doze anos:

a) O menino passava a ser considerado maior. Era obrigado a observar a Lei, que ele já podia ler na sinagoga. Devia se dedicar ao trabalho: “construir uma casa, depois plan­tar uma vinha e, por fim, casar-se”. A idade para o casamento, para os homens, era entre os dezesseis e vinte e dois anos, sendo que dezoito anos era considerada a idade ideal.

b) Entre os doze e doze anos e meio o pai deveria entregar a menina para um noivo. Antes dos doze anos não podia ser entregue a um noivo, porque ao completar os doze ela se liberta­ria e poderia não aceitar a proposta; depois dos doze anos e meio ela também adquiria a emancipação completa e não seria mais obrigada a aceitar a proposta do pai. Ela mesma procuraria o seu noivo e o mesmo não teria nenhuma obrigação de pagar um dote ao sogro.

j) O Noivado

Juridicamente era o ato que ligava efetivamente os noivos e sua famílias, graças ao contrato do matrimônio. Nos termos do contrato eram determinados, entre outras coi­sas, o dote a ser pago pela noiva e as despesas do casamento.

Os dotes, dados pelo pai, à filha que casava, dependiam muito das condições das famílias e do amor do pai pela filha. Era a herança que ela levava. Se o pai falecesse antes de dar este dote, os irmãos tinham o dever de trabalhar para dar um dote à irmã.

O noivado durava mais ou menos um ano. Era o tempo para que a mulher ti­vesse condições de procriar – ser considerada adulta e pronta para ser mãe, colaborando com a pro­messa de Deus de tornar o povo judeu um povo numeroso. Durante este tempo de espera, ape­sar de já serem considerados comprometidos, cada um continuava morando na sua casa e as relações sexuais não eram bem vistas. Por aí podemos perceber a angústia de Maria, mãe de Jesus,  e de José, seu noivo, quando descobriram que ela estava grávida enquanto os dois ainda eram apenas noivos. Precisou a intervenção do anjo de Deus para que José não abando­nasse Maria.

2) O Matrimônio

Era uma festa para as famílias e para os vizinhos. O noivo conduzia a noiva para a sua casa ou a casa de seu pai. À partir desse dia ela não podia mais ficar com a ca­beça descoberta.

A cerimônia religiosa consistia apenas numa bênção pronunciada pelo pai da noiva. A verdadeira bênção mesmo viria com os filhos. Consideravam que Deus é que realizava todos os casamentos. A esposa não deveria se esquecer das prescrições para a noite de núpcias (Dt 22,13-21). Neste dia ela passava da tutela do pai para a tutela do marido.

A mulher só poderia administrar seus bens se ficasse viúva. Se não tivesse bens para administrar podia escolher: casar novamente, cair na miséria ou na  prostituição.

Com o matrimônio a mulher passava a ter o usufruto da casa do marido por toda a vida. Se fosse repudiada ficava com esta propriedade e também os dotes que levara no casamento.

3) O Divórcio

Só o marido podia repudiar a mulher – pedir o divórcio (Dt 24,1; Mc 10,12). Os motivos para o repúdio poderiam ser os mais fúteis.

k) OS GRUPOS POLÍTICO RELIGIOSOS

Após a queda de Jerusalém, em 70 dC, é o grupo dos fariseus que vai estruturar a Lei Judaica até nossos dias. Após 70 dC as coisas se modificaram um pouco de como eram no tempo de Cristo. Conforme Flávio Josefo, além dos fariseus havia o grupo dos saduceus, es­sênios e zelotas. Mas além dessa divisão havia também outros grupos.

Esses grupos tiveram origem após o ano 152 a.C., quando Jônatas, chefe da re­sis­tência armada, encabeçada pelos macabeus, se fez nomear sumo-sacerdote. Por ser da classe sacerdotal se achava com direito de ocupar esse cargo. Mas como era da descen­dência de Sadoc foi considerado ilegítimo por alguns grupos, que preferiram se separar dos macabeus. Os gru­pos divergiam quanto ao que significava fidelidade à Lei, quanto a um fixísmo absoluto ou à uma evolução.

1)  Os Saduceus

Consideravam-se os detentores do sacerdócio legítimo na linha de Sadoc (Ex 40,46); direito também reivindicado pelos “filhos de Sadoc” de Qurnrã.

Apareceram como grupo organizado no tempo de João Hircano (135-104 a.C.). Ti­nham poder sobre o Templo, portanto, sobre o culto e o Sinédrio, até 76 a.C. Com a entrada de alguns escribas fariseus no Sinédrio, rapidamente estes vão controlando também o poder religi­oso, ficando os fariseus sem o prestígio que detinham.

Eram apegados ao Pentatêuco. Pregavam a doutrina da retribuição, achando que Deus os abençoava por terem riqueza.  As regras de pureza só valiam no recinto do Tem­plo. Daí a liberdade para terem contatos com pagãos. Ao povo não exigiam as regras de santidade, podendo-se fizessem qualquer coisa, mesmo que fosse considerada impura.

Desde Pompeu, no sec. I a.C., Roma já lhes havia tirado o poder político e parte do poder religioso (o sumo-sacerdote era escolhido pelo imperador romano e os fariseus é que de­terminavam as regras do culto).

Tinham atenção para com o povo porque seus negócios dependiam do povo para prosperar. Com a destruição do Templo, em 70 dC, o grupo também perdeu sua razão de ser, deixando de existir.

2) Os Zelotas

O termo é de origem grega e significa zeloso por. Finéias, zeloso por Deus, re­monta ao Êxodo (Nm 25,6-13). À partir dos macabeus, sempre há referência aos zelotas como rigoristas violentos que julgavam sem piedade aqueles que consideravam infiéis à Lei de Moi­sés.

Os romanos e seus colaboradores eram considerados inimigos. No início o ini­migo era considerado o judeu apóstata, por trair a Lei em favor do inimigo.

Para eles “Deus não tolera transgressão nenhuma nesta terra que Ele deu ao povo”. Para as transgressões eles reclamavam a pena de morte. Costumavam andar com uma faca e atacar os inimigos. Alguns discípulos de Jesus provavelmente eram originários desse grupo (Judas e Simão).

Os zelotas eram originários da Galiléia, onde podiam se esconder nas grutas. Ge­ralmente eram muito pobres, ao contrário dos saduceus, que eram ricos.

Tinham confiança absoluta em Deus e nas suas instituições: Templo e Lei. Sen­tiam que podiam apressar a vinda do Reino de Deus, do seu Messias, através de suas ações.

3) Os Fariseus

Os fariseus se opuseram ao rei Alexandre Janeu (103-76 a.C.), provocando uma guerra civil de 6 anos, que custou a crucifixão de milhares de judeus. Mas saíram vitoriosos.

São relacionados com os hassidim e com Esdras e Neemias. Eram pessoas pie­do­sas, que se colocavam a favor de um aprofundamento espiritual e de uma profunda vi­vência da Lei – os hassidim podem ser os criadores e transmissores de vários salmos. Para a eles a salva­ção virá pelo cumprimento da Lei. São Paulo era do grupo dos fariseus.

Conheciam bem a escritura e se esforçavam por vivê-la e transmiti-la ao povo. Pre­ocupavam-se com a educação das massas. Vindos do povo, eram um partido do povo, mas pro­curavam ser separados do povo por acha-los demais impuros por causa da ignorância. Esse grupo conseguiu resistir à catástrofe de 70 d.C.

4) Os Essênios

A origem desse grupo parece estar ligada à perseguição no tempo dos macabeus. Alguns descendentes da tribo de Sadoc se refugiaram e formaram, com outro grupo de re­fugia­dos, uma organização fechada, procurando viver o mais rigorosamente possível a Lei de Deus. Tinham uma organização própria e toda uma exigência para aceitar novos mem­bros.

João Batista, aquele que batizou Jesus, provavelmente tenha sido um essênio. E o próprio Jesus pode ter tido contato com esse grupo.

Desapareceram na guerra de 66-70 d.C.

5) Os Herodianos

Eram partidários de Herodes e tinham o objetivo de protegê-lo, e depois ficaram en­carregados de proteger Antipas. Estavam sempre muito atentos a qualquer movimento que pu­desse ameaçar a segurança do rei.

6) Os Movimentos Batistas

Desenvolveram-se no séc. I d.C., entre o povo simples. Tinham a proposta da sal­vação para todos (Lc 3,7-14). Faziam o batismo por imersão, tendo em vista a purifica­ção dos pecados. Formou-se um grupo em torno de João Batista (At 18,25; 19,1-5). O grupo de Jesus também batizava (Jo 3,22; 4,1-2).

Esse movimento rejeitava o Templo e os sacrifícios sangrentos que nele eram ofe­recidos.

7) Os Samaritanos

Formavam uma comunidade próxima e oposta ao judaísmo. Discordavam dos ju­deus quanto à centralização religiosa em Jerusalém. Acreditavam ser os continuadores das tri­bos do Norte, fiéis a Moisés. Esperavam a volta “daquele que vem de novo”- espécie de novo Moisés que iria colocar tudo em ordem, no fim dos tempos.

Celebravam a Páscoa no Garizim, conforme Ex 12. O Garizim também era o lu­gar da bênção: Dt 11,29; 27,12.

Quando Jesus conversa com a samaritana ela coloca para Jesus estas questões, de­monstrando que realmente era uma preocupação para eles (Jo 4,1-42). Jesus tinha uma simpatia por eles, mostrando que apesar de serem considerados impuros, em certas situa­ções eles davam um melhor testemunho de compreensão da vontade de Deus que os pró­prios chefes religiosos dos judeus (Lc 10,33).

Podem ter tido origem após a tomada da Samaria, em 721 a.C. (2Rs 17), pelos as­sírios. Os judeus os consideravam impuros e infiéis, por terem se misturado com o con­quistador. Samaria era a capital do reino do Norte, que antes de ser tomada pelos assírios havia se separado do reino do Sul, por rixas políticas.

Apesar das relações tensas entre judeus e samaritanos, eles tinham influências mú­tuas.

A oposição ao Templo de Jerusalém pode tê-los aproximado dos essênios e também de certas correntes do cristianismo.

 
l) A RESISTÊNCIA JUDAICA

Os romanos respeitavam a religiosidade dos judeus, não os obrigando a prestar culto ao imperador, costume que teve início em 27 a.C., com a homenagem a Augusto. Mesmo assim os romanos desgostavam muitos judeus ortodoxos e fariseus, com seus cos­tumes – alguns costumes feriam profundamente o sentimento religioso judeu. A resistência aos valores roma­nos ia crescendo como forma de manter a identidade e a esperança da liber­tação com a volta a uma teocracia.

1) As Insurreições Esporádicas

No domínio romano os judeus gozavam de paz relativa, pois freqüente­mente havia manifestação contra a dominação. No NT temos algumas citações que aludem a estes levantes: Lc 13,1; At 5,36-37; 21,37.

Segundo Flávio Josefo e Fílon (historiadores dessa época), houve uma revolta na Alexandria, no reinado de Calígula, aclamado por Cláudio em 41 d.C. Na Palestina houve um  começo de revolta por Calígula querer instalar, no Templo de Jerusalém, uma estátua de Zeus. Isto era uma afronta direta ao sentimento religioso dos judeus.

2) Revolta de 66-70 d.C.

Essa revolta irrompeu no fim do reinado de Nero. Teve início com uma atitude anti­pática de Floro (procurador romano), que retirou do Templo 17 talentos do Tesouro. Alguns ju­deus reagiram, sendo presos e executados, a mando de Floro. Em conseqüência o movimento em oposição a Roma começou a crescer, não sendo mais controlado pelos sa­cerdotes e anciãos.

Na primavera de 67 d.C., Vespasiano armou um plano de guerra e progressiva­men­te foi tomando as cidades. O avanço das tropas romanas foi facilitado por rixas internas e desa­cordos entre os chefes da revolta, que levou a um  enfraquecimento do movimento.

Na primavera de 70 d.C., Tito, depois de um assédio cercando toda a cidade, tomou o Templo e o destruiu totalmente. À partir daí a estrutura sacerdotal  foi enfraque­cendo, os sa­duceus deixaram de existir; enquanto que as sinagogas foram tendo importância exclusiva para a reunião do povo e leitura da Lei, sob a direção dos mestres da Lei – os fari­seus.

 

 

Cp 3.

O QUE É A BÍBLIA

A palavra bíblia é de origem grega, e significa livros.  A Bíblia é uma verdadeira biblioteca. Uma coleção de livros. A Bíblia tem dois pontos fundamentais: mostra quem é Deus e mostra quem são os homens. Relata o encontro entre o homem e Deus através da história.

Mostra quem é Deus para os homens e o projeto que Deus realiza na vida e na his­tória: que todos tenham vida e liberdade.

Mostra também quem são os homens. Não mostra os homens perfeitos, mas os ho­mens com suas qualidades e defeitos, com suas conquistas, suas faltas, suas teimosias, angústias, buscas e também boa vontade. Mostra o encontro dos homens com Deus e as conseqüências: uns se convertem, aceitando o projeto de Deus e caminhando em busca da vida e da liberdade. Outros se fecham em torno do próprio egoísmo, rejeitando qualquer tipo de vida que não esteja voltado para seus próprios interesses.

Lendo a Bíblia, encontramos o drama da vida do homem de todos os tempos. É como um grande espelho onde podemos ver e reconhecer nossa face, as situações que vivemos, as estruturas que nos envolvem, os acontecimentos que nos libertam ou nos aprisionam.  A Bíblia é, portanto, a nossa história. Mostra o que podemos encontrar, se aprendemos a ler, na vida e nos acontecimentos, o sim ou o não com que o homem pode responder a Deus e ao seu projeto.

Podemos nos sentir dentro da Bíblia, porque o comportamento do homem, suas es­peranças, dúvidas, angústias, etc., não mudam muito de um tempo para outro.

Para refletir: a) O que significa a palavra Bíblia? b) Como a Bíblia mostra Deus? Como a Bíblia mostra os homens? Por que podemos nos sentir dentro da Bíblia?

Cap. 4

ASPECTO CENTRAL DA BÍBLIA: A ALIANÇA

Uma pessoa que de uma hora para outra se vê perdida numa floresta sem caminhos nem trilhas, encontra muitas dificuldades para se orientar. Podemos comparar a Bíblia a uma floresta na qual precisamos conhecer o caminho, para não ficarmos perdidos, desorientados den­tro dela. Muita gente começa a ler a Bíblia e desanima, porque não sabe para onde vai, nem o sentido de todos sinais que encontra. É bom uma orientação, para podermos ter uma visão ge­ral da unidade e riqueza da Bíblia.

A aliança é o centro e o fio condutor de toda a Bíblia. Aliança é um compromisso entre pessoas. Os casais que usam aliança querem mostrar que se escolheram e têm compro­misso um com o outro. Deus fez aliança com seu povo, prometendo fidelidade eterna e espe­rando que o homem também cumpra a sua parte. A Bíblia vai contando a história desta aliança entre Deus e os homens. Deus se mantém fiel para sempre, mas o homem freqüentemente trai a aliança e abandona Deus. Tendo liberdade para escolher ser fiel ou infiel ao compromisso com Deus, o homem pode gerar para si mesmo a vida ou a morte, a liberdade ou a escravidão.

Quando o homem se afasta de Deus e sente as conseqüências na sua vida, ao querer voltar, Deus sempre o acolhe. Lendo a Bíblia nós também vamos descobrindo se somos fiéis ou infiéis a Deus, em nossa própria história.

Para refletir: a) Qual o centro e o fio condutor da Bíblia? b) O que é a aliança? c) Como Deus e o homem vivem a aliança? d) Ler e comentar Dt 30,15-20. e? Hoje, em que situa­ções o homem trai a aliança com Deus?

 

 

Cap5.

JESUS CRISTO: CENTRO DA ALIANÇA

A aliança entre Deus e os homens é o centro e o fio condutor de toda a Bíblia. Numa aliança existe um diálogo cada vez mais profundo com uma troca mútua de palavras e de vida, onde se fala e se age, onde os parceiros dão e recebem, no clima de liberdade.

Na Bíblia, o ponto alto do diálogo entre Deus e os homens se dá em Jesus Cristo. Jesus Cristo é como uma central de energia que liga, alimenta e ilumina todas as outras alianças encontradas nas sagradas escrituras. Jesus Cristo é um modo de defender os interesses dos dois lados ao mesmo tempo, porque ele é Deus-e-homem. Jesus é, ao mesmo tempo, reve­lação de Deus e revelação do homem.  Jesus fez com que o relacionamento entre Deus e os ho­mens se tornasse concreto, visível. Os escritos do Novo Testamento são o testemunho daqueles que viram, ouviram e responderam ao Filho de Deus feito homem.

As comunidades cristãs procuram viver e aprofundar a aliança, que já atingiu o seu ponto máximo em Jesus Cristo. A fé em Jesus Ressuscitado é a certeza de que essa intimidade profunda entre Deus e o homem não é apenas uma promessa  ou algo que se realizou no passa­do, mas uma aliança definitiva, que é para sempre.

Para refletir: a) Por que Jesus é o centro da aliança? b) O que seria a Bíblia sem Jesus? d) O que devemos fazer para seguir a Jesus Cristo? e) Você se sente em aliança com Deus? f) Ler e comentar Jo 1,14-18.

 

Cap. 6.

POR ONDE COMEÇAR A LER A BÍBLIA?

O melhor modo de começar a ler a Bíblia depende muito de cada comunidade e de cada pessoa. Mas uma sugestão, à nível geral, pode ajudar.

O centro da Bíblia, que ilumina o passado e o futuro, é o mistério pascal de Jesus – sua encarnação, atividade, paixão, morte e ressurreição. É a partir desse centro experienciado e refletido pelas comunidades cristãs que encontramos a ligação, o cimento que une toda essa biblioteca. É em Jesus Cristo que a história do povo do AT vai adquirir seu significado pleno dentro do projeto de Deus e será modelo para todas as comunidades que formam o novo povo de Deus em todos os tempos e lugares.

Para quem começa a ler a Bíblia, certamente terá mais proveito se começar a lê-la e estudá-la a partir de seu personagem central, que é Jesus. O Evangelho de Marcos é o melhor livro para esse primeiro contato com a Bíblia. Isto porque foi o primeiro Evangelho a ser escrito; é o mais curto e o mais simples dos Evangelhos. Marcos tem por objetivo justamente responder à pergunta: “Quem é Jesus?” Após termos compreendido o Evangelho de Marcos, o “começo da Boa Notícia de Jesus Cristo, o Filho de Deus”(Mc 1,1), poderemos começar a ler do primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. Lendo sem pressa, mas ao mesmo tempo sem a preocupação de en­tendermos os detalhes, aos poucos conheceremos as experiências de um povo, com suas fideli­dades, infidelidades, seus conflitos, suas esperanças. A partir de Jesus,  iremos reconhecendo na história do povo da Bíblia o que é projeto de Deus e o que não é. E a nossa vida e história tam­bém serão iluminados pelo caminho desse povo.

Para refletir: a) Para ler a Bíblia é importante conhecer Jesus? b) Por que o Evange­lho de Marcos é o mais indicado para um primeiro contato com Jesus? c) Ler e comentar Mc 8,27-29.

 

Cap. 7.

COMO ACHAR UMA PASSAGEM NA BÍBLIA?

Muita gente fica perdida, quando vê as citações bíblicas, com aquelas abreviações de nomes seguidas por números separados por pontos, vírgulas, traços e ponto e vírgulas.  Nem sempre a Bíblia foi dividida assim, por capítulos e versículos. Isto foi feito para facilitar a loca­lização dos trechos citados. No tempo de Jesus havia o rolo da Lei, que era lido durante os cul­tos. Normalmente no início das Bíblias há uma lista de abreviaturas para que o leitor possa se localizar quando as mesmas aparecem. Pegue a sua Bíblia e observe, no início, estas abreviaturas, procurando saber o que significam. Quando estiver lendo e aparecer uma abreviatura que você não sabe o que significa, pegue esta lista do início da Bíblia, e descubra o que aquela sigla quer dizer.

Se você não sabe direito como localizar uma citação pode aproveitar os exemplos dados a seguir para aprender.

  • A vírgula separa o capítulo do versículo. Ex.: Jo 1,14 = Evangelho de João, capítu­lo primeiro, versículo catorze.
  • O traço pode indicar uma seqüência de versículos ou uma seqüência de capítulos. Ex.: Dt 15,1-8 = livro do Deuteronômio, capítulo quinze, do versículo um até o versículo oito. Gn 1-11 =  livro do Gênesis, do capítulo um até o capítulo onze. Mt 5,3-7,5 = Evangelho de Mateus, do capítulo cinco, versículo três, até o capítulo sete, versículo cinco.
  • O ponto separa versículos saltados. Ex.: Jr 31,31.33 = livro de Jeremias, capítulo trinta e um, versículo trinta e um e trinta e três (pula o versículo trinta e dois).
  • O ponto-e-vírgula separa tanto capítulo de capítulo, como livro de livro. Ex.: Mt 5,3;8,2 = Evangelho de Mateus, capítulo cinco, versículo três e, depois, Mateus, capítulo oito, versículo dois. Mt 5,3; Lc 2,4 = Evangelho de Mateus, capítulo cinco, versículo três e, depois, Evangelho de Lucas, capítulo dois, versículo quatro.

Para achar um livro da Bíblia consulte o índice. Lá estão citados todos os livros e as páginas em que os livros se encontram.

Exercícios para treinar achar os livros: a) Procure e leia: Gn 1,1-31; Jo 1,1-18.

b)       Procure e leia: Jó 38,2-41; Is 1,10-11.15-17.

 

 

Cap. 8.

LÍNGUA ORIGINAL DA BÍBLIA

Muita gente lê a Bíblia, achando que ela foi toda escrita na sua língua. Não foi não. Os originais da Bíblia foram escritos em três línguas diferentes: hebraico, aramaico e grego. O AT, na sua maior parte, foi escrito em hebraico, alguns livros escritos em grego e trechos de Daniel e Esdras em Aramaico. O NT todo foi escrito em grego.

Essas línguas são muito diferentes da nossa, não só no modo de falar e de ler (o he­braico e o aramaico são escritos e lidos da direita para a esquerda, mas também no modo de pensar e de imaginar. Esses livros foram escritos por um povo que viveu num tempo muito dife­rente do nosso, com conhecimentos e visão do mundo totalmente diferentes, assim como os re­cursos que tinha para expressar o pensamento. Por isso, não é fácil traduzir os livros da Bíblia dos originais sem deturpar ou tirar a força do sentido dos mesmos. É preciso entender o que muitas expressões significavam para os judeus quando os livros bíblicos foram escritos, para podermos compreender a mensagem transmitida. Ex.: no Salmo 7,10 lemos: “…tu sondas os co­rações e os rins, ó Deus justo!” Se não soubéssemos que os originais foram escritos em hebraico, não saberíamos dizer porque Deus sonda nosso coração e nossos rins. É que para os judeus o coração é a sede do pensamento e os rins a sede dos instintos mais profundos. Então poderíamos traduzir esta citação da seguinte maneira: “tu sondas os meus pensamentos e os meus instintos mais profundos”. Estaríamos sendo fiéis ao que o salmista está transmitindo. Quanto mais entendermos o significado da mensagem bíblica em sua origem, melhor podemos compreender a sua mensagem, atualizando-a para os nossos dias. São várias as expressões bí­blicas que nós não podemos entender ao pé-da-letra. Também nós, brasileiros, usamos várias expressões que não seriam entendidas por um estrangeiro que as tomassem no sentido literal. Ex.: “Hoje estou duro”, “sua mulher é um anjo”, “meu marido foi jogar uma pelada”, etc.

A primeira tradução da Bíblia para o latim foi feita por São Jerônimo. Só no século XVI é que a Bíblia foi traduzida do latim para uma outra língua, o alemão, por Martinho Lute­ro, que havia sido frei. A partir dai que a Bíblia começou a ser traduzida para outras línguas, entre as quais o português.

A Bíblia ter sido escrita em determinadas línguas mostra que Deus se revelou em situações concretas de um povo, assumindo também o seu modo de falar e escrever. Isso se apresenta como um desafio para aqueles que se arriscam a traduzir a Bíblia. Hoje as traduções não se limitam a pegar os textos escritos em latim, mas procuram resgatar os documentos he­braicos, gregos e aramaicos, além de procurar penetrar na cultura do povo do tempo de cada li­vro, para ser o mais fiel possível ao que o livro quer transmitir.

À medida que formos lendo a Bíblia, já traduzida, devemos com paciência ir desco­brindo, aos poucos, o modo de pensar daqueles  que, inspirados por Deus, escreveram  a Bíblia, Palavra de Deus para nós hoje.

Para refletir: a) Ler e comentar Mt 6,22-23. b) Em que línguas foi escrita a Bíblia? c) É importante saber que a Bíblia foi escrita em outras línguas? Por quê? d) Tente se lembrar de expressões que nós falamos e que não podem ser entendidas ao pé-da-letra.

 

 

Cap. 9.

HÁ DIFERENÇAS ENTRE UMA BÍBLIA CATÓLICA E UMA BÍBLIA PROTESTANTE?

Você já não se deparou com pessoas discutindo sobre qual Bíblia é a melhor, se a católica ou a protestante? Alguns mandam até jogar a outra Bíblia fora. Pura ignorância. Uma não é melhor que a outra naquilo que apresentam em comum. A diferença é que a Bíblia protestante tem menos livros no AT que a católica.

Os livros que constam da Bíblia católica e não constam de algumas Bíblias protestantes são os seguintes: Baruc, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, os dois livros dos Macabeus, boa parte do livro de Ester e alguns trechos do livro de Daniel. Esses livros são chamados de  livros deuterocanônicos. A igreja católica os aceitou como sendo livros inspirados, como sendo também Palavra de Deus, compreendendo que o próprio Jesus aceitou esses livros, fazendo referências aos mesmos em seus ensinamentos.

Entendendo um pouco a história de como foi formado o Antigo Testamento fica mais fácil de entender estas diferenças. Inicialmente o AT só existia em hebraico. Quando os judeus se espalharam pelo mundo, sentiram necessidade de traduzi-lo para uma língua mais universal naquela época: o grego. O grego correspondia, então, ao valor que hoje tem o inglês. Na tradução feita para o grego foram acrescentados alguns livros mais recentes que não se encontravam nos originais hebraicos, que são estes livros citados anteriormente. Os católicos, já no NT, aceitaram estes livros como sendo inspirados, ao passo que os protestantes não. Os protestantes ficaram só com o que a Bíblia hebraica original continha.

O Novo Testamento não contém diferença entre a Bíblia católica e a protestante.

Além dessas diferenças entre a Bíblia católica e a protestante, podem ser notadas também diferenças de detalhes quanto à construção algumas palavras ou construção de frases. Isto se deve às diferentes traduções. Como já vimos, as traduções sempre são complicadas, porque cada língua representa uma maneira de pensar e representar o mundo. Por causa disso, cada tradução acaba tendo alguma cozinha diferente, por causa do estilo dos próprios tradutores.

Para refletir: a) Qual a diferença entre a Bíblia católica e a Bíblia protestante? b) Como são chamados os livros que existem na Bíblia católica e não existem na protestante? c) Se você tiver em sua casa uma Bíblia que não é de sua religião você precisa jogar fora? d) Ler e comentar Eclo 19,1-12.

 

 

 

Cap. 10.

O ANTIGO TESTAMENTO

1. O QUE É O ANTIGO TESTAMENTO?

A Bíblia é composta de duas partes: O Antigo e o Novo Testamento. A mesma pa­lavra grega pode significar tanto aliança como testamento. Então podemos dizer que a Bíblia é formada pelos livros da Antiga e Nova Aliança.

O Antigo Testamento, ou Antiga Aliança, é uma coleção de livros onde encon­tra­mos a história de Israel, o povo que Deus escolheu para com ele fazer uma aliança. Por­tanto, o Antigo Testamento é a história de um povo. Narra como ele surgiu, como viveu escravo no Egito, como possuiu uma terra, como foi governado, quais as relações que teve com outras nações, como estabeleceu as suas leis, a sua religião. Apresenta seus costumes, sua cultura, seus conflitos, derrotas e esperanças. Vai contando a história do povo e como o povo vai interpretando a ação de Deus nessa história. É, antes de tudo,  a história desse povo em aliança com Deus. Tudo o que se contra no Antigo Testamento está ligado ao relacionamento do povo com Javé – o nome com que Deus se revelou. Mostra o projeto que Deus quis realizar na humanidade por meio desse povo. Israel foi o povo escolhido por Deus para realizar o projeto de Deus de construir uma humanidade nova. Deus exigiu ser o único Deus, e para que seu plano se concretizasse as relações entre as pessoas deveriam ser fraternas, tendo como centro a vida e a liberdade. É um Deus de vida que não quer a opres­são e o massacre de um irmão pelo outro.

Lendo o Antigo Testamento nós vamos percebendo a fidelidade de Deus para com o seu povo, e ao mesmo tempo os baixos e altos do povo do povo na sua relação com este Deus. Da parte do povo há um contínuo afastar-se e aproximar-se de Deus.

Para refletir:  a) Como se chamam as duas grandes partes da Bíblia? b) O que si­gnifica testamento? c) O que encontramos no Antigo Testamento? d) Ler e comentar Ex 20,1-7.

 

2. COMO SE DIVIDE O ANTIGO TESTAMENTO?

O Antigo Testamento contém 46 livros formando quatro grandes blocos ou ti­pos de escritos: o Pentateuco, os livros históricos, os livros poéticos e sapienciais e os li­vros proféticos.

1. O Pentateuco compreende os cinco primeiros livros da Bíblia. Aí temos a criação do mundo e do homem, a formação do povo de Israel, sua libertação e condução através do deserto para uma terra, e as normas básicas que devem reger uma sociedade justa e fraterna.

2. Os livros históricos mostram os diversos momentos da vida do povo de Is­rael na terra prometida e no exílio: suas grandezas e lutas, e as conseqüências práticas de sua fidelidade ou infidelidade ao Deus da aliança.

3. Os livros poéticos e sapienciais apresentam a reflexão de Israel a partir das experiências  concretas da vida. Tais livros tratam dos problemas que surgem na vida de cada um e que exigem um discernimento, para que se possa encontrar sentido e realização na vida.

4. Os livros proféticos são uma crítica profunda do presente, para abrir cami­nhos para o futuro. Antes do exílio, os profetas criticam as estruturas políticas, econômi­cas, sociais e religiosas injustas e opressoras, exigindo mudanças radicais para que se instau­re uma sociedade segundo a justiça e o direito. Após o exílio na Babilônia, eles são anuncia­dores de consolação e esperança no Senhor, para que o povo de Israel possa reconstruir a sua história conforme o projeto da aliança com Deus.

Para refletir: a) Quantos livros há no AT? b) Como se divide o AT? c) Procure na Bíblia onde começam e terminam as diversas partes do AT. d) Ler Ecl 3,1-8. A que parte do AT pertence este livro?

3. O PENTATEUCO

(PRIMEIRO BLOCO DE LIVROS DO AT)

O QUE É O PENTATEUCO?

Pentateuco é uma palavra grega que significa “cinco livros”. São os cinco pri­meiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Os judeus chamam estes livros de Torá, que significa Lei.

Estes livros falam da formação do mundo, da humanidade e do povo escolhido por Deus. As histórias e leis aí contidas foram sendo escritas durante cinco séculos, refor­mulando, adaptando e atualizando tradições mais antigas, que vieram desde os tempos de Moisés.

As histórias mostram como e porquê  o Deus que se revelou, na sarça ardente, a Moisés, com o nome de Javé, é o único Deus verdadeiro. foi ele que tirou o povo da escra­vidão do Egito e o conduziu, através do deserto, até a terra de Canaã, para aí estabelecer uma comunidade que fosse livre e fraterna. Refletindo sobre esse Deus livre e que liberta, os escritores do Pentateuco descobrem que ele é também o Deus dos patriarcas, o Deus que está presente na humanidade, e aquele que criou tudo o que existe.

As leis que aparecem nesse primeiro conjunto da Bíblia são leis muito antigas, e muitas delas parecem estranhas para nós. Mas todas elas giram em torno de um núcleo cen­tral fora do qual elas perdem o sentido: são leis dadas por um Deus livre, que quer a vida e a liberdade do homem, tanto na sua vida pessoal como comunitária.

Jesus, que veio trazer a libertação e a vida em plenitude, não aboliu, mas apro­fundou o espírito dessas leis. E ele próprio apresentou um resumo de toda a Lei: “Tudo o que vocês desejam que os homens façam a vocês, façam vocês a eles. Pois esta é a Lei e os Profetas”.

Para refletir: a) O que significa a palavra “Pentateuco”? b) Como os judeus chamam os cinco primeiros livros da Bíblia? d) Para Jesus, qual a essência da Lei e dos Pro­fetas? d) Ler e comentar Gn 22,1-19; Ex 23,1-9.

 

4. GÊNESIS: ORIGEM DO MUNDO E DO POVO DE DEUS

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou…Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,27.31).

Gênesis é o nome dado ao primeiro livro da Bíblia. Esta palavra significa come­ço, nascimento. O livro conta a criação do mundo com todas as criaturas, a criação do homem e a história do relacionamento do povo escolhido com o seu Deus, a escravidão e a libertação.

A primeira parte é composta pelos capítulos 1-11. As duas primeiras partes narram a criação do mundo e do homem por Deus. São duas “histórias” para apresentar a grandiosidade do homem e da mulher. Eles são o ponto mais alto e o centro de toda a criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, possuem o dom da criatividade, da palavra e da liberdade. Os capítulos 3-11 mostram a história dos homens e do processo humano dominado pelo pecado. Não querendo submeter-se a Deus, o homem quebra o relacionamento consigo mesmo, com o irmão, com a natureza e com a comunidade, reduzindo a convivência a uma confusão (Babel).

A segunda parte é formada pelos capítulos 12-36. Conta a história dos patriarcas. Com os patriarcas começa a comunidade de Israel que será a portadora, para o mundo, da aliança entre Deus e os homens. Israel é chamado a ter Deus como único Senhor, os homens como irmãos e as coisas criadas como dons que devem ser partilhados entre todos, para que to­dos possam ter vida. A missão de Israel é mostrar o caminho que leva a humanidade a desco­brir e viver o projeto de Deus.

A terceira parte, cap. 37-50, apresenta a história de José, preparando assim o relato do livro do Êxodo. A convivência do povo de Israel com os egípcios tinha que ter um início, e a história de José mostra este início. Esta história prepara a ação mais comovente e grandiosa de Deus entre os homens: a libertação de um povo da escravidão -  Israel conseguindo se libertar da escravidão do Egito.

Para refletir: a) O que significa a palavra “gêneses”? b) Quais as três grandes partes do livro do Gênesis e do que tratam? c) Ler e comentar Ge 12,1-9.

 

5. ÊXODO: DEUS LIBERTA E FORMA SEU POVO

“Moisés disse a Deus: “Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?” Disse Deus a Moisés: “Eu sou aquele que é.”  Disse mais: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU  SOU me enviou até vós.’  Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e esta será a minha lembrança de geração em geração.” (Ex 3,13-15).

A palavra êxodo significa saída. O livro começa narrando a saída do povo de Israel da escravidão do Egito.

Conhecer a mensagem do êxodo é de muita importância para entender o sentido de toda a Bíblia, pois a idéia que se tem de Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento, está fundamentada no livro do Êxodo. Sua mensagem central é a revelação do nome do Deus verdadeiro: JAVÉ. No êxodo este nome está intimamente ligado à libertação da opressão do Egito. Javé é o único Deus que ouve o clamor do povo oprimido e o liberta, para com ele estabelecer uma relação de aliança e dar leis que transformam as relações entre as pessoas, fundando uma comunidade de onde é assegurada a vida, a liberdade e a dignidade. Assim, o homem só estará nomeando o verdadeiro Deus, se o considerar efetivamente como o libertador de qualquer forma de escravidão, colocando-se a serviço da libertação em todos os níveis de sua vida. Só Javé é digno de adoração. Qualquer outro deus é um ídolo, e deve ser rejeitado. Há aí um convite a escolher entre o Deus verdadeiro e os ídolos, escolha que leva a viver na liberdade ou, ao contrário, a cultuar e servir toda forma de opressão e exploração.

A pergunta fundamental que encontramos no livro do Êxodo é a seguinte: “Qual é o verdadeiro Deus?”. A resposta dada pelo Êxodo é a mesma dada em toda a Bíblia, e principalmente na atividade, pregação e pessoa de Jesus. O livro é de muita importância para entendermos o que significa Jesus como Filho de Deus e para sabermos o que é o Reino de Deus. Sem este livro, a Bíblia perderia o seu ponto de partida para nos levar até Jesus Cristo e podermos com ele construir o Reino e sua justiça.

Para refletir: a) O que significa “Êxodo”? b) Qual o centro do livro do Êxodo? c) Qual a importância do livro do Êxodo? d) Ler e comentar Ex 3,1-22.

 

6. LEVÍTICO: FORMAÇÃO DE UM POVO SANTO

“Se uma mulher conceber e der à luz um menino, ficará impura durante sete dias, como por ocasião da impureza das suas regras…Se der à luz uma menina, ficará impura durante duas semanas, como durante as suas regras…Quando tiver cumprido o período de sua purificação…Se ela não tiver possibilidade de conseguir a soma necessária para um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro em sacrifício pelo pecado. O sacerdote fará por ela o rito de expiação e ela ficará purificada”. (Lv 12,1.5.6.8.).

Levítico provém do nome Levi, a tribo de Israel que foi escolhida para exercer a função sacerdotal no meio do seu povo.

Neste livro encontramos um emaranhado de leis, cerimônias, rituais, festas e costumes. Para nós pode ser que muitas das leis ali descritas não tenham sentido, mas fazem parte da revelação de Deus e eram as leis que orientavam a vivência do povo judeus.

O Levítico mostra, de um modo marcante, que o Deus Santo está presente em todos os setores da nossa vida, curando, julgando, salvando e chamando-nos continuamente a sermos santos como ele (Lv 19,2). No Lv encontramos uma regra de ouro para a convivência, que será retomada por Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Lv 19,18).

O Lv é importante porque revela facetas do nosso Deus, que são desenvolvidas em outros livros, e porque faz parte de um conjunto muito maior e com o qual se relaciona, embora de maneira nem sempre fácil para ser compreendida.

Para refletir: a) De onde vem o nome “Levítico”? b) De que trata o livro? c) O que nesse livro é válido para sempre? d) Ler e comentar Lv 19,1-18.

 

7. NÚMEROS: A CAMINHO DA TERRA PROMETIDA

“Então Iahweh abriu a boca da jumenta e ela disse a Balaão: ‘Que te fiz eu, para me teres espancado já por três vezes?’ Balaão respondeu à jumenta: ‘É porque zombaste de mim! Se eu tivesse uma espada na mão já te haveria matado.’ Disse a jumenta a Balaão: “Não sou eu a tua jumenta, que te serve de montaria toda a vida até o dia de hoje?…Então Iahweh abriu os olhos de Balaão…”(Nm 22,28-31).

O livro dos Números começa com um grande recenseamento do povo judeu. Por isso tem esse nome.

Para os hebreus, a saída do Egito foi uma longa e perigosa caminhada em busca de uma terra. Este livro descreve a caminhada como uma majestosa marcha organizada de todo um povo, como uma procissão ou um exército. As tribos de Israel formam os esquadrões de Deus, cada uma com o seu estandarte e avançando em rigorosa formação. No centro de tudo vai a arca da Aliança, que representa Deus caminhando junto com o seu povo. Isto mostra que o livro não quer narrar fatos históricos, mas transmitir mensagens. Assim como os antepassados saíram da escravidão do Egito para chegar à terra de Canaã, todo o povo de Deus é peregrino e caminha para a terra prometida por Deus. A organização mostra que, dentro do povo de Deus, as funções devem ser repartidas, mas com um único objetivo: realizar o projeto de Deus. E a arca da Aliança no centro indica que, nessa caminhada, Deus está sempre presente no meio do seu povo.

O livro mostra também os conflitos que existem dentro dessa organização (Cap.16), e que seus chefes estão sujeitos a fraquezas e desânimos, por mais importantes que eles sejam na comunidade.

Os capítulos 22 a 24 narram a história de Balaão e sua burrinha. Essa história mostra como um adivinho estrangeiro se torna um verdadeiro profeta de Deus. Com essa narração, o livro quer mostrar que, dentro da caminhada do povo de Deus para a Terra Prometida, deve haver sempre um lugar para o profeta. Pois é o profeta, justamente, que faz desacomodar as instituições e chama a atenção para não desviar dos caminhos de Deus.

Para refletir: a) Por que o livro se chama números? b) O que faz o povo de Deus nesse livro? c) O livro fala de conflitos? Quais? d) Ler e comentar Nm 22-24.

 

8. DEUTERONÔMIO: ALIANÇA PARA A VIDA

“Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6,4-9).

A palavra grega Deuteronômio significa segunda Lei. Trata-se de uma representação e adaptação da Lei em vista da vida de Israel na Terra Prometida. Esse livro foi escrito muito tempo depois dos acontecimentos históricos que ele narra (discurso de Moisés antes da entrada na Terra), e teve um longo período de formação. Para o autor do livro, porém, o povo de Deus deve estar sempre na posição de quem quer se converter a Deus e viver em aliança com ele, para ter a vida (Terra = Vida).

A idéia central de todo o livro é que se Israel for fiel à aliança com Deus, viverá feliz e próspero; se for infiel acabará caindo em desgraça e perderá a Terra. Após relembrar o Decálogo (5,1-22), ele mostra que o comportamento fundamental do homem para com Deus é o amor com todo o ser (6,4-9). A seguir apresenta uma longa catequese, explicando o que significa viver esse amor em todas as circunstâncias da vida pessoal, social, política e religiosa. Os capítulos 12-26 procuram ensinar ao homem como viver em relação com Deus, com as autoridades, com o outro homem, e até mesmo com os seres da natureza.

O importante, nesse livro, é compreender o que o conjunto do livro procura transmitir: um projeto de sociedade nova, baseada na fraternidade entre os homens e na partilha de tudo o que Deus concedeu a todos. Notar sobretudo que Deus é chamado de Pai (1,31), e os membros do povo são chamados irmãos entre si. A vocação do povo de Deus é a fraternidade e a partilha.

Para refletir: a) O que significa a palavra “Deuteronômio”?  b) Qual a idéia central do livro? c) Compare Dt 5,1-22 com Ex 20,1-17. Existem diferenças? d) Ler e comentar Dt 6,4-9.

 

9. OS LIVROS HISTÓRICOS

(SEGUNDO BLOCO DE LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO)

O QUE SÃO OS LIVROS HISTÓRICOS

Estes livros ocupam a maior parte do Antigo Testamento. Neles encontramos a história do povo de Deus, desde a entrada na terra prometida até quase a época de Jesus Cristo. É interessante notar que nesses livros não encontramos apenas uma crônica dos fatos, mas uma interpretação dos acontecimentos a partir da fé. É uma história vista por dentro, mostrando as relações entre Deus e os homens, através dos acontecimentos. Podemos dividir esse conjunto em três grupos.

1. Josué, Juizes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis: esses livros mostram que a história de Israel depende da atitude que o povo toma na aliança com Deus. Se o povo é fiel à aliança, Deus lhe concede a bênção, que se traduz no dom da terra e na prosperidade. Se o povo é infiel, atrai para si mesmo a maldição, que se concretiza como fracasso e perda da terra.

2. 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, 1 e 2 Macabeus: procuram dar as normas básicas para a sobrevivência e a organização do povo de Deus depois do exílio na Babilônia (Esdras e Neemias). Para fundamentar essas normas, eles repensam a própria história do povo, desde o seu início (1 e 2 Crônicas). Os livros dos Macabeus mostram a resistência heróica de um grupo diante da dominação estrangeira que procura destruir a cultura e a religião do povo de Israel.

3. Rute, Tobias, Judite, Ester: mais do que história propriamente dita, esses livros se apresentam como modelos de vivência da fé diante de situações difíceis, seja de vida pessoal (Rute, Tobias), como nacional (Judite, Ester).

Para refletir: a) Quantos são os livros históricos? b)  O que encontramos nestes livros? c) Ler e comentar 1Rs 21.

 

10. A BÍBLIA E A NOSSA HISTÓRIA

A história é a dimensão de tempo em que se realiza a nossa vida. Todos nós temos a nossa história pessoal e, ao mesmo tempo, fazemos parte de uma história maior: a história do nosso povo e também a história da humanidade. A Bíblia também registra uma história. Contudo, qual a relação entre a história contada pela Bíblia e a nossa história hoje? Podemos falar que a Bíblia é a nossa história, a história da nossa vida. Isso por dois motivos:

1. A Bíblia é a história do nosso passado. Desde que fomos batizados em nome da Trindade, tornamo-nos participantes da aliança que Deus fez com os homens e começamos a fazer parte do povo de Deus. A Bíblia conta a história dessa aliança: primeiro a aliança antiga, realizada com o povo de Israel (Antigo Testamento); depois a aliança nova e definitiva, realizada com todos os homens através de Jesus Cristo (Novo Testamento). Entretanto para essa aliança, todos e cada um de nós herdamos a Bíblia como nossa história, a história do nosso passado como família de Deus, irmãos de Jesus Cristo e descendentes do povo do Antigo Testamento. Isso não é tudo, porém.

2. A Bíblia é também a história do nosso presente. Nela temos uma análise tão profunda da vida, que também a nossa história pessoal, a história do nosso povo e da humanidade de hoje podem ser analisadas pelos modelos que nela encontramos a cada passo. A Bíblia, na verdade, é um grande espelho que reflete nossos problemas, perguntas, dúvidas, lutas, buscas e esperanças, que são as mesmas de sempre. Desse modo a Bíblia nos ajuda a descobrir a presença de Deus em nossa história e a ouvir os apelos que ele nos dirige para vivermos como povo de Deus.

Para refletir: a) Existe alguma relação entre a Bíblia e a nossa história?  b) Por que a Bíblia é a história do nosso passado? c) Por que a Bíblia é a história do nosso presente?

 

11. JOSUÉ: DOM E CONQUISTA DA TERRA

“Sê firme e corajoso, porque farás este povo herdar a terra que a seus pais jurei dar-lhes. Tão-somente sê de fato firme e corajoso, para teres o cuidado de agir segundo toda a Lei que te ordenou Moisés, meu servo. Não te apartes dela nem para a direita nem para a esquerda, para que triunfes em todas as tuas realizações….Não temas e não te apavores, porque Iahweh teu Deus está contigo por onde quer que andes.” (Js 1,6-7.9).

O livro de Josué foi escrito durante o exílio na Babilônia (586-538 a.C.). Relata os fatos situados entre 1230 e 1200 a.C.: a conquista e a partilha de Canaã, a Terra Prometida, pelas tribos de Israel. À primeira vista, o livro apresenta a tomada global da Terra, feita por uma geração. Isso se deve a idealização do autor. Na verdade, a conquista foi um processo longo e lento, ora pacífico, ora violento, que só terminou dois séculos mais tarde, com o rei Davi.

Josué é uma interpretação dos fatos para mostrar o significado da entrada em Canaã. O personagem principal é a Terra Prometida: Deus realizou a promessa feita aos patriarcas e renovada aos seus descendentes. O povo foi libertado da escravidão do Egito para ser livre e próspero na Terra que Deus ia dar (Ex 3,7-8). Portanto, por trás das longas e minuciosas listas de lugares devemos ver a alegria e a gratidão pelo dom de Deus.

O livro mostra que as tribos tiveram que conquistar a terra que Deus lhes dera. Deus concede o dom, mas o homem precisa querer e fazer a sua parte. A Terra ( = Vida) é fruto da promessa e do dom de Deus e, ao mesmo tempo, da aspiração e da conquista do homem. A graça de Deus é isso: fruto do dom de Deus e da conquista do homem. O livro de Josué é uma grande lição sobre a graça.

Para refletir: a) Qual o tema central do livro? b) Qual o personagem principal do livro? c) O que o livro nos ensina sobre a graça? d) Ler e comentar Js 1,1-9

 

11. JUIZES: O VAIVÉM DA HISTÓRIA

“Disse-lhe Dalila: “Como podes dizer que me amas se o teu coração não está comigo? Três vezes zombaste de mim e não me fizeste saber onde reside a tua grande força.” Como todo os dias ela o importunasse com as suas palavras e o fatigasse, ele se angustiou até à morte. Então lhe abriu todo o seu coração:…” (Jz 16,15-17).

O livro dos Juizes relata fatos situados entre 1200 e 1020 a.C.: a continuação da conquista da Ter­ra Prometida e a vida das tribos até o início da monarquia. Trata-se de um tempo de “democracia”(Jz 21,25) e cheio de dificuldades. As tribos são governadas por chefes que têm um cargo vitalício (juizes menores); nos momentos de grande dificuldade surgem chefes carismáticos (juizes maiores), que unem e lideram as tribos na luta contra os inimi­gos.

O mais importante em Juizes é a chave de leitura da história, que vale não só para o livro, mas para toda a história  de Israel e também para a nossa. Essa chave é exposta em Jz 2,6-23 e reaparece diversas vezes no li­vro. Pode ser resumida em quatro palavras: pecado, castigo, conversão, salvação. Veja­mos:

Pecado: a nova geração do povo esquece o Deus libertador e adora os ídolos;

Castigo: o povo perde a liberdade e torna-se  escravo dos  inimigos.

Conversão: no extremo do sofrimento o povo toma consciência, se arrepende e suplica de novo para que Deus o liberte.

Salvação: Deus faz surgir um líder carismático que reúne o povo e o lidera na luta pela liber­ta­ção.

Mas a nova geração de novo se esquece, adora os ídolos …e o movimento se repete. Com esse es­quema de leitura nós podemos ler a nossa própria história. A nossa vida também pode ser perce­bida nesse esque­ma. Usando esse esquema para a nossa história podemos perguntar: por que estamos sofrendo hoje (castigo)?.  Depois podemos perguntar: quais os ídolos que adoramos e servimos, em vez de servir a Deus?

Para refletir:  a) Quantos tipos de juizes há no livro? b) Que chave o livro fornece para ler­mos a histó­ria? c) Quais ídolos adoramos hoje? d) Ler e comentar Jz 2,6-23

 

12. RUTE: O AMOR DE DEUS É PARA TODOS

“…para onde fores, irei também, onde for tua moradia, será também a minha; teu povo será o meu povo e teu Deus será o meu Deus. Onde morreres quero morrer e ser sepultada. Que Iahweh me mande este castigo e me acrescente mais este se outra coisa, a não ser a morte, me separar de ti” (Rt 1,16-17).

O livro de Rute é uma historinha que recorda, de forma emocionante e lírica, o amor à pátria e aos pró­prios familiares. Entretanto, lendo com mais atenção, vamos descobrir nesse livrinho um profun­do ensina­mento reli­gioso e social. Ele é escrito numa determinada época do povo de Deus, quando os israelitas vol­tam do exílio de Babi­lônia e se estabelecem de novo em Judá, no século V a.C. É um tempo em que se tem que recome­çar tudo, pois as antigas tradições foram esquecidas. É preciso fazer séria reforma política, econômica, social, cultural e religiosa, para que o povo de Deus não perca a sua identi­dade e não desapareça do mapa. Con­tudo, não é uma história que ensina somente o povo de Deus da­quele tempo, mas é mensa­gem para nós povo de Deus hoje.

O autor do livro de Rute coloca os princípios que devem orientar a reorganização de uma co­mu­nida­de que sofreu grandes abalos. Ensina que o Deus de Israel, o nosso Deus, não aceita leis que, em nome da ordem  obri­guem as pessoas a renunciarem a seus direitos básicos, ou que restringem a salva­ção a um grupo fechado e elitista. O livro é história emocionante do amor de Deus, que quer gente de todas as nações formando a sua famí­lia, o seu povo. É também uma grave advertência tanto para aque­les que fazem as leis, como para aqueles que obedecem à letra das leis, mas não ao espírito das mesmas: estas devem ser, antes de tudo, um serviço aos pobres e uma defesa do direito de todos terem seu peda­cinho de chão, seu direito à vida. O que em nossa sociedade está muito longe de ser concreti­za­do.

Rute é personagem central no NT,  apresentada como sendo uma ante­passa­da de Jesus (Mt 1).

Para refletir: a) Quando foi escrito o livro de Rute? b) O interesse do livro de Rute está em narrar uma história de família? c) Qual a mensagem desse livro? d) Ler e comentar Rute 1.

 

13. PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL: A FUNÇÃO DA AUTORIDADE

“Se um homem comete uma falta contra outro homem, Deus o julgará; mas se pecar contra Iahweh, quem intercederá por ele?”. Mas não escutaram a voz de seu pai (1Sm 2,25).

O primeiro livro de Samuel narra acontecimentos que se situam entre 1040 e 1010 a.C. Te­mos aí uma análise crítica do aparecimento da realeza em Israel, análise que pode nos ajudar a avaliar nos­sos sistemas e homens políticos, bem como qualquer outra autoridade.

Há duas versões do surgimento da autoridade política central em Israel: a primeira é con­trária e hostil à monarquia (1Sm 8; 10,17-27), representando a visão mais democrática das tribos do Norte, que viviam em terras produtivas. A segunda versão é favorável à monarquia (1Sm 9,1-10,16; 11) e repre­senta a visão da tribo de Judá, que vivia em terras menos produtivas. Unindo as duas versões, vemos que a autori­dade é, ao mesmo tempo, um mal necessário (ela pode se absolutizar, explorar e oprimir o povo) e um dom de Deus ( uma instituição mediadora, que deve representar, isto é, tornar presente o próprio Deus, único rei que salva e governa o seu povo).

1Sm oferece, portanto, uma teologia crítica da autoridade política. Mostra que Deus é o único rei so­bre o seu povo. Para ser legítimo, o rei humano (e seus equivalentes) devem ser representan­tes de Deus, isto é, servir a Deus através do serviço ao povo. E isso compreende duas coisas: primeiro, reunir e liderar  o povo, aju­dando-o a proteger-se e a libertar-se dos seus inimigos (1Sm 9,16);  segundo, organizar o povo e promover a vida social con­forme a justiça e o direito (Sl 72; Dt 17,14-20; Pr 16,12). Con­forme Samuel, portanto, qualquer auto­ridade que não obedece a Deus e não serve ao povo é ilegítima e má, pois ocupa o lugar de Deus para explo­rar e oprimir o povo. Se­ria bom que nossas autoridades, princi­palmente os que acreditam em Deus, refletissem sobre os ensinamentos desses livros e se perguntassem que tipo de autoridade estão sendo.

Para refletir:  a) Qual a importância de 1Sm? b) Quais as versões sobre o surgimento da auto­rida­de? c) Qual a função da autoridade política? d) Ler e comentar 1Sm 8.

14. SEGUNDO LIVRO DE SAMUEL: A AUTORIDADE  IDEAL

“Jônatas, a tua morte dilacerou-me o coração, tenho o coração apertado por tua causa, meu irmão Jônatas. Tu me eras imensamente querido, a tua amizade me era mais cara do que o amor das mulheres. Como cairam os heróis e pereceram as armas de guerra”? (2Sm 1,25-26).

O segundo livro de Samuel continua  a narração de 1Sm, abarcando o período que vai de 1010 a 971 a.C. O livro está centrado na figura de Davi, cuja história começa já em 1Sm 16, e nas lutas dos pretendentes para suceder-lhe no trono de Jerusalém. Podemos dizer que 2Sm continua a avaliação do sen­tido e da função da autori­dade política.

Davi é apresentado como o rei ideal, que obedece a Deus e serve ao povo. Graças  à sua habili­dade política, ele consegue aos poucos captar a simpatia das tribos, sendo primeiro aclamado rei de Judá, sua tribo, e de­pois rei também das tribos do Norte. Após ter conseguido reunir todo o povo, Davi conquista Jerusalém e a torna ao mesmo tempo o centro do poder político e da religião de Israel. O ponto mais alto da sua história é a pro­fecia de Natã (2Sm 7), onde o profeta anuncia que o trono de Jeru­salém sempre será ocupado por um Messias (= rei ungido) da família de Davi. é a criação da ideologia messiânica: o povo será sempre governado por um Mes­sias, descendente de Davi. Logo depois começa a competição pelo poder e pela sucessão e, finalmente, o trono é ocupado por Salomão, filho mais novo de Davi (2Sm 9 – 1Rs 2).

Davi passou para a história como o modelo de autoridade política justa. Por isso, mesmo com o fim da realeza, os judeus permaneceram confiantes no ideal messiânico e ficaram à espera do Mes­sias que iria reunir o povo, defendê-lo dos inimigos e organiza-los numa sociedade justa e fraterna. Dizendo que Jesus é des­cendente de Davi, os Evangelhos mostram que Jesus é o Messias esperado (daí o nome grego Cristo = Messias). Ele veio para reunir todos os homens e leva-los à vida plena na justiça e fraterni­dade do Reino de Deus.

Para refletir: a) Qual o tema de 2Sm? b) Por que Davi é considerado o rei ideal? c) Que rela­ção há en­tre Deus e Davi? d) Ler e comentar 2Sm 7,1-16.

 

15. OS LIVROS DOS REIS: DA GLÓRIA À RUÍNA

“E o rei disse: ‘Cortai o menino vivo em duas partes, e dai metade a uma e metade à outra “. Então a mulher, de quem era o filho vivo, suplicou ao rei, pois suas entranhas se comoveram por causa do filho, dizendo: ‘Ó meu Senhor! Que lhe seja dado  o menino vivo, não o matem de modo nenhum!…” (1Rs 3,25-26).

Os livros dos Reis relatam acontecimentos que vão de 972 a 561 a.C., continuando a história da mo­narquia iniciada com Saul e Davi. Depois de Salomão o império se divide (931 a.C.) em dois reinos: o reino de Is­rael, com sede em Samaria, que caiu em poder da Assíria em 722 a.C., e o reino de Judá, com sede em Jeru­salém, que caiu em poder de Babilônia em 586 a.C. Mais do que uma história, estes livros são uma reflexão teo­lógica  sobre a história  do povo e dos reis que o governaram: a fidelidade a Deus leva à bênção e à prosperidade; a infidelidade leva à maldição e ruína do exílio (cf. 2Rs 17,7-25).

No início encontramos de novo uma teologia da autoridade política: o rei deve ser fiel a Deus (1Rs 2,3) e governar com sabedoria e justiça, servindo o povo (1Rs 12,7), que pertence unicamente a Deus (1Rs 3,8-9). Mas os reis  são sempre infiéis e “fazem o mal diante do Senhor”: praticam a idolatria, divi­dem e oprimem o povo, perseguem os profetas, etc. Como  conseqüência, Israel (reino do Norte) e Judá (reino do Sul) são levados à ruína.

O Tempo e o profetismo têm um papel importante nessa história. O Templo é o lugar da reunião de todo o povo para o encontro com deus, em todas as circunstâncias da vida nacional (1Rs 8). A reforma de Jo­sias pro­cura reunir novamente todo o povo a partir do culto no Templo (2Rs 22-23). Os profe­tas são os guardiães do povo, os vigias das relações sociais e os grandes críticos da ação política dos reis. Sua intenção de fazer respei­tar a justiça e o direito está sempre em primeiro plano, e eles se ocu­pam tanto de religião como de moral e políti­ca, pois tudo deve estar submetido a Deus, o único rei sobre o povo (cf. Is 6,5; 44,6; Zc 14,16).

Muitos gostariam de não encontrar referências sociais e políticas na Bíblia. Mas é impossí­vel. Mesmo não gostando, ou não aceitando, a Bíblia é cheia de reflexões e orientações para a vida con­creta do dia-a-dia na co­munidade. Desde o AT é possível constatar estes dados, e, de modo especial estas preocupa­ções, orienta­ções e admo­estações são retratadas nos profetas, mas também nos outros livros. Portanto, se quisermos ser fiéis aos ensinamentos bíblicos, também não podemos ignorar esta postura bíblica, para não sermos também manipu­ladores da Palavra de Deus..

Para refletir: a) Os livros dos Reis apresentam simplesmente uma história? b) Quais são as ca­racte­rís­ticas de uma autoridade justa? c) Qual a importância do Templo e dos Profetas? d) Ler e co­mentar 2Rs 17,7-23.

16. OS LIVROS DAS CRÔNICAS: UMA REVISÃO DA HISTÓRIA

“Davi construiu para si edifícios, na Cidade de Davi, preparou um lugar para a Arca de Deus e ergueu para ela uma tenda. Depois disse: “A Arca de Deus só pode ser transportada pelos levitas, pois Iahweh os escolheu para carregar a Arca de Iahweh e estar sempre a seu serviço” (1Cr 15,1-2).

Os livros das Crônicas relembram muitas acontecimentos que já estão contidos nos livros dos Reis. mas não são mera repetição. Os mesmos personagens  principais, os fatos e todo o período histórico é enfocado de maneira diferente,  tendo como pano de fundo outra teologia. Podemos dizer que é uma relei­tura dos fatos, tendo em vista a situação atual de quando foram escritos.

Esses livros foram escritos numa época em que os judeus estavam, a todo custo, procuran­do man­ter a unidade, a cultura e a própria identidade. Um dos fundamentos da teologia tradicional era a crença de que os descen­dentes de Davi seriam  reis de Israel em todos os tempos. Com a chegada dos babilônicos, dos persas e dos gregos, essa crença tinha sido brutalmente apagada. O povo desanimado não dava muito crédito à autoridade dos sacerdotes que estavam em Jerusalém e não se importavam com o culto no novo Templo. a intenção do autor dos livros das Crônicas é mostrar que uma comunidade  centrada no culto estava fundamentada na história passada de Israel e que, portanto, tinha uma raiz sólida. e é o que ele pro­cura fazer. Liga o rei Davi à raça humana, apre­sentando uma genea­logia  que ia até Adão (1Cr 1-9). Dedica uma grande parte ao rei Davi, mostrando como foi que ele começou a or­gani­zar o culto, preparou a constru­ção do Templo e formou pessoas para trabalharem  no santuário (1Cr 10-29). De­pois, ressalta a atividade de Salomão em relação ao culto: construção do Templo, pre­paração das mobílias sagradas e festas (2Cr 1-9). Por fim, traçando a história do reino de Judá até o exílio, põe em relevo os reis  que fizeram refor­mas no culto (2Cr 10-36). Com este reavivamento da consciência histórica o autor procura manter o povo unido em torno de um ideal, e principalmente, não se esquecendo de que é um povo escolhido por Deus.

Para refletir: Os livros das Crônicas repetem os livros dos Reis? b) Qual a finalidade desses li­vros? c) Como esses livros apresentam o culto no Templo? d) Ler e comentar 2Cr 6.

 

 

17. ESDRAS E NEEMIAS: A RECONSTRUÇÃO DA COMUNIDADE

“Bendito sejas tu, Iahweh, nosso Deus, de eternidade em eternidade! E que se bendiga teu nome glorioso que excede toda bênção e louvor! (Ne 9,5).

Depois que Nabucodonosor destruiu a cidade de Jerusalém e o Templo, os judeus ficaram sob o do­mínio dos babilônicos e muitos deles foram levados para o exílio (586 a.C.). Quando Ciro, o rei da Pérsia, conquis­tou  a Babilônia, deu licença  para eles voltarem para a sua pátria (538 a.C.). Vários grupos retornaram. Mas como não tinham a independência nacional e política, tiveram que formar uma comuni­dade fiel às antigas tradições para poderem enfrentar  os problemas que a nova situação impunha.

O centro das preocupações foi a reconstrução do Templo, da cidade de Jerusalém e o rea­grupa­mento do povo, que estava disperso e completamente alheio às suas tradições. e nessa obra de reconstrução da a nova co­munidade sobressaíram duas personalidades : Esdras, um sacerdote que co­nhecia profunda­mente a Lei de Moisés, e Neemias, um leigo enérgico e corajoso.

Para que o povo judeu mantivesse  a sua identidade e assim pudesse sobreviver, era preciso uma rigo­rosa observância da Lei. Isso obrigou esses dois homens a tomarem medidas drásticas quanto ao culto e, prin­cipal­mente, contra os casamentos com pagãos (cf. Esd 10 e Ne 13,23-29) e contra a desi­gual­dade escandalosa (cf. Ne 5). Esse trabalho de reforma não foi feito dentro de um puro legalismo, mas com espírito de fé. Entretanto, as atitudes tomadas foram por vezes tão rigorosas, que deixaram na pe­numbra a outra face do Deus de Israel; a sua misericórdia.

As bases da reforma de Esdras e Neemias juntamente com a instituição da sinagoga, a ati­vi­dade dos doutores da Lei e o Sinédrio vão ser os alicerces do judaísmo.

Esses dois livros formam um conjunto único com os dois livros das Crônicas, que é comu­mente cha­mado de “História do Cronista”.

Para refletir: a) Quando começou e terminou o exílio? b) Quais as medidas tomadas por Es­dras e Ne­emias? c)Quais  são os alicerces do judaísmo? d) Ler e comentar Ne 5.

 

 

18. TOBIAS: O JUSTO NUNCA ESTÁ SÓ

“Sou a filha única do meu pai; ele não tem outro filho para herdar, não tem junto a si irmão algum, nem parente a quem eu deva me reservar.

Já perdi sete maridos, por que deveria eu ainda viver? Se não te apraz, Senhor, dar-me a morte, olha-me com compaixão! E não tenha eu que ouvir injúrias” (Tb 3,15).

O livro de Tobias foi escrito pelo ano 200 a.C. Apesar das aparências, o livro não narra uma his­tó­ria real, pois os acontecimentos aí descritos dificilmente se enquadram na história desse período. O livro perten­ce ao gênero sapiencial e é uma espécie de “romance” ou “novela” fictícia, destinada a transmitir um ensinamento. Há uma finalidade por trás da história contada.

Seu autor está preocupado em apresentar aos leitores o exemplo de um judeu justo e fiel a Deus. Atra­vés disso ele mostra que a verdadeira sabedoria, o caminho que conduz à felicidade, consiste em amar a Deus e obe­decer à sua vontade (mandamentos), aconteça o que acontecer

Para que o autor escreveu este livro? Sabemos que nesse tempo o império grego domina todo o Oriente Médio, inclusive a Palestina. Além do domínio político e da exploração econômica, os povos dominados sofrem tam­bém a influência da cultura, religião e costumes gregos, ficando ameaça­dos na sua identidade.

O autor está preocupado com a identidade do povo judeu, principalmente dos que vivem fora da Pa­lestina, e escreve este livro para estimular e fortalecer sua fidelidade e confiança, levando-os a redesco­brir e re­valori­zar a fé, as tradições e os valores de Israel.

A finalidade do livro é, portanto, ensinar. Destaca-se, entre outras coisas, a descoberta da provi­dência divina na vida cotidiana (arcanjo Rafael), a fidelidade à vontade de Deus (Lei), a prática da esmola, o amor aos pais, a oração e o jejum, a integridade do matrimônio e respeito pelos mortos. O autor mostra, sobre­tudo, que o homem justo nunca está só, mas é sempre acompanhado e protegido por Deus.

Para refletir: a) O livro de Tobias narra uma história real? b) Qual a finalidade do livro? c) Quais os ensinamentos principais do livro? d) Ler e comentar Tb 4.

 

 

19. JUDITE: CONVITE À CORAGEM

“Em alta voz, Judite clamou ao Senhor e disse: “Senhor, Deus de meu pai Simeão, em cuja mão puseste uma espada para vingança contra os estrangeiros que desataram o cinto de uma virgem, para sua vergonha, que desnudaram sua coxa para sua confusão, e profanaram seu seio, para sua desonra, porque disseste: ‘Não será assim’; e eles o fizeram…”(Jd 9,1-2).

Este também é um livro em que o autor está interessado somente em transmitir uma men­sa­gem, não em contar uma história fatual, tal a indiferença demonstrada pela história e geografia. O livro foi escrito na Palestina em 150 a.C., na época em que a revolta dos Macabeus estava sendo levada a termo. A memória da fé, da coragem e das táticas de um povo oprimido em luta contra o opressor é o centro da mensagem.

Nos três primeiros capítulos são descritos os mecanismos de dominação das grandes po­tências da época (aparato militar, demonstração de força, intimidação). Mostram também como a maio­ria dos pequenos pa­íses, temerosos, se submetem a essas pressões. a prepotência se torna um verda­deiro ídolo, que exige adoração. nos capítu­los 4 a 7 , é apresentado um país pequeno que, mesmo sob dominação se prepara para reagir, através de uma fé práti­ca; ao mesmo tempo descreve a irritação do opressor, que não admite a insubmissão e que despreza o Deus libertador presente na história. Diante da opressão, o oprimido é tentado a fazer as pazes e a se conformar com a escravidão.

Nos capítulos 8 e 9, a apresentação de Judite nos sugere dois símbolos que se complemen­tam: o da mulher corajosa que sai em defesa de seu povo oprimido ou o próprio povo que renova sua força e fé, liderado por gente corajosa que enfrenta a covardia das autoridades e sai à luta. Nos capítulos 10 a 13, a beleza e as arti­manhas de Judite simbolizam uma fé que não dispensa os meios políticos na luta para eli­minar os dispositivos centrais da repres­são (a cabeça de Holofernes). Diante de uma primeira vitória, outros acreditam num Deus que liberta e se unem (Aquior). Por fim, a vitória comemorada rea­cende o espírito de liberdade e a necessidade de louvar o verdadeiro Deus que vence os ídolos opresso­res.

Para refletir: a) O livro narra um fato histórico? b) Qual o centro da mensagem? c) Como os opri­midos devem reagir a um opressor? d) Ler e comentar Jt 13.

 

 

20. ESTER: DEUS MUDA AS SITUAÇÕES

“Ester respondeu então a Mardoqueu: ‘Vai reunir todos os judeus de Susa. Jejuai por mim. Não comais nem bebais durante três dias e três noites. Eu e minhas servas também jejuaremos. Depois irei ter com o rei, apesar da lei e, se for preciso morrer, morrerei” (Est 4,15-17).

Este livro quer preservar a memória de uma festa que os judeus celebram até hoje: a festa de “Purim” (esta palavra significa “sortes”, como o próprio texto explica). Através de uma história criada, do tempo da domina­ção dos persas, o autor mostra o seu povo lutando para sobreviver dentro da história e se livrar do ex­termínio total. Para isso usa uma trama cujo tema central é a reviravolta das situações que pare­cem definitivas.

Podemos dizer que o Novo Testamento conserva o cerne desse tema do livro em frases como estas:  “Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11); ou “Os últimos serão pri­meiros e os primeiros serão últimos” (Mt 20,16).  Melhor ainda, todo o Magnificat, que Lucas coloca na boca de ou­tra mulher da Bíblia: Maria, a mãe do Redentor (Lc 1,46-55).

Uma coisa curiosa é que na parte mais antiga do livro de Ester, escrita em hebraico, não apa­rece nem uma vez o nome de Deus. Uma parte acrescentada depois, em grego, introduz Deus na trama da história, através de orações  e complementos. As Bíblias católicas possuem as duas partes e procuram dife­rencia-las de al­guma maneira. A Bíblia de Jerusalém faz a distinção através de letras dife­rentes.

Entretanto, mesmo na parte mais antiga onde o nome de Deus não é citado, podemos notar sua pre­sen­ça misteriosa (cf. 4,14). Ele da força e coragem e, na sua grandeza e mistério, derrota o orgulho humano, inte­res­san­do-se historicamente pelos oprimidos. Nenhuma potência humana é definitiva, e Deus não fica indiferente ao que os homens fazem dentro dos acontecimentos de seu tempo.

Para refletir: a) Para que foi escrito o livro de Ester? b) Qual o tema central? c) Como Deus apa­rece no livro? d) Ler e comentar Est 9.

 

21. OS LIVROS DOS MACABEUS: A FÉ PRODUZ RESISTÊNCIA

“Por isso levantou-se grande lamentação sobre Israel em todas as localidades do país: Chefes e anciãos gemeram, moças e moços perderam seu vigor, murchou a beleza das mulheres. Todo recém-casado entoou uma elegia, ficou de luto a esposa em sua câmara nupcial. A terra estremeceu por causa dos seus habitantes, e toda a casa de Jacó se cobriu de vergonha” (1Mc 1,25-28).

Estes livros receberam como nome o apelido de Judas, chamado “ o macabeu” , filho de Ma­tatias. Em­bora tenham o mesmo nome, são dois livros diferentes sobre o mesmo tema: descrevem as lutas de Matatias e seus filhos contra os reis sírios (selêucidas) e os judeus que a eles se aliaram; o objeti­vo da luta era a libertação religiosa e cultural do povo judaico.

O primeiro descreve acontecimentos que cobrem o período que vai de 175 a 134 a.C. Mostra como o rei sírio Antíoco  Epífanes quis introduzir à força os costumes e a cultura grega na Judéia. Mata­tias chefia  a re­sis­tência e a revolta, continuadas depois por Judas Macabeu, Jônatas, e finalmente Si­mão.

O autor identifica religião e patriotismo e descreve a luta como uma verdadeira “guerra santa” abenço­ada pelo próprio Deus, que não abandona os que lutam para serem fiéis a ele (2,61; 4,10).

O segundo livro não é uma continuação, mas uma narrativa paralela a 1Mc 1-7, apresentan­do-se como um resumo de uma obra em cinco volumes, escrita por Jasão de Cirene (2,19-32). O autor já não identifica a religião com o patriotismo, e por isso seu elogio é dirigido aos mártires e não aos defenso­res armados.

O livro, na verdade, está mais preocupado com a religião, e a história é apenas um pano de fundo para a apresentação dos costumes e das crenças religiosas do judaísmo desse período: importân­cia do Templo e das festas, poder da oração, providência divina na história, julgamento, misericórdia para com o pecador (6,12-17), crença no além e na ressurreição dos corpos (7,9-19; 12,39-45).

Para refletir a) Qual o objetivo das lutas de Matatias e seus filhos? b) Qual o tema central de 1Mc? c) 2Mc é continuação de 1Mc? Qual o tema de 2Mc? d) Ler e comentar 2Mc 6,12-17.

 

22. EXISTEM ERROS NA BÍBLIA?      

Depende de como encaramos a Bíblia. Se a tomarmos como livro científico na concepção que te­mos hoje de ciência, então é evidente que muitas coisas não correspondem ao que a ciência diz: criação do mundo em seis dias, desenrolar de toda a criação, origem do homem, etc. Se considerar­mos a Bíblia como livros que foram escri­tos diretamente por Deus, milhares de perguntas surgirão: Como Deus pode admitir que haja escra­vos? Como pode tratar a mulher desse jeito? Como pode permitir que haja tantas matanças?

Antes de responder se a Bíblia contém erros, é preciso ter presente duas coisas: a) A Bíblia é Pala­vra  de Deus na história dos homens. Deus se serviu  de autores humanos para escreve-la. e eles o fize­ram de acordo com a mentalidade da sua época, seus costumes, sua cultura e sua ciência. É dentro daquela época que a Palavra de Deus “se encarnou”, veio até nós. b) A Bíblia não é um livro de edifica­ção, onde tudo aparece puro e sem pecado. É dife­rente ler a Bíblia e ler um livro de espiritualidade qual­quer, onde tudo nos eleva, nos consola. A bíblia narra a “luta” de Deus para realizar o seu plano, o seu projeto no meio de homens que são pecadores e justos, bons e maus, frater­nos e opressores, puros e cor­ruptos. é dentro dessa realidade humana que Deus age con­tinuamente para salvar o ho­mem. E essa é a finalidade em vista da qual a Bíblia foi escrita e é Palavra de Deus. encarando assim podemos dizer, den­tro da nossa fé, que ‘os livros da Escritura ensinam com certeza, fiel­mente e sem erro, a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis que fosse colocada nas Sagradas Escritu­ras” (Dei Verbum, 11). Por isso que é importante conhecermos o tempo e a cultura de cada livro, com suas convic­ções, preocupa­ções políticas e sociais, para podermos entender realmente o valor que eles têm para nós hoje, sa­bendo atualizar a mensagem que querem transmi­tir. Se não entendermos a intenção de cada livro em seu con­texto histó­rico, podemos deturpar a essência da Bíblia e o seu obje­tivo. Aqui se vê a importância de co­nhecermos a his­tória do povo hebreu, o que estava acontecendo quando o livro foi escrito, as dificulda­des que estavam passando e o próprio modo de se ex­pressar do povo no tempo que o livro teve origem.

 

23. OS LIVROS SAPIENCIAIS

(TERCEIRO BLOCO DE LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO)

- O QUE SÃO OS LIVROS SAPIENCIAIS E POÉTICOS?

“Pereça o dia em que nasci, a noite em que se disse: ‘Um menino foi concebido’! Esse dia que se torne trevas, que Deus do alto não se ocupe dele, que sobre ele não brilhe a luz! Que reclamem as trevas e sombras espessas, que uma nuvem pouse sobre ele, que um eclipse o aterrorize!…” (Jó 3,3-5).

O nome de sapienciais é dado a cinco livros do AT: Provérbios, Jó, Eclesiástico e Sabedoria. A es­tes são acrescentados dois livros poéticos: Salmos e Cânticos dos Cânticos. Podemos dizer que es­ses livros apre­sentam a sabedoria e a espiritualidade de Israel.

Em Israel a sabedoria não é a cultura conseguida graças à acumulação de conhecimentos, mas o bom-senso e o discernimento das situações, adquiridas através da meditação e reflexão sobre a experiência con­creta da vida. Trata-se de alguma coisa que se aprende na prática e que leva à arte de viver bem. Assim, nos livros sapienciais encontramos reflexões que brotam dos muitos problemas que povoam o dia-a-dia da vida de qualquer pessoa que busca o caminho da realização e da felicidade.

A sabedoria de cunho mais popular que encontramos no livro dos Provérbios e no Eclesiás­tico apre­senta-se em forma de coleção de frases curtas, sentenças que ajudam a compreender e a en­contrar uma saída nas di­versas situações enfrentadas  pelo homem. Já os livros de Jó, Eclesiastes e Sa­bedoria são estu­dos sobre pro­blemas mais profundos e globais, como o sentido da vida, a morte, a justiça, a vida social, o mal, a natureza da sabedoria, etc. O Cântico trata de uma experiência fundamental da vida: o amor humano, símbolo do amor de Deus para com o seu povo.

A espiritualidade de Israel é apresentada no livro dos Salmos, uma coleção de 150 orações que re­fle­tem as mais diversas situações da vida do indivíduo e do povo. São verdadeiros modelos para apren­dermos a fazer a nossa oração.

Para refletir : a) O que é a sabedoria? b)  Que livros apresentam mais a sabedoria popular? c) Em que livros encontramos uma reflexão sobre os problemas mais profundos? d) Ler e comentar Pr 1,1-7.

 
24. JÓ: A VERDADEIRA RELIGIÃO

“Já que tenho tédio à vida, darei livre curso ao meu lamento, desafogando a amargura do coração. Direi a Deus: Não me condenes, explica-me o que tens contra mim. Acaso te agrada oprimir-me, desdenhar a obra de tuas mãos e favorecer o conselho dos ímpios? …Então, por que me tiraste do ventre? Poderia ter morrido sem  que olho algum me visse, e ser como se não tivesse existido, levado do ventre para o sepulcro”…(Jó 10,1-3.18-19) .

O tema central de Jó não é o problema do mal, nem o do sofrimento do homem justo e ino­cente, e muito menos o da “paciência de Jó”. O autor desse drama apaixonante dis­cute a própria concep­ção de religião. Israel concebia a relação com Deus baseada na doutrina da retribuição: Deus de­volve o bem com o bem e o mal com o mal. Ao justo Deus concede saúde, prosperidade e felici­dade; ao injusto  Deus manda desgraças e sofrimentos. isso, porém leva a uma religião de comércio, onde o homem pensa poder assegurar a própria vida e a ditar normas para o próprio Deus. Contra isso o autor mostra  que a re­ligião verdadeira é mistério de graça e gratuidade: o homem se entrega li­vre e gratui­tamente a Deus; Deus, mistério insondável, volta-se para o homem gratuitamente, a fim de estabelecer com ele uma rela­ção de vida.

O livro é uma crítica ao mercantilismo que obriga a Deus. Deus não está obrigado a obe­de­cer às concepções teológicas que o homem tem dele, por melhores que elas sejam (contra os amigos de Jó, que se apoiam  na doutrina da retribuição para defender a justiça de Deus e acusar a Jó). Tam­bém não está obrigado a satisfazer  os desejos do homem ainda que sejamos de um homem justo (contra Jó, que defende sua própria justiça,. acusando Deus de ser injusto). Deus é o mistério do amor e da vida, que cria e caminha com o homem, ajudando-o a conquis­tar a vida.

O autor quer que o homem se liberte da prisão das idéias feitas para viver a vida re­al, cheia de experiências novas, onde Deus está presente. Seu convite, colocado na boca de Jó em 42,5, é um convite à abertura e à entrega a Deus que leva à experiência do novo: “antes eu te conhecia só  de ouvir, mas agora meus olhos te vêem”. Fazer a experiência de Deus é sentir a presença de um Deus que liberta para a vida e é capaz de transgredir até algumas normas so­ciais que matam.

Para refletir: a) Qual o tema central do livro de Jó? b) O que era a doutrina da retri­bui­ção? c) Qual é o convite que o autor do livro faz aos leitores? d) Ler e comentar Jó 42,1-6.

 

 

25. SALMOS: A ORAÇÃO DO POVO DE DEUS

“O escudo que me cobre é Deus, o salvador dos corações retos. Deus é um justo juiz, lento para a cólera, mas é Deus que ameaça todo dia, caso não se convertam” (Sl 7,11-13).

O livro dos Salmos é o coração do Antigo Testamento, a grande síntese que reúne todos os temas e estilos dessa parte da Bíblia. Nele podemos ver como a história, a profecia, a sabedoria e a Lei penetraram a vida do povo e se transformaram em oração viva, colorida por todo tipo de situações pes­soais e coletivas. Os Salmos são ora­ção, a expressão da experiência do homem e do povo aliado com Deus. Neles temos um modelo de como a fé pode penetrar todas as circunstâncias da vida e um exem­plo de como todas elas podem se tornar oração.

Os Salmos são também poesia, a forma mais apropriada para expressar profundamente a reali­dade, principalmente quando esta é a vida penetrada pelo mistério de Deus, o aliado que desce até o homem para com ele construir a história, participando de sua luta pela vida e liberdade. Os Salmos são um convite para que tam­bém nós nos voltemos com atenção para a vida e a história, descobrindo aí o Deus sempre presente e pronto a se aliar e cami­nhar conosco na luta pela construção do mundo novo.

Os Salmos foram compostos para o uso repetido. Por isso não se esgotam com a experiên­cia do in­diví­duo que os criou, nem se restringem à história de um povo. Ao contrário, ficam sempre aber­tos para expri­mir situa­ções de outros indivíduos e povos, pois a roupagem dos acontecimentos e das experiên­cias podem mu­dar, mas o con­teúdo vital se repete.

Cristo rezou os Salmos, e sua vida e ação trouxeram um significado pleno ao sentido que eles já possu­íam como experiência de Israel. Depois de Cristo os Salmos passam para os cristãos como a oração por ex­celência do novo povo de Deus, comprometido com Jesus Cristo na transformação do mundo.

Nós também podemos fazer os nossos Salmos. Quando fazemos nossas orações pessoais, ba­seadas na nossa situação concreta, também estamos fazendo a mesma coisa que o autor, ou os auto­res dos salmos fize­ram. Quando não tivermos inspiração, os Salmos podem nos ajudar a rezar, com toda a poesia e profundidade que eles possuem. Além do mais, os Salmos são rezados por todos os cristãos, o que faz com que nos unamos aos sentimentos de  toda a comunidade cristã, quando os rezamos.

Tente fazer, agora, o seu salmo. Caso não consiga, reze um salmo bíblico.

Para refletir: Por que o livro dos Salmos é o coração do AT? b) Por que os Salmos são escri­tos em forma de poesia? c)Por que os Salmos servem até hoje como oração? d) Ler e comentar o Sl 94.

 

 
26. PROVÉRBIOS: DEUS FALA ATRAVÉS DA EXPERIÊNCIA

“O homem que se desvia do caminho da prudência, na assembléia das sombras perecerá” (Pr 21,16).

“Não respondas ao insensato conforme sua tolice, para não te igualares a ele” (Pv 26,4).

“Goteira pingando em dia de chuva e a mulher briguenta são semelhantes! Contê-la é o mesmo que conter o vento ou pegar o óleo com a mão” (Pr 27,15).

“O orgulho do homem o humilha, mas o espírito humilde torna-se honrado” (Pr 29,23).

O livro dos Provérbios, agrupando ditos, sentenças e alguns desenvolvimentos maiores, é um ver­dadei­ro resumo da sabedoria de Israel.   O provérbio é uma frase curta, bem construída, que ex­pressa uma verda­de adqui­rida por meio da experiência e se impõem às pessoas tanto pela forma breve como pela agudez da obser­vação. Os provérbios são ensinamentos deduzidos da experiência que o povo tem da vida e sua finalidade é ins­truir, esclarecen­do situações de perplexidade e fornecendo orientações para a vida humana, como as setas de uma estrada (1,1-7).

Os Provérbios não foram todos escritos por um mesmo autor e não pertencem todos à mesma época. a maioria deles nasceu da experiência popular, que foi depois coletada, burilada e editada por sábios pro­fissionais no período de tempo que vai de Salomão (950 a.C.) ao pós-exílio (400 a.C.) foram atribuídos ao rei Sa­lomão por causa de sua fama de sábio (1Rs 3-5), mas, se olharmos atentamente os vários subtítu­los que apare­cem no livro, poderemos facilmente distinguir nove coleções menores, pro­vindas de tempos e de mãos diferentes.

Também este livro é Palavra de Deus que transmite vida. Uma palavra que Deus comunica através das situações e acontecimentos de todo dia, que o povo capta através de sua experiência, ob­servação, reflexão e in­tuição, e depois expressa em sentenças simples, em geral bem mais profundas do que longos tratados sobre os diver­sos problemas da existência. O livro dos Provérbios é um convite a valorizar não só a cultura popular, mas também e principalmente, a percepção religiosa que o povo tem de uma Sabedoria que vem de Deus e é seu dom aos pequeni­nos; sabedoria que nem sempre é captada e compreendida pelos sá­bios e doutores(Mt 11,25).

Para refletir a) O que é um provérbio? b) Como se formou o livro dos Provérbios? c) Qual o sen­tido religioso dos Provérbios? d) Ler e comentar Pr 26.

 

 

27. ECLESIASTES: VIVER O PRESENTE

“Por isso, disse a mim mesmo: ‘A sorte do insensato será também a minha; para que então fui ser sábio?’ Disse a mim mesmo: ‘Também isso é vaidade’. Pois ninguém se lembrará jamais do néscio, nem tampouco do sábio, já que nos anos vindouros tudo será esquecido. Infelizmente, o sábio há de morrer como o néscio” (Ecl 2,15-16).

O aparente pessimismo do livro do Eclesiastes pode desconcertar mais de um leitor. na rea­li­dade po­rém, trata-se de um livro profundamente crítico, lúcido e realista sobre a condição humana. escrito num tempo em que o povo era dominado e sem nenhuma esperança de futuro melhor (250 a.C.), o autor faz um balanço so­bre a vida e busca apaixonadamente uma perspectiva para a realização do homem.

Quais os caminhos para a realização da vida e a felicidade? O autor desmonta todas as ilu­sões com que o homem se engana (riqueza, poder, ciência, prazeres, status social, trabalho para enrique­cer, etc.) e coloca-se di­ante da fria realidade: “que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga de­baixo do sol?” (1,3). Em vez de cair no desespero, o autor descobre novas perspectivas. Primei­ro, descobre Deus como o Senhor abso­luto do mundo e da história. Isto é, devolve a Deus a realidade de ser Deus. De­pois descobre o Deus sempre pre­sente, fa­zendo o dom concreto da vida para o homem, a cada instante e continuamente. Isto leva o homem a des­cobrir a pró­pria  realização como abertura para viver intensamente o momento presente, descobrindo-o como momento de rela­ção com o Deus que dá a vida e como momento de fruição da própria vida. Intensamente vivido, o presente se torna experiência da eternidade, saciando a sede que o homem tem da vida. Todavia, para que o homem viva de fato o pre­sente, é preciso que ele possa usufruir o fruto da próprio trabalho (2,10. 24; 3,13.22; 5,18-20; 9,9). E aqui o autor nos deixa diante da pergunta: que presente de vida resta para o homem quando ele é impedido de usufruir do resul­tado do trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Para refletir: a) O livro é pessimista ou otimista? b) O que o autor do livro descobriu? c) O homem pode ser feliz quando não usufrui o fruto do próprio trabalho? d) Ler e comentar Ecl 3.

 

28. CÂNTICO DOS CÂNTICOS: A EXPERIÊNCIA DO AMOR

“És bonita, minha amiga, és como Tersa, formosa como Jerusalém, és terrível como esquadrão com bandeiras desfraldadas. Afasta de mim teus olhos que teus olhos me perturbam” (Ct 6,4-5).

“Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi o meu amado que batia: ‘Abre, minha irmã, minha amada, pomba minha sem defeito! Tenho a cabeça orvalhada, meus cabelos gotejam sereno” Ct 5,2).

O título deste livro, bem traduzido, seria “o cântico por excelência” ou “o mais belo cântico”. na ver­dade, trata-se de uma coleção de cantos populares de amor (usados talvez nas festas de casa­mento, onde o noivo e a noiva eram chamados de rei e rainha). um redator uniu todos esses cânticos, formando  uma espécie de drama poé­ti­co, e atribui o escrito ao rei Salomão, que foi em Israel o patrono da literatura sapiencial. A forma fi­nal do livro, de altíssimo valor poético, remonta ao séc. V ou IV a.C.

Como interpretar o Cântico? Em primeiro lugar, trata-se de um livro sapiencial que aborda a mais pro­funda, universal e significativa experiência humana: o amor. Porém, de que amor se fala? Do hu­mano, ou do divino? Podemos dizer que o Cântico celebra inseparavelmente os dois, pois o homem, com toda a sua humani­dade, é ima­gem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27) e, além disso, como diz são João, “o amor procede de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus, e conhece a Deus… pois Deus é amor” (1Jo 4,7-8). Assim sendo, o amor humano é o espe­lho, o sacramento e a manifestação do próprio amor que existe em Deus. na pessoa dos seres humanos que se amam torna-se presente o próprio Deus, manifestando seu amor e eternizando a maior experiên­cia que os humanos podem ter de Deus e de si mesmos.

Este livro convida a descobrir e a viver a mais bela experiência da vida. convida a descobrir tam­bém o cerne do mistério do próprio Deus que se manifestou em Jesus como amor pelos homens (Jo 3,6). O Cânti­co e aquilo que ele descreve – o amor humano – podem e devem ser lidos como a maior pará­bola: a que revela a paixão e a ter­nura de Deus pela humanidade.

Para refletir: a) Como se formou este livro? b) De que tipo de amor fala o Cântico? c) Por que o amor humano revela o amor de Deus? d) Ler e comentar Ct 8.

 

29. SABEDORIA: A SABEDORIA É UM DOM DE DEUS

“A sabedoria é radiante, não fenece, facilmente é contemplada por aqueles que a amam e se deixa encontrar por aqueles que a buscam. Ela mesma se dá a conhecer aos que a desejam” (Sb 6,12-13).

Conforme a ordem cronológica, Sabedoria é o último livro do AT. O título “Sabedoria de Sa­lo­mão” é fictício,  pois seu autor, um judeu de Alexandria, escreveu o livro pelo ano 50 a.C. mais uma vez um livro sapiencial é atribuído a Salomão, o sábio por excelência em Israel.

Para  ser corretamente avaliado, o livro deve ser entendido no contexto em que nasceu. Ale­xandria era um importante centro político e cultural grego, e contava com cerca de 200.000 judeus entre seus habitantes. A cul­tura grega, porém,  com suas filosofias, costumes e cultos religiosos de uma parte, e com a hostilidade dos pagãos e às vezes perseguição aberta de outra, constituía uma ameaça constante à fé e à cultura do povo judaico que habitava no Egito. Para não serem marginalizados da so­ciedade, muitos dei­xavam os costumes e até mesmo a fé, perdendo a própria identidade para se confor­mar a uma sociedade idólatra injusta.

O autor, profundamente pelas Escrituras e pela consciência histórica de seu povo, enfrenta a si­tua­ção, escrevendo um livro que procura de todos os modos reforçar a fé e ativar a esperança, relem­brando o pa­trimônio his­tórico-religioso que conduz a uma vida justa e à felicidade. Não se trata da cultura que se conquista pelo pensamento, mas da sabedoria que vem de Deus, opondo-se à idolatria e à vida injusta que nasce dela. Esta sabedoria divina guiou magistralmente a história do povo de Deus, revelando que a verda­deira felicidade pertence aos amigos de Deus. Em outras palavras, o autor quer mostrar que a sabedoria ou senso de realização da vida não é apenas um fruto do esfor­ço do homem, mas é em primei­ro lugar um dom que Deus concede gratuitamente aos seus aliados.

Para refletir: a) Em que situação o livro foi escrito? b) O que o autor fez, diante da situação? c) Qual  a diferença entre sabedoria e cultura? d) Ler e comentar Sb 1.

 

 

30. ECLESIÁSTICO: LUTA PARA CONSERVAR A IDENTIDADE

“Toda a sabedoria vem do Senhor, ela está junto dele desde sempre. A areia do mar, os pingos da chuva, os dias da eternidade, quem os poderá contar?”(Eclo 1,1-2).

“Honra  o teu pai de todo o coração e não esqueças as dores de tua mãe. Lembra-te que foste gerado por eles. O que lhes darás pelo que te deram” (Eclo 7,27-28).

O nome “Eclesiástico” provém do uso oficial que a Igreja faz desse livro, em contraposição à Sina­goga  judaica, que não o aceita como palavra de Deus. Trata-se de uma obra escrita entre 190-180 a.C. por Jesus Ben Sirac que chegou até nós graças à tradução grega feita por seu neto em 132 a.C.

No início do séc. II a.C., a Palestina passou do domínio dos Ptolomeus (Egito) para o dos se­lêuci­das (Síria). A fim de unificar o império, exposto a conflitos internos, os selêucidas promoveram uma política de assimila­ção e procuraram impor a cultura, a religião e os costumes gregos aos povos domina­dos – um imperialismo cultural que ameaçava  destruir a identidade cultural e religiosa dos dominados. Entre os judeus houve uma corrente disposta a abrir-se ao espírito grego, desejando adaptar o judaísmo a uma civili­zação mais universal. A isso, todavia , opôs-se uma forte ala tradicionalista, que buscava pre­servar a identi­dade e salvaguardar a fé e a vocação de Israel, testemu­nha do Deus vivo para todas as nações. Ben Sirac escreveu então este livro, uma espécie de longa meditação sobre a fidelidade hebrai­ca, procurando reavivar a memória e a cons­ciência histórica do seu povo, a fim de mostrar sua iden­ti­dade própria e o valor perene de suas tradições.

O centro do livro está em Eclo 24, onde o autor identifica a Sabedoria com a Lei de Moisés (24,23). Não se  trata de leis (=  legislação), e sim dos cinco livros do Pentateuco que, em hebraico, se chama To­rá = Lei. Na visão do autor o Pentateuco constitui a Sabedoria de Israel. Com efeito, a narração toda do Penta­teuco mostra a ex­periência básica de todo homem e de qualquer povo: a sabedoria que nasce da experiência con­creta e conduz à vida.

Para refletir :a) Por que o livro tem esse nome? b) O que acontecia quando o livro foi es­crito? c) O que o seu autor pretendia? d) Ler e comentar Eclo 2.

 

31. OS LIVROS PROFÉTICOS

(QUARTO BLOCO DE LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO)

1. O QUE SÃO OS LIVROS PROFÉTICOS?

Os livros proféticos são a parte da Bíblia que contêm os escritos e a pregação de homens que de­sempe­nharam  uma função fundamental no meio de seu povo: os profetas. esse conjunto da bíblia pode ser dividi­do de vári­as maneiras. a forma tradicional, e mais comum, é aquela que os divide em pro­fetas maiores e profetas menores. Não porque alguns sejam mais importantes que os outros. Mas por causa do tamanho de seus livros.

Os profetas maiores são: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os menores são: Baruc, Oséi­as, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. a men­sagem de cada um desses profetas varia de acordo com o momento histórico em que viveram e de acordo com os ouvintes de sua prega­ção.

Embora cada um deles tenha um estilo próprio, com anúncios e denúncias especiais, pode­mos dizer que há duas mensagens fundamentais nesses escritos. A primeira é aquela que exige conver­são , para que todo um sistema seja mudado, a fim de que não recaia sobre o país o julgamento de Deus. Essa é a mensagem central dos pro­fetas que viveram antes que o povo de Israel fosse levado para o exílio.

A segunda mensagem fundamental é a dos profetas que viveram durante o exílio, na terra de Babi­lônia, e depois que o povo voltou para a sua pátria. Eles transmitem palavras de esperança, de ânimo, de encora­ja­mento;  incentivam o povo, que tinha perdido sua terra e seus ideais, para que reto­mem a cami­nhada da recons­trução e da luta, e recuperem a fé em Deus e a própria cultura. São os profe­tas da consolação. Os livros proféti­cos mostram como homens de uma fé profunda e vigorosa  em Deus procuram levar o seu povo a um relaciona­mento renovado e responsável com o Deus que julga e salva.

Muitos profetas também sofreram perseguições e incompreensões, pelo fato de apontarem as falhas sociais e as injustiças. Esta é sempre uma tarefa difícil, porque mexe com interesses particula­res e ninguém gosta de ser desmascarado ou que sejam apontados os seus erros. No entanto estas figu­ras são importantes para que a socie­dade vá se aperfeiçoando em sua vivência e não esqueça os com­promissos que tem com Deus. Mesmo hoje, quem faz algum anúncio profético, normalmente não é bem aceito. Quem está bem estabelecido nunca aceita ser incomodado. Nós continuamos matando os nossos profetas para que sejam reconhecidos na posteridade, quando suas palavras já soam como algo quase sem efeito na vida concreta.

Para refletir: a) Qual a diferença entre profetas maiores e menores? b) Qual a mensagem funda­mental dos profetas da conversão? c) E dos profetas da consolação? Ler e comentar Is 58.

 

32. OS  PROFETAS SÃO CONSERVADORES?

Os profetas bíblicos sempre exerceram uma atração fascinante pela sua coragem de ques­tionar uma si­tuação presente e vislumbrar, assim, um futuro diferente para o seu povo. Tanto isso é ver­dade que muitos che­gam a confundir os profetas com adivinhadores do futuro; outros chegaram a pensar que eles ensinavam coisas absoluta­mente novas.

Na verdade, porém, os profetas têm aspecto profundamente “conservador”. Mas não se trata de conser­vadorismo paralizante, que quer preservar a todo custo uma estrutura vigente, criando paredões para que o novo não vitalize a vida do povo. Muito ao contrário: o profeta é “conservador” jus­tamente porque sabe romper essa casca dura que faz ver, pensar e agir de acordo com aqueles que do­minam e oprimem. Ele ajuda a abrir os olhos. O que não é uma tarefa muito fácil.

O profeta é “conservador” no sentido que busca encontrar a verdadeira tradição, aquela que se achava perdida e indefesa no meio de tantas “tradições” criadas para defender interesses, para legitimar pode­res e para sus­tentar sistemas. E o cerne dessa tradição legítima que os profetas encontram é chamada de “fé exodal”, isto é, o reen­contro com o verdadeiro Deus revelado a Moisés, retornando à afirmação central do credo histórico de Israel: Eu sou Javé teu Deus, aquele que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravi­dão” (Ex 20,2; Dt 5,6).

Portanto, os profetas nos ensinam que os verdadeiros conservadores são aqueles que bus­cam na ação histórico-libertadora de Deus a sua inspiração. é a partir daí que eles analisam a situação presente, mos­trando assim qual é o projeto de Deus para o futuro do seu povo.

Para refletir: a) Os profetas prevêem o futuro? b) Em que sentido o profeta é conservador? c) O que é “fé exodal”? d) Ler e comentar Am 2,6-16.

 

37. ISAÍAS: FÉ E POLÍTICA

“Eis o meu servo que eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu espírito, ele trará o julgamento às nações” (Is 42,1).

O livro que traz o nome de Isaías pode ser dividido em três grandes partes:

Os capítulos 1-39 contêm a mensagem do profeta chamado Isaías. a preocupação central do pro­feta é a santidade de Deus, isto é, só Deus é absoluto. esse é o dado principal da fé [para que a prática não se torne uma ido­latria. em meio a grandes mudanças políticas internacionais, Isaías denun­cia a aliança com as gran­des potências, mostrando que a nação só será salva se permanecer fiel a Deus e a seu projeto, onde a justiça é o valor supremo. as­sim, uma espiritualidade baseada na santidade de Deus conduz o profeta a uma fé política, que combate os ídolos presentes na sociedade. Ele fala ainda do Emanuel, o Deus-Conosco (7,14), no qual o NT viu Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar o seu povo.

Os capítulos 40-55 foram escritos por um profeta anônimo na época do exílio em Babilônia, apre­sen­tando uma mensagem de esperança e consolação. Esse profeta é comumente chamado de Segundo Isaías. O fim do exílio é visto como um novo êxodo e, como no primeiro , Javé será o condutor e a garan­tia dessa nova li­bertação. O povo de Deus, convertido mas oprimido, é chamado de “Servo do Senhor”; o Novo Testamento atri­buiu esse título a Jesus, o justo que sofreu e morreu para nos liberar. A comunidade, depois de convertida e liber­tada, se tornará  missi­onária, luz para que as nações se voltem para o verdadeiro Deus.

Os capítulos 56-66 são atribuídos a um Terceiro Isaías. Apresentam uma coleção de orácu­los anôni­mos que procura estimular a comunidade que saiu do exílio e se reuniu em Jerusalém com os que estavam dispersos. Condena os abusos que começam de novo a aparecer e mostra qual é o verda­deiro jejum (58,1-12) para que haja no­vos céus e nova terra.

Para refletir:  a) Qual a preocupação central de Is 1-39? b) Qual a mensagem do Segundo Isaí­as? c) Quais as características do Terceiro Isaías? d) Ler e comentar Is 1.

 
38. JEREMIAS: UMA NOVA ALIANÇA

“Eu abandonei a minha casa, rejeitei a minha herança, entreguei a minha amada nas mãos de seus inimigos. Minha herança foi para mim como um leão na floresta, levantou contra mim a sua voz: por isso eu a odiei” (Jr 12,7-8).

As características do livro de Jeremias diferem dos outros livros proféticos principalmente pe­los dados pessoais e “confissões” que aí aparecem. Enquanto os outros profetas são muito parcos em des­crever sua si­tuação pessoal, Jeremias não esconde a sua alma  e nos dá um testemunho comovente das cri­ses interiores que atravessou.

Por mais de quarenta anos (628-586 a.C.), Jeremias  esteve em contínuo conflito com os seus com­pa­triotas, com seus chefes, com os sacerdotes e os falsos profetas, tornando-se discutido e debatido pelo país intei­ro (15,10). Plenamente consciente de sua missão, Jeremias anuncia com todas as forças o projeto de Deus presen­te na Aliança e sai em defesa dos pobres, oprimidos e fracos (5,26-28). por isso, ele denuncia abertamente as fal­sas segu­ranças religiosas unidas a uma prática injusta e idólatra (Jr 7) e combate a corrup­ção que mina a sua pá­tria por den­tro (Jr 2). Como outros profetas, vê na che­gada do inimigo externo o castigo de Deus por  causa dos desmandos co­metidos no seio da nação (4,5-31). Por isso é acusado, pelos militares, de derrotista e traidor, perse­guido e preso.

Podemos dizer que a missão de Jeremias fracassou, ao querer que seu povo retornasse à genu­ína ali­ança com Deus. ele se tornou uma espécie de “anti-Moisés”, sendo levado para o Egito e vendo seu povo per­der as instituições e a própria terra. No entanto, sua confiança no Deus que é sempre fiel lhe deu a capacidade de nos mos­trar que esse mesmo Deus manterá seu relacionamento conosco, superando, inclu­sive, qualquer mediação institucio­nal (31,31-34).

Para refletir: a) Por que Jeremias é um profeta diferente? b) Como Jeremias viu a invasão do ini­migo? c) Por que Jeremias é uma espécie de anti-Moisés? d) Ler e comentar Jr 31,31-34.

 
39. LAMENTAÇÕES: UM POVO HUMILHADO

“Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara de seu furor. Ele me guiou e me fez andar na treva e não na luz; só contra mim está volvendo e revolvendo sua mão todo o dia” (Lm 3,1-3).

A lamentações provavelmente foram escritas na Palestina depois da queda de Jerusalém em 586 a.C. Uma tradição as atribui ao profeta Jeremias, mas tudo indica que essa atribuição é artificial, isto é, foram es­critas por um outro autor.

As lamentações são cantos fúnebres que descrevem de modo doloroso e em forma poética a destru­ição da cidade de Jerusalém pelos babilônicos e os acontecimentos que se sucederam a essa catástrofe nacional:  a fome, a sede, as matanças, os incêndios, os saques e o exílio forçado (cf. 2Rs 24-25).

Esses poemas retratam a angústia de um povo humilhado, que faz um exame de consciên­cia, grita de arrependimento e suplica perdão. Mostram um povo que perdeu tudo, que vive numa situa­ção de­sesperada, mas que não perdeu a fé.

Uma lembrança continua presente: Deus é o Senhor de tudo e de todos. e, o que é melhor: não aban­dona o seu povo para sempre e está pronto para agir com misericórdia. Então o desespero cede lugar à ora­ção confi­ante, à confiança invencível, mesmo quando não existe motivo algum para qualquer esperança.

As lamentações são usadas na liturgia católica por ocasião da Semana Santa, para celebrar a pai­xão de Cristo, que traz esperança ao mundo. A tradição popular conservou, na procissão de Sexta-feira Santa, no canto da Verônica, um trecho das Lamentações atribuindo as palavras a Jesus: “Vós to­dos que passais pelo cami­nho, olhai e vede: Há dor como a minha dor?”(1,12).

Para refletir: a) O que são as lamentações? b) Qual o conteúdo desses poemas? c) As la­menta­ções são usadas na Liturgia? Quando? d) Ler e comentar Lm 1. e) Se você já se sentiu com uma sensação de grande tristeza e abandono, como conseguiu enfrentar e superar tal situação?

 

40. BARUC: ARREPENDIMENTO E CONVERSÃO

“Escuta, Israel, os mandamentos da vida; presta ouvidos, para conheceres a prudência. Por que, Israel, por que te encontras na terra dos teus inimigos, envelhecendo em terra estrangeira? (Br  3,9-10).

O livro de Baruc, como se apresenta hoje em nossas Bíblias, é composto de vários textos com gêneros literários diferentes. depois da introdução histórica (1,1-14), aparece uma primeira parte em prosa, con­tendo uma confissão de pecados e uma súplica (1,15-3,8). a segunda parte é em poesia e con­tém uma exortação no estilo dos li­vros sapienciais (3,9-4,4) e m oráculo que fala da restauração de Jeru­salém e do povo (4,5-5,9). Por fim, há uma carta atribuída ao profeta Jeremias (Br 6). esses textos não são de Baruc, mas provavelmente fo­ram escritos no séc. II a.C.

O livro de Baruc temo mérito de conservar os sentimentos religiosos dos israelitas dispersos pelo mundo todo, após a ruína de Jerusalém. Mostra como eles continuaram tendo uma viva consciên­cia de ser um povo que adora o verdadeiro Deus. Ao mesmo tempo, mostra a consciência que eles têm do desas­tre nacional: não atribu­em isso a uma infidelidade de Javé, mas reconhecem que os males acon­tecidos se originaram por culpa deles mesmos. Se estão nessa situação é porque desprezaram a palavra dos profetas, rejeitaram a justiça e a ver­dadeira sabedoria. Mas, ao lado dessa consciência de seus peca­dos, conservam uma viva esperança, pois acredi­tam que Deus não aban­dona o seu povo e continua fiel às suas promessas. Se houver arrependimento e conversão, estão certos do perdão di­vino: serão reunidos de novo em Jerusalém.

A carta do cap. 6 nos leva aos templos dos ídolos, cujas imagens estão empoeiradas e car­co­midas por cupins. Esses ídolos, apresentados de forma atraente e grandiosa, não têm vida e não são capazes de produzir vida: “não restaurarão o cego em sua visão, nem acudirão ao homem necessitado. Não terão compaixão da viúva, nem be­neficiarão ao órfão” (6,36-37).

Os ídolos, na realidade, eram representações dos deuses dos povos vizinhos ou dos domina­do­res. Ado­rar a esses ídolos era aceitar o modo de vida do inimigo, ser aculturado e esquecer a aliança e com­promissos com Deus. Era deixar de ser o povo de Deus.

Para refletir: Quem escreveu o livro de Baruc? b) Qual o mérito do livro? c) Do que trata a carta de Br 6? d) ler e comentar Br 1,15-22.

 

41. EZEQUIEL: UM CORAÇÃO NOVO

“Ai dos profetas insensatos, que andam segundo o seu próprio espírito e nada vêem. Os teus profetas, ó Israel, São como raposas no meio de ruínas” (Ez 13,3-4).

O profeta Ezequiel exerce a sua atividade entre os anos 593 a 571 a.C. Sacerdote, exilado em Ba­bi­lônia com uma parte do seu povo, anuncia aí as sentenças de Deus. a comunidade no meio da qual ele vive acredita que, em breve, tudo voltará a ser como antes, reduzindo o projeto de Deus a um sistema pas­sado que lhe dava segu­rança. Ezequiel, no entanto, sabe que esse sistema está agonizando implacavelmente e de maneira irre­versível: Jeru­salém será destruída! Segundo ele, o tipo de sociedade que ainda resiste sofre de uma doença crôni­ca, que  não tem cura: submeteu-se àqueles que lhe ofere­ciam uma vida fascinante e de luxo, abandonando o pro­jeto de Javé. Por isso, Ezequiel vê o próprio Deus deixando o Templo (11,22-24) e largando os rebeldes ao bel-prazer de seus “amantes”.

Isso é causa de sofrimento para o profeta, mas não de desânimo e desespero. para ele o fu­turo é uma renovação, uma ressurreição (Ez 36-37), uma perpétua novidade. No seu linguajar impetuoso e simbó­lico, ele des­creve esse novo mundo que está para surgir: o próprio Deus se tornará um santuário, o homem se tornará mais res­ponsável pessoalmente diante de seus atos (Ez 18) e totalmente transfor­mado. Jerusalém será recriada, uma nova or­dem aparecerá e dentro do homem baterá um coração um coração novo (Ez 40-48). Para Ezequiel não é hora de la­mentar a perda de um passado, mas de acreditar no futuro prometido por Deus e engajar-se na sua construção.

Ezequiel é um profeta que, inspirado por Deus, investiga uma sociedade  decadente e a consi­dera em vias de desaparecimento, mas que ao mesmo tempo vê surgir das cinzas outra, onde a justiça de Deus preva­lecerá.

Para refletir: a) Em que situação profetizou Ezequiel? b) Como esse profeta vê o futuro? c) Como Ezequiel vê a sociedade do seu tempo? d) Ler e comentar Ez 34.

 

42. DANIEL: O TRIUNFO DO REINO DE DEUS

“Que o nome do Senhor seja bendito de eternidade em eternidade, pois são dele a sabedoria e a força” (Dn 2,20).

O livro de Daniel é um escrito apocalíptico. surge no momento em que a comunidade está sendo per­seguida e em crise, no séc. II a.C. É a época em que o rei Antíoco IV quer acabar com a cul­tura, os costumes e a re­ligião dos judeus e, por isso, persegue aqueles que não se sujeitam aos padrões da cultura grega que ele pro­cura in­troduzir. a finalidade do livro de Daniel é sustentar a esperança do povo fiel e provo­car a resistência contra os opres­sores.

Na primeira parte (Dn 1-6), conta-se uma história passada sob o domínio dos persas, mos­trando  como Daniel e seus companheiros resistiram aos poderosos do império e permaneceram fiéis à sua religião, e as­sim foram salvos por Deus. na segunda parte (Dn 7,12, através de uma linguagem figura­da própria da apocalíptica, o autor di­vide a história em etapas, mostrando o conflito das grandes potên­cias. Ressalta que a úl­ti­ma etapa da história está perto, o Reino de Deus está para ser implantado e, por isso, é preciso ter ânimo, cora­gem e resistir ao opressor, per­manecendo fiel. Nessa luta sem esmoreci­mento há uma profunda convicção, fé de que o único poder é o de Deus, e de que ele é o dono da histó­ria. todos os outros poderes, por maiores que sejam, podem ser derrubados pela ação da­queles que acre­ditam que Deus é o único absoluto (Dn 2,31-47).

Assim, o livro de Daniel, dentro da apocalíptica, preocupa-se com o futuro, mas para que no pre­sente possa haver perseverança, fidelidade e resistência na preservação da própria identidade, sem se alie­nar, ape­sar de to­das as dificuldades. E mesmo para aqueles que morrem nessa luta, sabendo esco­lher o ca­minho da jus­ti­ça, descortina-se a esperança maior: a ressurreição (Dn 12,1-3).

Para refletir: a) Quando foi escrito o livro de Daniel? b) Para que foi escrito? c) O livro se pre­ocu­pa com o presente ou com o futuro? d) Ler e comentar Dn 7.

 

43. OSÉIAS: DEUS É AMOR FIEL

“Pois, na realidade, o meu processo é contra ti, ó sacerdote! Tropeçarás de dia, e contigo tropeçará, de noite, também o sacerdote; farei perecer a tua mãe. Meu povo será destruído por falta de conhecimento. Porque tu rejeitaste o conhecimento, eu te rejeitarei do meu sacerdócio; porque esqueceste o ensinamento de teu Deus, eu também me esquecerei dos teus filhos” (Os 4,4-6).

Toda a pregação de Oséias está impregnada por uma experiência pessoal tão profunda que se tor­nou para ele um símbolo (Os 1 e 3). Oséias tinha uma esposa que ele amava  de todo o eu coração, mas que o deixou para se entregar a outros amantes. esse amor não correspondido do profeta ultrapas­sou o nível de frustra­ção pessoal para ser uma enorme força de anúncio de outra relação: do Deus sem­pre fiel e cheio de amor abando­nado pelo seu povo, que preferiu correr ao encontro dos ídolos.

Oséias, torna-se, então, denunciador de todo tipo de idolatria, que ele chama de prostituição. Essa comparação entre idolatria e prostituição será daí para frente uma constante nos escritos bíblicos. Essas “prostituições”, segundo Oséias não são somente a adoração de imagens de ídolos, mas inclusive as alianças po­lí­ticas com potências estrangeiras que provocam dependência, exploração econômica e opressão (7,8-12; 8-9; 10,12-13).

Oséias, porém, não é só um acusador, mas também anuncia o amor fiel e misericordioso de Deus para com o seu povo, se este se converter e voltar a conhecê-lo. O conhecimento de Deus, para ele, não é uma ati­tude inte­lectual, mas uma adesão amorosa através de uma prática que corresponda ao projeto de Deus elaborado no deserto, por ocasião de êxodo. então sim: Javé receberá de novo seu povo como uma esposa, dispensando-lhe todo carinho (2,4-25) ou, em outra comparação, tratando-o como um filho (Os 11).

Para refletir: a) Qual foi a experiência pessoal de Oséias? b) O que é “prostituição”? c) O que é o co­nhecimento de Deus? d) Ler e comentar Os 2.

 

44. JOEL: O DIA DO JULGAMENTO

“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito. Colocarei sinais nos céus e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça” (Jl  3,1-3).

Nada sabemos a respeito do tempo em que viveu o profeta Joel. Por isso, torna-se difícil a própria in­terpretação do que ele escreveu. Podemos dividir o seu livro em duas partes: os dois primeiros capítulos narram uma terrível invasão de gafanhotos que devasta toda a plantação do país. Diante disso, Joel pede a participa­ção de todos (profetas, sacerdotes e povo) numa grande manifestação  de penitên­cia e jejum para supli­car a Deus para que afaste a catástrofe. Deus mostra a sua misericórdia e anuncia a libertação da praga e as bênçãos para uma nova plantação. como o profeta compara esses gafanhotos com um exército, talvez possa se tratar de uma invasão inimiga.

Os capítulos terceiro e quarto descrevem  o julgamento de Deus sobre as nações e a vitória fi­nal. pare­ce que a primeira parte não tem nada a ver com a segunda. Mas uma expressão une todo o livro: o dia de Ja­vé, isto é, o Juízo final. Então, o que na primeira parte eram gafanhotos ou exército ini­migo, na segunda se trans­forma em exército de Deus;  a praga se torna apenas uma comparação para exemplificar o Grande Dia em que a humanidade prestará conta a Deus. Alcançada pela penitência e pelo jejum, transforma o julgamento em dia de libertação e salva­ção: arrasada a plantação, ela surge nova e viçosa. Desse modo, uma praga de gafanhotos ob­servada atentamente serviu para que Joel me­ditasse e anunciasse o Juízo final.

O trecho mais conhecido do profeta é 3,1-5. Esses versículos são citados nos Atos dos Após­tolos, no discurso que Pedro fez no dia de Pentecostes (cf. At 2,17-21). Por isso, Joel é também chamado de profeta do Pente­costes.

Para refletir: a) Qual o tema de Jl 1-2? b) Qual o tema de Jl 3-4? c) O que é o “Dia de Javé”? d) Ler e comentar Jl 3,1-5.

45. AMÓS: CONTRA A INJUSTIÇA SOCIAL

“Procurai o bem e não o mal para que possais viver, e, deste modo, Iahweh, Deus dos Exércitos estará convosco, como vós o dizeis! Odiai o mal e amai o bem, estabelecei o direito à porta; talvez Iahweh, Deus dos Exércitos, tenha compaixão do resto de José” (Am 5,14 -15).

No início do século VIII a.C. (760 a.C.), um sitiante (7,14), chamado Amós, “caiu na ara­puca” de Deus (3,5), deixou sua vida tranqüila no sul e foi anunciar e denunciar no norte, onde reinava Jero­boão II (1,1). um “leão começava a rugir” (3,8), colocando em polvorosa todo um regime de injusti­ças. Acabou sendo expulso, mas an­tes rogou uma praga em cima do sacerdote Amasias, que dirigia o culto em Betel de acordo com aquilo que o rei queria (7,10-17). Amós anunciava que o julgamento de Deus iria atingir não só as nações pagãs, mas também o povo escolhido que já se considerava salvo, mas que, na prática, era pior que os pagãos (1,3-2,16). e Amós não de­nunciava genericamente a injustiça so­cial. Ele “dava nome aos bois”: os ricos que acumulavam cada vez mais, para viverem em mansões e palácios (3,13-15; 6,1-7), criando um regime de opressão; as mulheres ri­cas que, para vive­rem no luxo e na riqueza, esti­mulavam seus maridos a explorar os fracos (4,2-3); os que rouba­vam e exploravam, e depois iam ao santu­ário rezar, pagar dízimo, dar esmolas para aplacar a própria consciência  (4,4-12; 5,21-27); os juizes que julgavam de acordo com o dinheiro que entrava (5,10-13); os comerciantes la­drões e os “atravessadores” sem escrúpulos que deixavam os pobres em possibilidades de comprar e vender por preço justo as mercado­rias (8,4-8).

Em cinco visões, Amós anuncia o fim do reino do Norte, porque essa situação era insusten­tá­vel di­ante de Deus (7,1-9; 8,1-3; 9,1-4).

No estado atual, o livro de Amós termina com um toque de esperança (9,11-15). Tal espe­rança foi vislumbrada pelos judeus que se encontravam exilados em Babilônia, dois séculos depois. Acres­centaram este trecho, conscientes de terem se purificado de seu pecado no amargor do exílio.

Para refletir: a) Como é que Amós denunciava a injustiça social? b) Quais as injustiças que Amós de­nunciou? c) O livro também anuncia esperanças? d) Ler e comentar Am 5.

 

 
46. ABDIAS: CONTRA A FALTA DE SOLIDARIEDADE

“Porque está próximo o dia de Iahweh sobre todos os povos! Como fizeste, assim te será feito: teus atos recairão sobre tua cabeça!” (Ab 15).

O “livro” do profeta Abdias possui apenas 21 versículos e pode passar despercebido no meio de seus colegas mais famosos como Isaías, Jeremias, Ezequiel. entretanto esse profeta aborda uma questão muito sé­ria e im­portante: a necessidade de solidariedade dos mais fracos diante de um opressor mais forte. Seu país estava sendo pi­lhado e destruído pelos babilônicos. Então Abdias reparou que Edom, país-irmão (cf. Gn 25,17-28) , ao invés de aju­dar, bandeou para o lado domais forte. e Edom até estava gostando do que acontecia: aproveitava  para conquistar terras, participar da pilhagem, ajudava a matar e perseguir, “dedurava” os que estavam escondi­dos e pediam proteção (vv. 11-14). e fazia tudo isso por vingança: não perdoava as brigas passadas (Cf. 2Rs 8,20-22). Como diz Ezequiel: Edom guardou um “ódio eterno” (Ez 35,5).

Além disso, os edomitas eram arrogantes, se consideravam invencíveis (v.3), se orgulha­vam de sua sa­bedoria e da valentia de seus guerreiros. O profeta mostra que essa sabedoria se torna insensatez e tal valentia se transforma em covardia quando aliadas ao opressor maior contra um país-irmão desprotegido e atacado (vv 5-9). Abdias reconhece que Judá também não é inocente e, por isso, está sofrendo uma das situações mais trágicas  de sua história. Mas Edom é mais culpado, porque não foi fraterno nesse momento histórico crucial.

Podemos estranhar a conclusão do profeta (v. 18). Concordamos que Edom não guarde ran­cor de seu irmão e não participe com alegria selvagem da destruição de Jerusalém; mas não concorda­mos que haja des­forra. Ou­tros escritos bíblicos nos ensinam que não só devemos esperar o perdão dos nossos ir­mãos, mas também devemos perdoa-los.

Para refletir: a) Qual o tema central do livro? b) Qual a origem de Edom? c) Por que Edom tem mais culpa que Judá? d) Ler e comentar todo o livro.

 

 

47. JONAS: DEUS NÃO CONHECE FRONTEIRAS

“Iahweh disse: ‘Tu tens pena da mamoneira, que não te custou trabalho e que não fizeste crescer, que em uma noite existiu e em uma noite pereceu. E eu não terei pena de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil homens, que não distinguem entre direita e esquerda, assim como muitos animais!” (Jn 4,10-11).

O livro de Jonas é considerado profético unicamente porque em 2Rs 14,25 menciona-se um profeta com o mesmo nome do protagonista desta história. Mas a data do livro é bem posterior, e seu es­tilo e tema dife­rem muito dos de um livro profético. Enquanto os livros proféticos são, em geral, escritos em versos, Jonas é es­critos em prosa. Enquanto os profetas ameaçam as nações pagãs, o livro de Jonas relata a conversão e anuncia a misericórdia a um dos povos mais odiados por Israel. Os profetas estão soli­damente enraizados na situação políti­co-social; Jonas pa­rece estar solto no ar.

Jonas é, na verdade, um livro sapiencial. Não pertence ao gênero histórico, mas ao gênero pa­rabó­lico desenvolvido, uma espécie de “novela” para ilustrar o tema da misericórdia de Javé, que não é um Deus na­cional, mas um Deus de toda a humanidade; ele quer que todos se convertam, para que todos te­nham a vida (Jn 4,2). A obra nasceu no pós-exílio, quando o povo judeu estava se fechando num naciona­lismo exagerado e ex­clu­sivista (Esd 4,1-3; Ne 13,3), bem refletido na mesquinhez do “justo” Jonas. Mas os caminhos de Deus são di­fe­ren­tes dos caminhos dos homens: Deus quer salvar também os inimi­gos, os pagãos de Nínive, capital da Assíria, modelo de crueldade e opressão contra o povo de Israel. Deus não quer que suas criaturas se percam (Sb 1,12ss) e para ele ninguém está ir­remediavelmente per­dido (cf. Ez 18,23.32; Lc 15)

A história do peixe tornou o livro famoso. Com efeito, os evangelhos celebrizaram a figura e a aventu­ra de Jonas como um sinal de morte e ressurreição de Jesus: assim como Jonas ficou três dias no ventre do peixe, Jesus vai ficar três dias no ventre da terra, e depois ressuscitará  como Jonas que voltou à luz do dia (Mt 12,39-41 e paralelos; 16,4).

Para refletir: a) Qual a diferença entre o livro de Jonas e os outros livros proféticos? b) Qual o tema do livro? c) Por que a história do peixe ficou famosa? d) Ler e comentar Jn 4.

 

 
48. MIQUÉIAS: O DIREITO DOS POBRES

Sim, todos os povos caminham, cada qual em nome do seu deus: nós, porém, caminhamos em nome de Iahweh, nosso Deus, para sempre!” (Mq 4,5).

O profeta Miquéias nasceu em Morasti, uma vila no interior do reino de Judá. a sua origem cam­ponesa se manifesta na sua linguagem concreta, franca, sem meios termos; ele gosta das compara­ções curtas e dos jogos de palavras. Viveu numa época dura, em que a guerra contra a potência assíria devastava toda a região, em fins do séc. VIII a.C.

Miquéias, entretanto, denuncia um mal mais perverso do que a própria guerra em anda­mento: a cobiça e as injustiças sociais, nas quais ele vê a causa principal da ira de Deus (2,8). Depois de descrever os es­tragos da guerra (1,8-16), Miquéias nos conduz à capital onde vai se defrontar com os ricos, com os dirigentes po­líticos e reli­giosos. Sem papas na língua, o profeta que veio da roça acusa-os de roubarem casas e campos para se tornarem gran­des latifundiários (2,1-2); acusa-os de mandarem matar até mulheres e crian­ças para se apodera­rem das terras (2,9). com o poder nas mãos, eles dançam ao ritmo do dinheiro, falseando o peso das mercadorias (6,10-12). O profeta mostra que a riqueza deles se baseia não só na pobreza, mas no sangue de muitos (7,1-4). Eles, porém, insistem em provar, com a Bíblia na mão, que são justos (2,6-7) e que Deus está com eles (3,11); procuram combinar a opressão dos fracos com a religião. Miquéias denuncia essa perversão como uma  atitude idolátrica (1,5) e, por isso, é taxati­vo: eles, juntamente com a luxuosa capital e o próprio Templo, serão destruí­dos (3,9-12).

No livro de Miquéias existem também promessas e esperanças. Entre elas se destaca o anúncio do surgimento do Messias na pequena Belém (5,1-3). O NT retomará esse oráculo e o atribuirá a Jesus Cristo (cf. Mt 1,6).

Para refletir: a) Qual a origem do profeta e em que época ele exerceu sua atividade? b) Que mal é mais perverso que a guerra? c) Que pessoas eram acusadas por Miquéias? Por quê? d) Ler e co­mentar Mq 2-3.

 

 

49. NAUM: A RUÍNA DO OPRESSOR

‘”Todas as tuas fortalezas são como figueiras com figos temporãos, se os sacodem, caem na boca de quem os come. Eis o teu povo: são mulheres que estão em teu seio; as portas de teu país estão escancaradas aos teus inimigos;  o fogo consome o teu ferrolho” (Na 3,12-13).

Na história antiga, como na moderna, as grandes potências se sucedem e lutam  encarniça­da­mente na ânsia de dominar o mundo e os homens. A atividade profética de Naum se desenvolveu entre 663 e 612 a.C. Seu li­vro é a visão da queda de um desses impérios: a Assíria, “o leão que enchia de presas os seus antros” (2,13), o opres­sor de Israel (1,12-13). É um canto em que o oprimido sente a sua libertação, porque o império que domi­na as na­ções está prestes a vir abaixo. Um salmo inicial mostra Javé como juiz, agindo na história (1,2-8). ele é apresentado como o Deus ciumento e vingador, cheio de furor (1,2) e ao mesmo tempo como o Deus bom, um abrigo para os que são perseguidos (1,7). Nesse salmo, já transpa­rece que Javé é o Senhor de tudo e de todos, de oprimidos e opressores, Mas de ma­neira diferente. Nas sentenças seguintes (1,9-2,1), dirigidas alternadamente ao oprimido (Judá) e ao opres­sor (Assíria), Javé também se apresenta alternadamente como vingador e como bom.

A ruína de Nínive, capital da Assíria (2,2-3,19), é descrita de maneira grandiosa e sem meios ter­mos, não deixando dúvidas quanto àquele que destrói a capital sanguinária e idólatra: é o pró­prio Deus (2,2; 2,14; 3,15: “Eis-me contra ti”).

Naum deixa bem claro uma coisa: os grandes poderes do mundo não são eternos. Por mais que eles dominem e amontoem, por mais que oprimam e humilhem os pequenos, um dia ruirão como Nínive. Aliás, desa­pare­cerão da história justamente porque agem assim. Sobre todas os opressores obs­tina­dos pesa o julgamento im­placável de Deus, que toma o partido dos oprimidos.

Para refletir: a) Como Deus é apresentado pelo profeta? b) O que Naum deixa bem claro? c) Esse livro é aplicável aos dias de hoje? d) Ler e comentar Na 1.

 

50. HABACUC: O JUSTO VIVERÁ POR SUA FIDELIDADE

“Verdadeiramente a riqueza engana! Um homem arrogante não permanecerá, ainda que escancare suas fauces como o Xeol, e, como a morte, seja insaciável; ainda que reuna para si todas as gentes e congregue a seu redor todos os povos! Não entoarão, todos eles, uma sátira contra ele?” (Hb 1,5-6).

O profeta Habacuc inicia o seu livro interrogando a Deus e pedindo socorro, pois ele está can­sado de ver o seu país sofrer uma opressão violenta, onde a Lei enfraquece, o direito está distorcido e onde o ímpio cerca o justo (1,2-4). a resposta de Deus é a intervenção de uma grande nação, que deveria corrigir os desmandos (1,5-10). Mas essa resposta não satisfaz o profeta, pois o invasor não surge para fazer justiça, mas para substituir uma violên­cia por outra pior ((1,12-17). Habacuc continua esperando uma resposta satis­fatória de Deus. Esta vem e, agora, com uma proposta diferente, mais difícil, que exige paciência, mas que não falha: ö justo viverá por sua fidelidade (2,4). Os que sofrem as conseqüências da violência agora são chamados a serem agentes na histó­ria, opondo-se firmemente  aos que não são re­tos. Isso só será possível se esse grupo for fiel à vontade de Deus, se estiver permanentemente vigi­lante na realização da justiça.

No momento em que os injustiçados se descobrem não só como vítimas, mas principalmen­te como agentes de uma transformação na história, surge a possibilidade e a coragem de desmascarar os opres­sores e de cele­brar a sua queda e o surgimento de uma nova era, de um mundo novo. O desmasca­ramento do opressor (2,5-19) se realiza através de uma desmistificação de sua potência, até chegar ao cerne de sua fraqueza: são adorado­res de ídolos mudos e inertes que não podem vir socorrê-los no  mo­mento crucial. A celebração do justo, “no tom de lamentação”, é cheia de estremecimentos e temores, mas traz  uma certeza: a justiça um dia se tornará reali­dade, porque o seu Deus é um Deus vivo que age na história (3,1-19).

Para refletir: a) Por que o profeta pede socorro? b)Qual a resposta definitiva de Deus? c) Como des­mascarar o opressor? d) Ler e comentar Hab 2,1-4.

 

 

51. SOFONIAS: OS POBRES DA TERRA

“Vou, na verdade, suprimir tudo da face da terra, oráculo de Iahweh. Suprimirei homens e gado, suprimirei os pássaros do céu e os peixes do mar, farei tropeçar os perversos e aniquilarei os homens da face da terra, oráculo de Iahweh” (Sf  1,2-3).

O profeta Sofonias viveu e pregou num momento em que Judá era objeto de disputa de gran­des po­tên­cias da época. Dentro do país se formaram dois partidos: um querendo ficar sob a área de influên­cia do Egito, outro da Assíria. Durante um longo período, nos reinados de Manassés e Amon, a Assíria dava as cartas. Uma tentativa de mudar a situação em prol do Egito,  através de uma revolta de oficiais da corte, não obteve sucesso, pois cidadãos de grande influência econômica reagiram e coloca­ram no trono Josias, ainda menor de idade.

esse rei, mais tarde, promoverá uma grande reforma, mas por enquanto a situação voltava a ser a mesma: o que era bom para a Assíria, era bom para Judá, inclusive na maneira de vestir (1,8). (Essa faci­lidade de as­sumir como bom para si o que é bom para um país mais rico é bem antiga). É aqui que entra Sofonias, entre os anos 640 e 630 a.C. ele mostra como sobre toda essa situação pesa o Julga­mento de Deus, o Dia de Javé (1,2-18). Para Sofonias o Dia de Javé não é essencialmente o fim do mundo e da histó­ria, mas a transformação do povo de Deus e o fim de uma era de idolatria. E, para o profeta, os ídolos não são somente as divindades estran­geiras, mas a absoluti­zação das grandes potências, do di­nheiro e do poder. Esses ídolos estão presentes nas outras nações e na cidade de Jerusalém, tanto no palácio real, como no Templo e nos bairros das cidades. (2,4-3,8).

A única possibilidade de salvação que Sofonias vislumbra para escapar à ira divina são os po­bres da terra (2,3), isto é, os destituídos de poder e riqueza que depositam sua confiança no verdadeiro Abso­luto, cla­mando por justiça. São eles os únicos que poderão formar um “resto” para conduzir na his­tória o projeto de Deus e assim re­verter o Dia de Javé de dia de destruição em dia de alegria e restaura­ção (3,9-20).

Para refletir a) Em que situação profetizou Sofonias? b) O que é o Dia de Javé para Sofoni­as? c) Quem são os “pobres da terra”? d) Ler e comentar Sf 2,1-3.

 

 
52. AGEU: RECONSTRUÇÃO DA COMUNIDADE

“Ainda um pouco de tempo e eu abalarei o céu, a terra, o mar e o continente. Abalarei todas as nações, então afluirão as riquezas de todas as nações e eu encherei este Templo de glória, disse Iahweh dos Exércitos. A glória futura desse Templo será maior do que a passada, disse Iahweh dos Exércitos, e neste lugar eu darei a paz, oráculo de Iahweh dos Exércitos” (Ag  2,6-9).

Quando os judeus voltaram do exílio de Babilônia no ano 538 a.C., a situação de Judá e Jer­usalém era deplorável: cada um procurando se defender sozinho, sem nenhum interesse em formar uma unidade que lhes desse característica de povo. mesmo os que voltaram do exílio estavam mais preocu­pados em construir a sua pró­pria casa, plantar a sua roça, vender suas mercadorias do que restabelecer a dignidade nacional. Um leigo (Zorobabel) e um sa­cerdote (Josué) procuram reunir todo esse pessoal e reconstruir Jer­usalém e o Templo para reestruturar o povo de Deus. No ano 520 a.C., o profeta Ageu entra em cena para encorajar os seus compatriotas. Suas exortações têm como tema: se o Templo for reconstruído, tudo me­lhorará, pois Deus habitará de novo no meio deles e espalharás su­as bênçãos. Trata-se de um apelo veemen­te para tornar viva e fraterna essa comunidade que está ameaçada de total desintegração.

Ageu, entretanto, não se contenta em estimular o presente, mas procura fazer ver um futu­ro, uma espe­rança maior para o povo de Deus, que retornará à sua grandeza anterior, tendo como chefe um descendente de Davi.

Esse Templo, que ganhará dimensões magníficas no tempo de Herodes, será deturpado e se tornará uma fonte de exploração. Jesus vai criticar essa degradação do lugar de encontro com Deus e sím­bolo de unidade do povo e anunciará a substituição desse Templo por outro: o seu próprio corpo (Jo 2,21). desse modo, torna-se presente um futuro maior do que aquele sonhado por Ageu: o verdadeiro Templo que dá vida e une o povo de Deus é o pró­prio Filho de Deus que se fez homem e que não é só descendente de Davi, mas seu Senhor.

Para refletir: a) Qual a situação de Judá e Jerusalém depois do exílio? b) Qual o tema da prega­ção de Ageu? c) Qual o verdadeiro templo para os cristãos? d) Ler e comentar o livro de Ageu.

 

53. ZACARIAS: A MESMA CERTEZA EM DUAS SITUAÇÕES

“Pedi a Iahweh a chuva no tempo das chuvas tardias. É Iahweh quem faz as tempestades. Ele lhes dará o aguaceiro, a cada um a erva no campo. Porque os serafim predizem a falsidade e os adivinhos vêem mentiras, os sonhos falam coisas sem fundamento e consolam em vão. Por isso eles partiram como ovelhas que sofrem porque não têm pastor” (Zc 10,1-2).

A primeira parte do livro, composta pelos capítulos 1 a 8, contém os oráculos do profeta Zaca­rias, con­temporâneo de Ageu. É uma época em que a comunidade judaica procura reconstruir suas bases de fé e vida social. O povo, sofrendo ainda a amarga provação de uma dominação estrangeira, sente-se desenco­rajado  e per­gunta: “Deus ainda continua presente em nosso meio?” Zacarias, em orá­culos e visões, mostra que Deus continua aí para realizar, através  da comunidade, o seu projeto. O profe­ta reanima a esperança  de um povo que passa por grandes dificulda­des materiais e dúvidas de fé e que, por isso, está tentado a uma resignação passiva. Zacarias es­timula seus compatri­otas a arregaçarem as mangas para reconstruir o Templo, símbolo da fé e da unidade nacio­nal. Ao mesmo tempo, de um modo realista, incentiva a formação de um novo quadro político centrado em Zoro­babel e Josué.

A segunda parte, formada pelos capítulos 9 a 14, foi escrita no período em que os gregos do­mina­vam a Palestina, depois da grande campanha de Alexandre Magno. O autor olha para o futuro do povo de Deus. Rejeita du­as tentações: tomar o império de Salomão e o militarismo de Alexandre Magno como modelos, ambos foram opresso­res. Segundo o profeta, o fundamental é admitir o senhorio absoluto de Deus. Anuncia também o aparecimento do messias com três características: rei (9,9-10), bom pastor (11,4-17 e 13,7-9) e “trespassado” (12,9-14). Ao ler esta segunda parte, é impossível não lembrar Jesus entrando montado num burrinho em Jeru­salém (rei-messias) ou quan­do afirma: “Eu sou o bom pastor” ou ainda quando sofre a paixão e morre  na cruz (trespassado).

Para refletir:  a) De que trata Zc 1-8? b) De que trata Zc 9-14? c) Qual a relação entre o livro e a pes­soa de Jesus? d) Ler e comentar Zc 11,4-17.

 

54. MALAQUIAS: PARA UMA RELIGIÃO SINCERA

“Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dias de Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir o país com anátema” (Ml 3,23-24).

Estimulada pelos profetas Ageu e Zacarias, a comunidade judaica, que tinha voltada do exílio de Babi­lônia, reconstruíra o templo de Jerusalém e retornara a uma vida normal.

Entretanto, cinqüenta anos depois, a apatia e o desleixo tomam conta da comunidade e a fé não é mais força de vida, mas um culto formalista e sem vida.

Nessa época surge um profeta, o último dos profetas clássicos. Ele mostra que a submissão a um frio código de leis não tem sentido; Deus,. que ama como um pai, exige com urgência uma resposta e espera um compor­tamento de respeito e amor (1,6).

E essa resposta não deve ser dada com palavras, mas na prática: uma liturgia celebrada com cora­ção e vida (1,6-2,9; 3,6-12), uma vida matrimonial responsável (2,10-16) e um relacionamento social baseado na justiça (3,4-5).

Em estilo de perguntas e respostas, Malaquias obriga os ouvintes a rever sua fé e lutar con­tra a hi­po­crisia de uma religião desligada da vida cotidiana e da prática da justiça.

Malaquias  anuncia também um misterioso mensageiro (3,1), no qual os evangelistas (cf. Mt 11,10; Lc 7,27; Mc 1,2) reconhecem João Batista, o percursor de Jesus.

Por fim, o profeta relembra que Deus não se esquece dos justos, isto é, daqueles que procu­ram fa­zer a vontade de Deus, levando adiante  seu projeto. A vitória final caberá a eles e não aos ímpios (3,13-21).

Com Malaquias nós terminamos esta exposição breve de cada livro do AT. Foi dada uma vi­são ge­ral que serve para começar a entender a Bíblia. É claro que cada livro exige um tratamento muito mais detalhado para quem deseja um conhecimento mais profundo dos mesmos. É possível que numa outra oportunidade seja possível re­tomar algum livro, de modo especial e fazer um estudo sobre o mesmo, caso haja manifestação de inte­resse. No pró­ximo número do jornal começaremos a falar sobre o Novo Tes­tamento, também no mesmo estilo, para que se tenha uma visão geral de toda a Bíblia.

Para refletir: a) Como era celebrado o culto no tempo de Malaquias? b) Como o profeta re­agiu a isso? c) Segundo os evangelistas, quem é o misterioso mensageiro? d) Ler e comentar Ml 3,1-5.

 

 

SEGUNDA PARTE DA BÍBLIA

O NOVO TESTAMENTO

1. O QUE É O NOVO TESTAMENTO? 

A partir de hoje nós vamos começar a estudar o NT. ou a Nova Aliança. Esta é a parte da Bí­blia onde en­contra­mos o anúncio da pessoa de Jesus Cristo. Sua mensagem central é o próprio Filho de Deus, que veio ao mundo para estabelecer a aliança definitiva entre Deus e os homens. Sendo Deus-e-Ho­mem, o próprio Jesus é a expressão total dessa aliança: ele mostra que Deus é pai para os homens, e como os homens devem viver para se tornarem filhos de Deus.

Através de sua palavra e ação, Jesus inaugurou a nova aliança ou, em outras palavras, o Reino de Deus. Esse Reino ou aliança não é mais aliança com um povo. É aliança aberta a todos os ho­mens, todos os po­vos de todos os tempos e lugares. Em Jesus, Deus quer reunir toda a humanidade como uma família em que todos são cha­mados a viver como irmãos, repartindo entre si todas as coisas. Essa grande reunião, onde tudo é partilha e fraterni­dade no amor, é o Reino de Deus que, semeado na história, vai cres­cendo até que se torne realidade para todos.

Jesus não deixou nada escrito.  Ele  pregou, ensinou e colocou em prática a vontade de Deus. Isso fez com que ele entrasse em conflito com a estrutura da sociedade, que o perseguiu, prendeu e matou. Mas Jesus ressus­ci­tou, enviou o Espírito aos seus seguidores, chamados apóstolos e discípulos, e estes continuaram sua mis­são, pre­gando, ensinando e fazendo como Jesus fazia. Foram eles que es­creveram o que encontramos no Novo Testa­mento. Não pretenderam fazer uma biografia de Jesus, nem uma história ou crônica da ação dos seus segui­dores. Eles quise­ram, em primeiro lugar, anunciar Jesus para que os homens tivessem fé e se comprometessem com Jesus. Fé e com­promisso que significam continuar sua palavra e ação, construindo o Reino.

Para refletir: a) Qual a mensagem central do NT? b) O que Deus quer realizar através de Jesus? c) O NT é uma biografia de Jesus e dos seus discípulos? d) Ler e comentar 1Jo 1,1-4.

 

 

2. COMO SE DIVIDE O NOVO TESTAMENTO?

O NT é um conjunto formado por 27 livros, agrupados conforme temas e estilos diferentes: evan­ge­lhos, atos dos apóstolos, cartas (ou epístolas) e apocalipse. Nesse conjunto encontramos o anún­cio da pessoa de Jesus e as conseqüências que esse anúncio trouxe, principalmente para seus seguido­res.

Os evangelhos são quatro formas de anúncio de Jesus, escritas no ambiente de comunida­des dife­rentes. Por isso tratam da pessoa, das palavras e das ações de Jesus de modo ao mesmo tempo seme­lhante e dife­rente. Não são biografia ou história, e sim um anúncio para levar à fé em Jesus, isto é, ao com­promisso de conti­nuar sua obra, pela palavra e ação.

Os Atos dos Apóstolos é a segunda parte do evangelho de São Lucas. mostra como o anúncio de Jesus e a formação das comunidades cristãs se expandiu, chegando a Roma, centro do mundo naquela época. Aí vemos o sentido da missão cristã: levar a boa-nova do Evangelho a todos os homens, para que todos possam to­mar conheci­mento de Jesus e pertencer ao povo de Deus.

As cartas ou epístolas são escritos dirigidos às primeiras comunidades cristãs. Elas não só nos dão uma idéia dos problemas dessas comunidades, mas nos ajudam também a ver e a nos orientar nos problemas de nossas comunidades atuais.

O Apocalipse de São João é um livro escrito em linguagem figurada, porque se dirige aos cris­tãos em tempo de perseguição. Apresenta Jesus Ressuscitado como Senhor da história, e mostra como os cristãos de­vem anuncia-lo e testemunha-lo sem medo, enfrentando até mesmo a própria morte.

A partir do próximo número nós vamos começar a ver cada um desses livros do NT, inici­ando pe­los evangelhos.

Para refletir: a) Como são agrupados os livros do NT? b) Que parte você prefere ler no NT? Por quê? c) Ler e comentar 2Tm 3,14-17.

 

3. O QUE SÃO OS EVANGELHOS

Evangelho é uma palavra grega que significa “boa notícia”. Os evangelhos de Ma­teus, Marcos, Lucas e João são escritos que nasceram em comunidades cristãs particulares, re­fletindo suas ne­cessidades, seus problemas e seu compromisso de fé com Jesus Cristo. Bem cedo esses escritos começa­ram a circular em outras comunidades, e logo se tornaram patrimônio de toda a Igreja.

Depois da morte de Jesus, os discípulos continuam a sua obra, anunciando a pessoa de Jesus e reunindo comunidades para viver um estilo de vida de acordo com a palavra e a ação de Jesus. O primeiro anúncio, também chamado querigma, era uma pregação curta, que buscava provo­car a con­ver­são e a adesão a Jesus (leia o livro dos Atos dos Apóstolos). Depois disso começava uma etapa de catequese, isto é, de educação para uma vida segundo a fé. É a esta etapa de catequese nas comunidades que remontam as tradições orais e os primeiros escritos que formaram mais tarde os evangelhos. Pode­mos dizer, portanto, que  os evangelhos são um espe­lho da catequese que era feita nas primeiras comu­nidades cristãs. São semelhantes entre si por­que tratam do mesmo Jesus. Apre­sentam variações e dife­renças porque nasceram em comuni­dades diferentes.

Os evangelhos apareceram entre 30 e 70 anos depois da morte de Jesus. Sua inten­ção não era em  primeiro lugar fazer uma biografia, uma história de Jesus. Queriam, sim, escla­recer e manter vivo nas comunidades o compromisso com Jesus, recordando e adaptando suas palavras, sua atividade e seu destino (morte e ressurreição).Deste modo, as comunidades podi­am continuamente se lembrar do que  deviam dizer e fazer e de como eram chamadas a seguir o mesmo destino de Jesus, rumo à morte e ressurreição.

Para refletir: a) Como nasceram os evangelhos? b) O que significa a palavra evan­gelho? c) O que  os evangelistas pretendem? d) Ler e comentar Lc 1,1-4.

 

 

4. MATEUS: JESUS, O MESTRE DA JUSTIÇA

“A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem achou-se grávida pelo Espírito Santo…” (Mt 1,18)

Mateus apresenta Jesus com o título de Emanuel, que significa: “Deus está conosco” (Mt 1,23). À medida que lemos este Evangelho, vamos descobrindo o significado desse título: Deus está pre­sente em Jesus, comu­nicando a palavra e ação que libertam os homens e os reúnem como novo povo de Deus. As últimas pala­vras de Jesus (Mt 28,20) são uma promessa de permanência: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”. Es­sas palavras dirigidas ao grupo dos discípulos, mostram que Mateus vê a comunidade cristã como semente do novo povo de Deus, povo que é o lugar onde se manifes­tam a presença, ação e palavra de Jesus.

Segundo Mateus, Jesus é o Messias que realiza todas as promessas feitas no Antigo Tes­tamen­to. Essa realização ultrapassa as expectativas puramente terrenas e materiais dos contemporâ­neos de Jesus, que espe­ravam apenas um rei terrestre para liberta-los da dominação romana.  Frustrados em suas expectati­vas, eles o re­jeitam e o entregam à morte. Por isso, a comunidade reunida em torno de Jesus torna-se agora a portadora da Boa Notícia a to­dos os homens, a fim de que eles façam parte do Reino do Céu.

Logo de início, Mateus apresenta Jesus como o Mestre que veio realizar a justiça: “devemos cum­prir  toda a justiça” (Mt 3,15). O restante do Evangelho mostra que, através da palavra e ação, Jesus vai educan­do a co­munidade cristã para a prática dessa justiça, isto é, vai ensinando como se deve realizar concre­tamente a vontade de Deus. Desse modo, a comunidade aprenderá a dizer a palavra certa e a realizar a ação oportuna no tempo e lugar em que está vivendo.

Para refletir: a) O que significa o título Emanuel? b) O que significam as últimas palavras de Jesus neste Evangelho? c) Como Mateus apresenta o Messias? d) Por que Jesus é o Mestre da Justiça? e) Ler e comen­tar Mt 25,31-46.

 

 

5. MARCOS: QUEM É JESUS?

“Eis que eu envio o meu mensageiro diante de ti a fim de preparar o teu caminho; voz do que chama no deserto: preparai o caminho do Senhor, aplainai as suas veredas” (Mc 1,2-3).

Marcos escreveu o seu Evangelho para responder à pergunta “Quem é Jesus?”. O evange­lista, po­rém, não responde isso diretamente. Ele apenas relata a prática ou atividade de Jesus, deixando que o leitor che­gue por si mesmo à conclusão de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus (1,1; 8,29; 14,61; 15,39). Portanto, na leitura de Mar­cos, o importante é estar atento ao que Jesus faz.

Toda a atividade de Jesus é o anúncio e a concretização da vinda do Reino de Deus (Mc 1,15). Isso se manifesta por uma transformação radical das relações humanas: o poder é substituído pelo serviço (campo político), o comércio pela partilha (campo econômico), e alienação pela capacidade de ver e ouvir a realidade (campo ideoló­gico). Trata-se de uma proposta alternativa de sociedade, que leva ao nivelamento fraterno das pes­soas. Isso provoca a oposição dos privilegiados, e o resultado é um con­flito em que Jesus é preso e morto. Mas ele ressuscita, e sua Res­surreição é a sentença condenatória da estrutura da sociedade que o matou.

O livro de Marcos é apenas o começo da Boa Notícia ou Evangelho (1,1). O autor  deixa claro, por­tanto, que sua obra não é completa e que, para chegar ao fim, supõe que o leitor tome posição: continuar o li­vro atra­vés de sua própria vida, tornando-se discípulo de Jesus. Como discípulo, o leitor deve agora chegar  a uma decisão, isto é, reconhecer Jesus como o Messias que leva à plenitude da vida (8,29; 15,39) e aceitar o seu convite, indo ao encontro do ressuscitado na Galiléia (16,7). Não se trata sim­plesmente de voltar a ler o Evange­lho desde 1,14 e sim, de continuar no tempo presente  a atividade con­creta de Jesus, através de uma prática que faça renascer continua­mente a esperança da vinda do Reino.

Para refletir: a) Qual o tema central do Evangelho de Marcos? b) Por que Marcos relata mais a ati­vi­dade do que a doutrina de Jesus? c) A atividade de Jesus provoca transformações. Quais? d) Por que o Evan­ge­lho de Marcos é apenas o começo da Boa Notícia? e) Ler e comentar Mc 8,27-29.

 

 

6. LUCAS: COM JESUS NASCE UMA NOVA HISTÓRIA

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!…Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho e o chamarás com o nome de Jesus” (Lc 1,28.30-31).

O terceiro Evangelho apresenta o caminho de Jesus como um caminho que se realiza na histó­ria. Para percorrê-lo, o Filho do Altíssimo (1,32) se faz homem em Jesus de Nazaré (2,1-7), trazendo para dentro da história humana o projeto de Salvação que Deus tinha revelado, conforme a promessa feita no Antigo Testamento (1,68-70).

O caminho de Jesus introduz o processo de libertação na história, e por isso realiza uma nova his­tória: a história dos pobres e oprimidos que são libertados para usufruírem a vida dentro de novas rela­ções entre os homens. O programa da ação libertadora de Jesus é apresentado no seu discurso na sinagoga de Nazaré (4,16-22). Trata-se de uma ação que entra  em choque com a história contada pelos ricos e poderosos que exploram e oprimem o povo, re­duzindo-o à miséria e fraqueza. O caminho de Jesus começa  a contar a história construída pe­los pobres (1,46-55; 1,67-79). Desse modo, surge entre os ho­mens o caminho da salvação, que é o caminho da paz (1,79).

O ponto alto desse evangelho está nas palavras de Jesus na cruz: “Pai, nas tuas mãos en­trego o meu es­pírito” (23,46). A morte de Jesus é a sua libertação nas mãos de Deus. Ela aparece como conseqüên­cia da sua ação voltada para os pobres e oprimidos, provocando toda a violência do sistema baseado na riqueza e no poder. Mas ela é também a libertação, por causa da obediência total e confiante a Deus. Por isso a morte de Jesus é uma “assunção”, o ápice do caminho de Jesus para o mistério de Deus. Jesus faz da sua vida e morte um ato de humil­de entrega a Deus, e Deus responde com a ressur­reição (At 2,22-24; 3,15), que revela e legitima o caminho de Jesus como o caminho da vida.

Para refletir: a) Como Lucas apresenta o caminho de Jesus? b) O que o caminho de Jesus in­troduz na história? c) Qual é o ponto alto do Evangelho de Lucas? d) Por que o caminho de Jesus é o cami­nho da vida? e) Ler e comentar Lc 15.

 

7. JOÃO: JESUS É O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA

“Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3,3).

O Evangelho de João é diferente dos três primeiros. Em Marcos e Lucas há muitos milagres e pa­lavras de Jesus. Em João encontramos apenas sete milagres, que são chamados de sinais, e alguns discur­sos que se desen­volvem lentamente, repetindo sempre os mesmos temas-chave.

O Evangelho de João é uma espécie de meditação, que procura despertar e alimentar a fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, a fim de que os homens tenham a vida (Jo 20,30-31). Jesus é o enviado de Deus, aquele que revela o Pai aos homens. Deus ama os homens e quer dar-lhes a vida. Jesus revela esse amor e realiza a von­tade do Pai, dando sua vida em favor dos homens. João procura mostrar isso através dos sete sinais que ele apre­senta na pri­meira parte do Evangelho, salientando aí a importância do compro­misso da fé. Na segunda parte, ele mostra a mesma coisa, salientando a importância do amor e narrando o supremo sinal: a volta de Jesus ao Pai, através da morte e res­surreição.

A revelação de Deus em Jesus coloca o mundo em julgamento. Diante da luz da revelação, a vida dos homens esclarece. Os que vivem conforme a vontade de Deus, aproximam-se de Jesus e o acei­tam.  Os que não vi­vem conforme a vontade de Deus, se afastam dessa luz, rejeitando a Jesus. Rea­ções de aceitação, que leva à vida, e de recusa, que leva à morte. Nós somos convidados a ler este Evangelho colo­cando-nos neste clima de jul­gamento para tomarmos uma decisão: aceitar e continuar a obra de Jesus, pondo-nos a serviço a serviço da vida dos irmãos, ou rejeitar a Jesus, aprovando um sis­tema de exploração e opressão.  A primeira atitude nos conduz definitivamente para a vida; a segunda, definitivamente para a morte.

Para refletir: a) Quais as principais diferenças entre o Evangelho de João e os outros Evan­ge­lhos? b) O que João salienta na primeira parte do Evangelho? c) O que João salienta na segunda parte do Evangelho? d) Por que Jesus provoca o julgamento?  e) Ler e comentar Jo 9.

 

 

8. ATOS DOS APÓSTOLOS: A CORAGEM DO TESTEMUNHO

“Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne. Vossos filhos e vossas filhas hão de profetizar, vossos jovens terão visões e vossos velhos hão de ter sonhos” (At 2,17).

O livro dos Atos dos Apóstolos é a segunda parte do Evangelho de Lucas. Lucas apresenta a vida e a atividade terrestre de Jesus como uma grande viagem que vai da Galiléia até Jerusalém, cen­tro político-religi­oso do Judaísmo. Nos Atos dos Apóstolos, ele apresenta ele apresenta a atividade dos apósto­los como uma grande atividade que vai de Jerusalém até Roma, o centro do mundo naquela época. O re­sumo do livro dos Atos está em At 1,8: “O Espírito Santo descerá sobre vocês, e vocês serão minhas tes­temunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, até os confins da terra”. O livro dos Atos, é, portan­to,  o livro do testemunho. Há quatro pontos impor­tantes nesse livro: o querigma, a cate­quese, a vida das comunidades e a missão.

O querigma é o primeiro anúncio, para provocar a conversão daqueles que não aceitaram ou da­queles que ainda não conhecem Jesus Cristo. Esta foi a primeira atividade dos apóstolos.

A catequese é o aprofundamento na fé daqueles que já se converteram, mas sentem ne­cessidade de co­nhecer mais detalhadamente a pessoa, o ensinamento e a prática de Jesus.

A vida das comunidades: a ação dos apóstolos dá origem às primeiras comunidades cristãs, núcleo de uma nova sociedade, baseada na fraternidade e na partilha. O livro narra também as dificulda­des, os conflitos que es­sas comunidades viveram e enfrentaram.

A missão apostólica, sintetizada principalmente na figura de São Paulo. Ele é apresentado como o mo­delo do agente missionário que leva o Evangelho por todas as partes, até atingir o centro do mundo daquela época (Roma).

Para refletir: a) Qual o tema do livro dos Atos? b) O que é querigma? c) O que é catequese? d) Como o livro apresenta a vida das primeiras comunidades cristãs? e)Como São Paulo é apresentado no livro? f) Ler e co­mentar At 10.

 

 

9. AS CARTAS DO NOVO TESTAMENTO

Carta ou epístola?

Epístola é a mesma coisa que carta. No Antigo Testamento, dentro de alguns livros, é cita­do o con­teú­do de algumas cartas (cf. 2Mc 1). Mas é no Novo Testamento que as cartas foram conserva­das em abundância e como parte integrante da revelação de Deus.

As cartas paulinas

São correspondência atribuídas ao apóstolo Paulo, e que foram enviadas a diversas comu­nida­des cris­tãs: uma aos romanos, duas aos coríntios, uma aos gálatas, uma aos efésios, uma aos filipen­ses, uma aos co­lossenses, duas aos tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito e uma a filêmon. A carta aos hebreus é propria­mente um ser­mão e não pertence a Paulo.

Essas cartas não são tratados de teologia, isto é, não apresentam uma visão completa da dou­trina cris­tã. São respostas dadas a situações concretas e problemas específicos das primeiras comu­nidades cristãs, espa­lhadas em terras pagãs. Revelam as dificuldades, a perseverança e a ousadia na grande missão de fazer surgir grupos cristãos em meio a situações contrárias ao Evangelho.

As cartas católicas

São sete cartas escritas por outros apóstolos: uma de são Tiago, duas de são Pedro, três de são João e uma de são Judas. A palavra católica significa universal. Essas cartas são assim chamadas porque não foram es­critas para uma comunidade ou pessoa em particular, mas endereçadas a toda a Igreja, ou seja, são universais.

Para refletir: a) Qual a diferença entre carta e epístola? b) As cartas contêm uma doutrina com­ple­ta? c) O que quer dizer católico?

 

 

10. CARTA AOS ROMANOS: A SALVAÇÃO VEM PELA FÉ

“Agora, porém, independentemente da Lei, se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas, justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que crêem – pois não há diferença, sendo que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus – e são justificados gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo: Deus o expôs como instrumento de propiciação, por seu próprio sangue, mediante a fé “ (Rm 3,21-25).

Paulo está se preparando para fazer uma visita à comunidade dos cristãos de Roma. Ele ainda não co­nhece essa comunidade, mas sabe que dentro dela existe uma grande tensão. Os membros judeus da comunida­de queriam impor a obrigação de observar a Lei judaica para os outros membros que se tinham convertido do pa­ga­nismo, dizendo que sem a Lei não poderia haver salvação. E é nessa ques­tão que Paulo entra em cheio. Ele mostra que o único que pode salvar é Deus, e que ele salva não só os judeus, mas toda a humanidade destruída pelo pecado. E Deus salva através de Jesus Cristo.

Para que a humanidade seja salva, Deus dá uma anistia geral. Mas para receber essa anis­tia, ele impõe uma única condição: que o homem acredite em Jesus Cristo como a suprema manifesta­ção do amor de Deus aos ho­mens, e se  torne seu discípulo. A seguir, anistiado de toda a vida passada, o Espírito Santo age dentro do homem e constrói uma via nova, que destrói o pecado.

Solidarizando-se com Jesus Cristo, princípio de nova humanidade (novo Adão), a humani­dade pode recomeçar seu caminho e se salvar.

Paulo quer mostrar aos judeus-cristãos de Roma e a nós que nenhuma lei salva. Por melhor que seja, a lei, mesmo judaica, não consegue destruir o pecado mas, ao contrário, até alimenta o pecado. É a fé que temos em Jesus Cristo que nos coloca no âmbito da graça, e nos possibilita, no Espírito, cons­truir a humanidade nova.

Para refletir: a) Qual a situação da comunidade cristã em Roma? b) A Lei pode salvar? c) O que é ne­cessário para que a humanidade seja salva? d) Ler e comentar Rm 7,14-25.

 

 

 

11. PRIMEIRA CARTA AOS CORÍNTIOS: PROBLEMAS E PERGUNTAS DE UMA CO­MU­NI­DADE

“Eu vos exorto, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo: guardai a concórdia uns com os outros, de sorte que não haja divisões entre vós; sede estreitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo modo de pensar” (1Cor 1,10).

Corinto era uma rica cidade comercial. A grande riqueza e a mistura de raças e religiões havi­am cria­do nela um ambiente de ganância e imoralidade. Quando Paulo escreve esta carta, a comu­nidade cristã repro­duzia, de certo modo, o ambiente vivido na cidade toda. E esta carta foi escrita com o objetivo principal de resta­belecer a união da comunidade, através de uma série de advertências e respos­tas sobre di­versos assuntos:

Crítica veemente aos grupos que brigavam entre si, cada um se apoiando na autoridade de al­gum pre­gador do Evangelho: para sanar esse problema é preciso ter sempre presente que o único líder é Cristo, e este não está dividido (1Cor 1-4). Análise de casos de imoralidade dentro da comunidade e adver­tência: nosso corpo é o templo do Espírito Santo (1Cor 5-6). Importância  do matrimônio e de outros esta­dos de vida (solteiro, viúvas) que também po­dem ser fecundos dentro do plano de Deus (1Cor 7). Resposta à questão da carne sacrificada aos ídolos; Paulo apro­veita para ensinar a verdadeira liberdade cristã, cujo limite é o respeito aos outros (1Cor 8-10). Profanação da cele­bração eucarística, onde a dife­rença de classes era acentuada e os mais pobres eram humilha­dos; Paulo dá a norma para a verdadeira celebração: Eucaristia sem amor fraterno é impossível (1Cor 11). Os ca­rismas só têm  sentido se estão a serviço do bem da co­munidade e se estão subordinados  ao dom maior, que é o amor (1Cor 12-14). No capí­tulo 15, através de exemplos tirados da natureza e da própria ressurreição de Cristo, Paulo demonstra que a ressur­reição dos corpos é inquestionável: o cerne da fé é a certeza da vitória da vida sobre a morte.

Para refletir:  a) Qual a situação da comunidade de Corinto? b) Qual o limite da liberdade pes­soal? c) O que é necessário para celebrar a Eucaristia? d) Ler e comentar 1Cor 13.

 

 

12. SEGUNDA CARTA AOS CORÍNTIOS: A FORÇA SE MANIFESTA NA FRAQUEZA

“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13).

É difícil dar uma visão ordenada dessa carta. Alguns atores chegam a pensar que são várias car­tas es­critas pelo Apóstolo. Podemos, porém, dizer que encontramos aí três grandes partes.

Na primeira parte, Paulo recorda os incidentes passados entre ele e a comunidade de Co­rinto, prin­ci­palmente o caso de alguém que o teria injuriado pessoalmente. Tito fora enviado para resolver essa questão e voltara trazendo boas notícias de reconciliação (2Cor 1-7).

Na segunda parte, encontramos duas instruções  sobre uma coleta feita em Corinto para ajudar a Igreja de Jerusalém, que estava em sérias dificuldades financeiras (2Cor 8-9). A ajuda econômica às co­munida­des mais po­bres, desde o início do cristianismo, é um sinal importante da uni­dade da Igreja de Cristo.

Po fim, na última parte (2Cor 10-13), Paulo defende ardorosamente a autenticidade do seu minis­tério. Trata-se de um diário apaixonado do Apóstolo. Os coríntios o haviam pressionado, pedindo contas da ori­gem da sua vocação, da autenticidade do seu Evangelho e da sinceridade do seu comporta­mento. Paulo reage magoado e, com firmeza, de coração aberto, expõe a sua vida. Deixa vir à tona toda a sua personalidade: ele é forte e fraco, audaz e reservado impetuoso e terno, mas sempre fiel à sua mis­são apostólica e consciente da origi­nalidade do Evangelho que prega.

Criticado, Paulo reconhece seus limites, mas tem uma certeza, que o Senhor lhe transmite: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta  todo o seu poder” (12,9).

Para refletir: a) Do que Paulo trata em 2Cor 1-7? b) Quais as instruções dadas em 2Cor 8-9? c) Por que os coríntios pressionaram Paulo? Como ele reage em 2Cor 10-13? d) Ler e comentar 2Cor 9,6-15.

 

 

13. CARTA AOS GÁLATAS: O MANIFESTO DA LIBERDADE CRISTÃ

“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1).

Esta carta foi escrita no fim da estada de Paulo em Éfeso, provavelmente no inverno de 56-57 d.C. Paulo teve notícias de um ataque contra ele e sua doutrina nas comunidades da Galácia. Alguns judeu-cristãos, liga­dos a certos círculos de Jerusalém, queriam impor a circuncisão e a observância da lei mosaica aos pagãos converti­dos ao cristianismo. Além disso, ridicularizavam Paulo, negando sua autori­dade de apóstolo por não  per­tencer ao grupo dos doze apóstolos. Diziam também que a doutrina sobre a caducidade da Lei era uma invenção de Paulo, e não correspondia ao pensamento da igreja de Jerusa­lém. Paulo respon­deu à situação com esta carta violenta.

A carta foi definida como o manifesto da liberdade cristã e da universalidade da Igreja. Daí a sua im­portância. Contudo, libertação do quê e para quê?  Libertação de uma vida programada exter­namente por um minu­cioso código de regras e leis, que conservam o homem numa atitude infantil diante da vida. Libertação para uma vida adulta e consciente, graças ao uso responsável da liberdade. A vida do homem não deve ser determi­nada  pela relação com o código de leis, mas por um compromisso pessoal e íntimo com Cristo, que está presente no profundo do ser (2,30). A liberdade é conduzida pelo amor e a si mesmo e aos outros, amor que se identifica com o compromisso ativo com o crescimento do outro (5,6. 13s).

Ao ler a carta, nós, cristãos de hoje, somos convidados a fazer uma séria revisão da motiva­ção fun­da­mental que dirige a nossa vida cristã: ela é determinada por uma série de observância mecâ­nicas de leis e ri­tos? Ou por um compromisso com Jesus Cristo, que se realiza através de um amor res­ponsável e criativo?  Como podemos constatar, desde o início do cristianismo já existiam discordâncias entre o modo de viver o anúncio de Jesus. Paulo entra em choque com outra orientação. Alguns líderes queriam fechar o cristianismo nas leis judai­cas antigas, e Paulo se opõe com toda força. Paulo não era um ignorante das leis judaicas. Pelo contrário, era um fariseu, doutor da lei e com dupla cidadania. Até por conta dessa sua for­mação erudita é que ele teve tanta influ­ência sobre os rumos do cristianismo nos seus primeiros tempos. Um dado importante e que deve servir de exem­plo para nós hoje, é que mesmo tendo divergências os pri­meiros líderes cristãos não se dividiram, pelo contrário, se ajudavam e procura­vam sempre uma conciliação pelo bom senso, sem trair a verdade de Jesus. Paulo e Pedro tiveram sérias discussões, mas Paulo se colo­cou a disposição de Pedro e procurou ajudar a igreja de Jerusalém, e reco­nheceu a liderança de Pedro como ponto de referência de todas as igrejas.

Para refletir: a) Quais as críticas que os cristãos da Galácia faziam a Paulo? b) Qual o tema central da carta? c) Qual a importância da carta para nós hoje? d) Ler e comentar Gl 5.

 

14. CARTA AOS EFÉSIOS: O MISTÉRIO E A VIDA DA IGREJA

‘Portanto, já não sois estrangeiros e adventícios, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus. Estais edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra angular” (Ef 2,19-20).

A carta aos Efésios forma, junto comas cartas aos Filipenses, a Filêmon e aos Colossenses, o grupo assim chamado das cartas do cativeiro. Paulo parece não conhecer pessoalmente os destinatá­rios desta carta; além isso, as palavras “em Éfeso” (Ef 1,1) faltam em alguns manuscritos muito antigos.

Isso nos leva a pensar que esta carta não tenha tido na origem um endereço preciso; talvez fosse uma carta circular destinada às comunidades da região próxima a Éfeso . Alguns chegam a pensar que esta seria a carta a Laodicéia, à qual Paulo se refere em Cl 4,16.

A carta aos Efésios é uma grande meditação teológica, o fruto maduro do pensamento de Paulo. Con­templando o projeto de Deus para a salvação da humanidade, o olhara de Paulo se concentra sobre Jesus Cristo no céu. É o centro da carta.

Cristo, porém, não está longe do mundo, nem dos homens, Com efeito, sua soberania en­globa  toda a criação e toda a humanidade, que assim se torna o seu Corpo, a Igreja. Nela se manifesta o grande mistério: em Cris­to, Deus reúne todos os homens na paz e na unidade, para além de todas as se­para­ções de raça e de origem re­ligiosa.

Centro e ápice de todo o projeto de Deus, Cristo é o caminho da reconciliação e reunião de to­dos os homens como povo de Deus. A Igreja abarca a humanidade toda, e Paulo a contempla nas dimen­sões do uni­verso. Ela é descrita com as imagens da esposa (5,22-23),  do corpo (1,23; 4,16), do edi­fício de Deus (2,19-22).

Desse modo, o Apóstolo relembra os laços íntimos e orgânicos com os quais Cristo une os homens a si e dentro de uma comunidade, levando-a ao pleno desenvolvimento. A carta aos Efésios é uma teologia do mis­tério da Igreja.

Para refletir: a) A quem foi dirigida esta carta? b) Qual o centro da carta? c) Qual é o misté­rio da Igreja? d) Ler e comentar Ef 1.

 

15. CARTA AOS FILIPENSES: O VERDADEIRO EVANGELHO

“Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz! (Fl 2,6-8).

Filipos foi a primeira cidade européia a receber a mensagem cristã (At 16,6-40). A carta aos Filipenses foi escrita a partir da prisão, provavelmente em Éfeso, entre os anos 55 e 57 (At 19). Paulo está incerto so­bre o rumo que sua situação vai tomar: pode ser morto ou pode ser liberto.

Mas ele tem grande confiança que será solto e poderá visitar de novo, pessoalmente, a co­mu­nidade de Filipos.

Paulo tem vários motivos para escrever esta carta: deseja agradecer o auxílio enviado pela co­mu­nida­de; anuncia a visita próxima de Timóteo e explica a razão da volta imprevista  de Epafrodito; ad­verte a co­munidade sobre a divisão causada pelo espírito de competição e egoísmo de alguns; previne a comunidade contra os pregadores judaizantes, que colocam a salvação na circuncisão e na observân­cia da Lei; relembra  aos cristãos de Filipos que a autenticidade do Evangelho, anunciado e vivido, está na cruz de Cristo.

Paulo demonstra afeto e gratidão pela comunidade de Filipos e, por isso, quer vê-la sempre fi­el ao Evangelho. Como alguns pregadores insistem em fazer a salvação depender da Lei, o Apóstolo mostra com vigor que a salvação só depende de Jesus Cristo.

É Jesus que, feito homem e morto numa cruz, recebeu do Pai o poder de conceder aos ho­mens a salva­ção. E todo aquele que não transmitir isso pelo testemunho de vida e pela palavra, será sempre um falso transmissor do Evangelho.

Essa carta, portanto, fornece o critério para que uma comunidade cristã saiba reconhecer o ver­da­deiro Evangelho e quais são os pregadores autênticos.

Para refletir: a) Em que situação Paulo escreveu esta carta? b)  Quais os motivos que o le­va­ram a es­crevê-la? c) O que define o verdadeiro Evangelho e o verdadeiro pregador? d) Ler e comentar Fl 2,5-11.

 

 

16. CARTA AOS COLOSSENSES: O MISTÉRIO DE CRISTO

“Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda a criatura, porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis  e as invisíveis: Tronos, Soberanias, Principados, Autoridades, tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste. Ele é a Cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (Cl 1,15-18).

Os cristãos da comunidade de Colossos estavam ameaçados por uma heresia que mistu­rava ele­men­tos pagãos, judaicos e cristãos. Seus seguidores davam  muita importância aos poderes an­gélicos, às forças  cósmicas e a outros seres intermediários entre Deus e o homem, que teriam um papel importante no destino de cada pessoa.

essas idéias traziam, como conseqüência, a busca de um conhecimento desse mundo fas­cinan­te e mis­terioso que dominava os homens. Ao lado disso, depositava-se confiança numa série de observân­cias religio­sas para garantir a benevolência  desses poderes superiores: festas anuais, mensais e sábados, regras alimentares, ascese, culto aos anjos e às forças  cósmicas etc. Tudo isso comprometia gravemente a pureza da fé cristã, que vê em Cristo o me­diador único do plano divino de salvação.

Paulo mostra que Cristo é o mediador único e universal entre Deus e o mundo criado; tudo se rea­liza por meio dele, desde a criação até a salvação e reconciliação de todas as coisas. Uma vez que Deus colocou Jesus Cristo como cabeça de todo o universo, os cristãos, que morreram e ressuscitaram com ele e permanecem unidos a ele, não devem temer nada e a ninguém: nada mais, tanto na terra como no céu, pode aliená-los e escra­vizá-los.Doravante, o empenho na fé em Cristo é o único caminho para a verdadeira sabe­doria e liberdade. Só a renovação em Cristo pode quebrar as barreiras entre os homens, dando origem a novas relações humanas, radi­calmente diferen­tes daquelas que costumam existir na sociedade.

O problema tratado em Colossenses não é teórico, pois a concepção que se tem da fé deter­mina a reali­zação prática de toda a vida cristã.

Para refletir: a) Quais os problemas que ameaçavam a pureza da fé em Colossos? b) Por que Cristo é o único mediador? c) Por que não devemos temer nada e a ninguém? d) Ler e comentar Cl 1,15-20.

 

 

17. PRIMEIRA CARTA AOS TESSALONICENSES: A ESPERANÇA CRISTÃ

“No tocante ao tempo e ao prazo, meus irmãos, é escusado escrever-vos, porque vós sabeis, perfeitamente, que o Dia do Senhor virá como ladrão noturno. Quando as pessoas disserem paz e segurança! Então, lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores sobre a mulher grávida; e não poderão escapar” (1Ts 5,1-3).

Esta carta, redigida em Corinto no inverno de 50-51, é o primeiro escrito do Novo Testamen­to e o primeiro documento do cristianismo.

Tessalônica era uma grande cidade comercial e passagem de muitos pensadores e prega­dores das mais diversas filosofias e religiões. Paulo anuncia aí o Evangelho e forma um pequeno grupo. Perse­guido, ele tem que fu­gir e seu trabalho corre o risco  de se esvaziar diante das inúmeras propostas dessa grande cidade. Rece­bendo em Co­rinto notícias de que a comunidade continuava fervorosa e ativa, ele  es­creve esta carta para comuni­car a sua alegria e estimular a perseverança da comunidade.

Nesta carta Paulo também procura responder a algumas questões que preocupam a co­munida­de de Tessalônica. Uma delas é o problema da vinda gloriosa vinda de Cristo. Os tessalonicenses pensavam que essa vinda se realizaria logo e perguntavam-se: Os que já morreram não vão participar desse grande acontecimento? Paulo mos­tra que no fim da história, tanto os mortos como os vivos esta­rão reunidos para viverem sempre com Cristo ressusci­tado. A esperança é para todos, e todos participa­rão da vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte.

O Apóstolo lembra que a vida cristã é uma espera ativa do Senhor. A espera, formada de fé e per­seve­rança leva a construir a comunidade no amor. Ela faz olhar para o alto e para o fim da história, mas também leva os fiéis a se empenharem com todos os outros homens nas realidades terrestres, como o ma­trimônio e o traba­lho. Uma espera que não deixa de reforçar  a fidelidade ao Senhor, porque o céu nada mais será do que a plena manifestação da realidade que os cristãos vivem no presente da história: a união com o Senhor para sempre.

Para refletir:  a) Qual o primeiro documento escrito do cristianismo? b) Porque Paulo es­creve esta carta? c) O que é a esperança cristã? d) Ler e comentar 1Ts 5.

 

 

18. SEGUNDA CARTA AOS TESSALONICENSES: O REALISMO CRISTÃO

“Quanto a vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem. Se alguém desobedecer ao que dizemos nesta carta, notai-o, e não tenhais nenhuma comunicação com ele, para que fique envergonhado. Não considereis, todavia, como um inimigo, mas procurai corrigi-lo como irmão” (2Ts 3,13-15).

A segunda carta aos Tessalonicenses foi escrita pouco depois da primeira. Aqui, a preocu­pação não é quando vai acontecer o fim do mundo, mas como devemos comportarmo-nos na espera de que isso aconteça. Al­gu­mas pessoas da comunidade de Tessalônica, ouvindo falar que Jesus Cristo glo­rioso deveria vir em breve, se re­fugia­vam  numa falsa idéia de que as perseguições não mais aconteciam. E com isso estavam perdendo a garra cristã de lutar pela construção do Reino. a carta retoma um dado importante: a fé cristã expressa neste mundo concreto e, por isso, jamais foge da luta ou teme o conflito. A atitude de quem espera a vinda gloriosa de Cristo não é acomodar-se ou cruzar os braços, como se não houvesse mais nada que fazer neste mundo, senão olhar para o alto à espera de que tudo caia de repente lá do céu.

Ao falar sobre a proximidade da vinda de Cristo, a carta não se refere a uma urgência de tempo (2,2), mas da urgência do comportamento vigilante e ativo nas situações de perseguição e de opressão: fé ativa (1,11), per­severança (2,5), firmeza no testemunho (2,14), ânimo e coragem (2,17). A carta toma como base de seu ensinamento a apocalíptica, isto é, as coisas que falam sobre o fim do mundo. A etapa da histó­ria em que vi­vemos é a última. Por isso, a luta deve ser mais corajosa e cheia de esperança, pois a caracte­rística daqueles que esperam a chegada gloriosa do Reino de Deus é a resis­tência contra as forças do mal. E o que a carta procura in­cutir. A comunidade de Tes­salônica  estava ameaçada de perder o impulso que torna o cristianismo dinâmico e causador de profundas  transfor­ma­ções  históricas na sociedade. Ao se tornarem passivos e ao não admitirem a si­tuação de conflito, amea­çavam fa­zer  do cristianismo uma religião estática, que mantém a situação, e não uma fé ativa que trans­forma o mundo e pro­voca a vinda  definitiva de Cristo e do seu Reino. Por ser a última etapa não quer dizer que vai acabar amanhã. E isto serve para nós também hoje. São Paulo escreveu isto tudo há quase dois mil anos, e tem muita gente que quando lê essas passa­gens referentes ao fim do mundo se comporta como se as mesmas tivessem sido escritas no ano passado, ou escritas exclusivamente para quem está vivendo nesse nosso tempo (1995). Estão incorrendo no mesmo erro de in­terpretação que incorreram alguns cristãos das primeiras comunidades.

Para refletir: a) Qual a preocupação da carta? b) Como se expressa a fé cristã? c) Que é a apoca­líp­ti­ca? d) Ler e comentar 2Ts 3.

 

19. PRIMEIRA CARTA A TIMÓTEO: INSTRUÇÕES PARA O MINISTÉRIO

“A finalidade desta admoestação é a caridade, que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia. Desviando-se alguns desta linha, perderam-se num palavreado frívolo, pretendendo passar por doutores da Lei, quando não sabem nem o que dizem e nem o que afirmam tão fortemente” (1Tm 1,5-7).

Junto com a carta a Tito, as cartas a Timóteo formam um conjunto à parte na literatura que é co­mu­mente atribuída a São Paulo. Não se dirigem a uma comunidade, mas a pessoas individuais que pos­suem uma res­ponsabilidade no governo, no ensino e no comportamento das comunidades cristãs. Porque apresentam diretri­zes para os pastores, desde o séc. XVIII são chamadas Cartas Pastorais.

Timóteo foi discípulo e colaborador de Paulo, e é mencionado ou está sempre junto com o Apósto­lo quando este escreve suas cartas. Conforme Atos, Timóteo nasceu em Listra,  na Licaônia, filho de pai grego e mãe judeu-cristã. Paulo permitiu que ele fosse circuncidado (At 16,1-3). Ao passar por Listra, na sua segunda vi­agem missionária, Paulo tomou Timóteo consigo, como companheiro de viagem. Timóteo ficou em Beréia quan­do Paulo teve que fugir (At 17,14s) e depois se juntou a Paulo em Corinto. Foi man­dado para a Macedônia antes da terceira viagem de Paulo (At 19,22) e estava no grupo de Paulo no fim da terceira viagem  (At 20,4). A 1Tm deve ter  sido escrita em 64-65 e apresenta Timóteo como responsável pela Igreja de Éfeso.

A importância da 1Tm está no seu testemunho histórico sobre a organização eclesiástica. Paulo in­siste para que Timóteo desempenhe com firmeza e coragem a função que ele recebeu de Cristo através do rito, da imposi­ção das mãos (“ordenação”). Exorta-o a tornar-se anunciador e defensor da verdade (1,3-20),, a organizar o culto (2,1-15) e a ser pastor, dirigindo a comunidade na diversidade dos grupos (3,1-6,2). Estamos ainda longe de uma or­ganização jurídica rígida, mas temos aqui um verdadeiro ponto de partida para a reflexão teológica so­bre o ministé­rio na Igreja.

Para refletir:  a) O que são as cartas pastorais? b) Quem era Timóteo? c) Qual a importância da 1Tm? d) Ler e comentar 1 Tm 3.

 

 

20. SEGUNDA CARTA A TIMÓTEO: COMBATER O BOM COMBATE

“Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos. se nós o renegamos, também ele nos renegará. Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode renegar-se a si mesmo” (2Tm  2,11-13).

Embora trate dos mesmos temas da primeira carta a Timóteo e da carta a Tito, a segunda carta a Ti­móteo é um escrito bem mais pessoal, parecendo até mesmo uma carta privada. O interesse cen­tral se desloca da co­munidade cristã (1Tm e Tt) para a relação pessoal que existe entre Paulo e Timó­teo, tornando esta carta muito seme­lhante à carta a Filêmon.

Paulo está de novamente na prisão, agora em Roma, provavelmente pelo ano 67. As condi­ções são du­ras, bem diferentes das da prisão domiciliar, quando ainda podia pregar livremente (At 28,16). O apóstolo se sente só, ninguém o defendeu no tribunal, seus dias estão contados, e ele se prepara  para  o martírio. Diante do abandono, incompreensão, torturas e próxima a execução, Paulo continua firme e dá ação de graças. Antes da morte, deseja re­ver seu “amado  filho Timóteo” e confirma-lo na sua missão. Este é apresentado com traços mais precisos: uma pes­soa sensível (1,4), às vezes indeciso e sem cora­gem (1,8). Ficamos sabendo também de avó e de sua mãe Eunice (1,5).

O tema central da carta são as considerações sobre os “últimos dias”. Trata-se dos últimos tempos de Paulo, prisioneiro, doravante próximo a partir, e também dos últimos tempos da Igreja. assim o Apóstolo dese­ja rever Timóteo e relembra os próprios sofrimentos, experimenta o conforto de ter “combatido o bom combate”, e a certeza de receber a coroa da justiça. De outra parte, recomenda a Timóteo não envergonhar-se do Evangelho, mas procla­má-lo com integridade; tomar cuidado com as “palavras vãs” dos falsos pregadores que aparecerão nos últimos tem­pos, apresentando falsas doutrinas; vigiar a si mesmo e manter-se perseverante, mesmo que deva so­frer junto com Paulo por causa do Evangelho.

Para refletir: a) Qual o interesse central da carta? b) Qual a situação de Paulo? c) Qual o tema cen­tral da carta? d) Ler e comentar 2Tm 3.

 

 

21. CARTA A TITO: A SÃ DOUTRINA

“Evita controvérsias insensatas, genealogias, dissenções e debates sobre a Lei, porque para nada adiantam, e são fúteis. Depois de uma primeira e de uma segunda admoestação, nada mais tens a fazer com um homem faccioso, pois é sabido que um homem assim se perverteu e se entregou ao pecado, condenando-se a si mesmo” (Tt 3,9-11).

A  carta a Tito e a primeira carta a Timóteo tratam dos mesmos problemas. O Evangelho foi anun­ci­ado, as comunidades foram fundadas e, algumas dezenas de anos depois, aparecem os verdadei­ros problemas. Alguns cristãos, provavelmente de origem judaica, misturam o Evangelho com teorias prepara­das por alguns gru­pos judaicos que se arrogam o direito de regulamentar o uso dos alimentos e proibir o matrimônio. Por outro lado, também os cos­tumes laxos do paganismo se infiltram na comuni­dade, false­ando a moral. É preciso recordar aos cristãos que a sal­vação foi trazida por Cristo bem como traçar as gran­des linhas do comportamento para a vida privada e social e pro­ver a organização das Igre­jas.

A carta foi escrita provavelmente pelos anos 64-65. Tito, seu destinatário, é o delegado pes­soal de Paulo na ilha de Creta. Segundo Gl 2,1ss ele era grego, acompanhou Paulo e Barnabé a Antioquia e, apesar de sua origem pagã, não foi circundado para demonstrar a liberdade sobre a lei. Agora Paulo conta com ele para or­ganizar a comunidade de Creta e lutar contra os que falseiam a palavra de Deus.

O centro da carta é a “sã doutrina”, isto é, a vontade salvífica de Deus e a salvação gratuita tra­zida por Cristo. Ao redor desse núcleo giram as várias partes da carta, numa organização temática bem mais feliz que a da primeira carta a  Timóteo. Tito deve instruir presbíteros a fim de que estes exor­tem a “sã doutrina”e refutem todos os que a contradizem; além do mais, o próprio Tito deverá  “fechar a boca dessa  gente, ensinando, pondo e fazendo pôr em prática a “sã doutrina”.

Para refletir:  a) Quem era Tito?  b) Quais os problemas existentes nas comunidades? c) Qual o centro da carta? d) Ler e comentar Tt 2.

 

 

22. CARTA A FILEMON: EM CRISTO TODOS SÃO IRMÃOS

“Possa a tua generosidade, inspirada pela fé, tornar-se eficaz pelo conhecimento de todo bem que nos é dado realizar por Cristo. De fato, tive grande alegria e consolação por causa do teu amor, pois, graças a ti, irmão, foram reconfortados os corações dos santos” (Fm 6-7).

De todas as cartas de Paulo, a carta a Filemon é a mais breve, a mais pessoal e a única es­crita intei­ra­mente pelo próprio punho do Apóstolo. Como na carta aos Colossenses, Paulo está na prisão, prova­velmente em Éfeso, acompanhado das mesmas pessoas. O fato de Onésimo voltar com Tíquico para Co­lossas (Cl 4,7-9) faz supor com muita probabilidade que esta carta foi escrita na mesma data que a carta aos Colossenses. Filemon parece ser um membro importante da igreja de Colossas, talvez o líder do grupo cristão que se reúne em sua casa (vv. 1-2).

A carta é uma recomendação de Onésimo, um escravo que fugiu do seu patrão, provavel­mente após ter cometido um roubo (v. 18). Onésimo procurou o apoio de Paulo, que estava na prisão, e acabou conver­tendo-se ao cristianismo (v. 10). Paulo manda-o de volta a Filemon, pedindo a este que o trate como irmão (v.16). Desse modo o Apóstolo mostra que o evangelho põe fim nas diferenças entre os homens e faz surgir uma nova re­lação na socie­dade.

Paulo certamente não pensava em criticar o estatuto da escravidão, comum ao seu tempo, pro­vo­cando assim uma revolução social. Os cristãos ainda não tinham força e presença para exigir trans­forma­ções es­truturais da sociedade. Mas o Apóstolo deixa um exemplo que implicitamente declara que a estrutura vigente não é legítima. Com efeito, mostrando que as relações dentro da comunidade cristã devem ser fra­ternas, Paulo esvazia completa­mente o estatuto da escravidão e a desigualdade das clas­ses. Em Cristo todos são irmãos, com os mes­mos di­reitos e deveres. E só Cristo é o Senhor.

Para refletir:  a) Quem era Onésimo? b) O que Paulo pede a Filemon? c) Qual a importância desta carta? d) Ler e comentar a carta inteira.

 

 

23 CARTA AOS HEBREUS: CRISTO, ÚNICO E VERDADEIRO SACERDOTE

“A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Foi por ela que os antigos deram seu testemunho” (Hb 11,1-2).

Em geral ligada aos escritos de Paulo, a carta aos Hebreus é, na verdade, um sermão dirigi­do não aos judeus, mas a cristãos de origem judaica que provavelmente vivem em Roma. Escrito pelo ano 80, este ser­mão pare­ce ser de um discípulo de Paulo, pois seu estilo e tema o distanciam bastante dos escritos do Apóstolo.

Os destinatários parecem correr o perigo de rejeitar a fé em Jesus Cristo, para voltar à prá­tica do ju­daísmo. Eles enfrentam a perseguição por serem cristãos e talvez se escandalizam com a forma hu­milde e dolo­rosa da manifestação terrestre de Jesus e com a demora da salvação definitiva.

O judaísmo se apoiava em duas colunas para levar à salvação e à comunhão com Deus: a ob­ser­vância da Lei e a prática cultual. Paulo mostra que a Lei é incapaz de salvar; a salvação vem pela fé em Jesus. O autor dos Hebreus, por sua vez, mostra que os ritos e os sacrifícios judaicos não asseguram o per­dão dos pecados e a comunhão com Deus. O centro do sermão está na apresentação de Jesus  como único mediador entre Deus e os homens e, por­tanto, como único salvador. Jesus superou todo o culto do AT: ele é o único sumo sacerdote que, entregando-se a si próprio como vítima, realizou o sacrifício su­premo e defi­nitivo, obtendo de uma vez por todas o perdão dos pecados e abrindo para a humanidade o acesso à comu­nhão com Deus.

A carta pede que os cristãos não transformem a fé em mero culto, deixando o testemunho em troca de rituais vazios. O verdadeiro modo de unir-se e servir a Deus é obedecer à sua vontade, vi­vendo uma vida nor­teada pela entrega de amor até a morte, a exemplo de Jesus (10,1-10).

Para refletir: a) A carta aos Hebreus é uma carta? b) Por que Jesus é o único sacerdote? c) Qual o ver­dadeiro modo de obedecer à vontade de Deus? d) ler e comentar Hb 11.

 

24.  CARTA DE TIAGO: SEM AS OBRAS,  A FÉ É CADÁVER

“Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos! Com efeito, aquele que ouve a Palavra e não a pratica, assemelha-se a um homem que, observando o seu rosto no espelho, se limita a observar-se e vai embora, esquecendo-se logo da sua aparência. ..Não queirais todos ser mestres, pois sabeis que estamos sujeitos a mais severo juízo, porque todos nós tropeçamos freqüentemente” (Tg 1,22-24; 3,1-2).

A carta de Tiago é um escrito de caráter sapiencial, procurando mostrar a sabedoria do dis­cerni­mento cristão diante das situações. Dirige-se a todas as comunidades cristãs, simbolizadas pelas “doze tri­bos” do novo povo de Deus. O autor se apresenta como Tiago, o irmão do Senhor (Cf. Mc 6,3), que dirigiu a comunidade de Jerusalém (Cf. At 15,13) e morreu mártir no ano 62. Diversas  razões, porém, fazem pensar que o verdadeiro autor da carta é um judeu de origem grega do final do século I. e que escreveu a carta entre os anos 80-100.

A mensagem de Tiago é tipicamente cristã, pois, como os Evangelhos, reduz toda  a Lei ju­daica ao mandamento ao amor ao próximo (1,25; 2,8.12). Pode-se dizer que a carta inteira é uma explica­ção das exigências desse mandamento em diversas circunstâncias: igualdade cristã (2,1-4), preferência pelos pobres (2,5-7), amor ativo (2,14-17). O amor exclui a exploração, e nesta carta encontramos a mais violenta passagem do Novo Testamento contra os ricos (5,1-6). A fé vista como um dinamismo que pro­duz  ação e que só é madura quando se expressa em atos concretos (2,20-26), rejeitando portanto uma espiritualidade e uma religiosidade indi­vidualista e intimista (1,26-27). Da mesma forma, a verdadeira sabedoria se expressa pela conduta (3,13-16).

Tiago rejeita a costumeira separação entre “dimensão vertical” e “dimensão horizontal” da vida cristã: “do mesmo modo que o corpo sem o espírito é um cadáver, assim também a fé: sem as obras é um cadá­ver” (2,26). E as obras citadas no contexto são: dar de comer ao faminto e vestir quem está nu ( 2,15-16; cf. Mt 25,35-36).

PARA REFLETIR: 1) O que a carta procura mostrar? 2) O que a carta fala sobre o amor ao pró­ximo? 3) Quando se tem uma fé madura? 4) Ler e comentar Tg 2.

 

 

25. PRIMEIRA CARTA DE PEDRO: A AUTENTICIDADE DO TESTEMUNHO

“Com efeito, aquele que ama a vida e deseja ver dias felizes, guarda a sua língua do mal e os seus lábios de proferir mentiras; afaste-se do mal e pratique o bem, busque a paz e siga-a; porque os olhos do Senhor estão sobre os justos e os seus ouvidos estão atentos à sua prece, mas o rosto do Senhor se volta contra os que praticam o mal” (1Pd 3,10-13).

Escrita de Roma entre os anos 60-70, a carta se dirige a uma série de comunidades do norte e oeste da Ásia Menor, formadas principalmente por cristãos vindos do paganismo e talvez por um bom número de pes­soas que antes eram simpatizantes do judaísmo. A carta é na verdade uma espécie de cate­quese batismal ou ho­milia pascal que procura firmar a fé e a esperança das comunidades, relem­brando a graça e o compromisso do batismo e a esperança da manifestação de Cristo.

As comunidades passam por um tempo de provação por causa de fortes pressões sociais: os cristãos são caluniados, sofrem vexames, suspeitas, oposição, são acusados de subversão, despreza­dos e marginalizados da vida social. Numa palavra, sofrem por ser cristãos, isto é, porque as comunidades teste­munham um modelo al­terna­tivo de relações, tornando-se denúncia e crítica viva de uma sociedade injusta, fundada nas relações de de­si­gualdade, exploração e opressão. Este modo estabelecido de vida em sociedade é que começa a balançar com proposta de Cris­to, vivenciada pelas comunidades. Nisto os cristãos realmente eram subversivos, sendo persegui­dos pelos representan­tes da ordem estabelecida, que começou a se sentir ameaçada. O poder temporal começou a se sentir ameaçado por aqueles gru­pos de “atrevidos”  que ousavam propagar outros valores e a insubmissão às injustiças que eram pratica­das. Todos que tentam subverter a ordem são subversivos, sendo que a subversão, mui­tas vezes é a sal­vação, porque faz avançar as relações humanas e rompe com os vícios que estão desumanizando e matando as relações humanas. Um empresário que implanta um modelo novo de relações com os funci­onários, que resolve aplicar uma política mais humanitária na empresa, que investe no elemento huma­no, vendo no em­pregado não só uma estatística, apesar de toda a pressão do modelo competitivo e in­sensível do capitalismo, é também um subversivo. Por isso, sempre que alguém começa a caminhar nesta direção, recebe uma pressão vio­lenta dos seus iguais que não querem modificar nada e se sentem ameaçados quando alguém mostra que é possí­vel ter lucro sem massacrar o homem. Talvez sejam estes os verdadeiros desafios dos cristãos de hoje. E são estes sonhos e decisões as causas de muitos, ainda hoje, con­tinuarem sendo jogados aos “leões”  para serem devorados antes que a luz acesa por eles co­mece a brilhar muito alto. Podemos aproveitar o espírito da carta de Pedro, para animar a todos os que hoje lutam para que o objetivo primeiro  da vida de Cristo não seja esquecido, mas pelo contrário, conti­nue florescendo. Voltemos, então, ao que pretende a carta de Pedro com sua carta.

Encorajando os cristãos a perseverarem, a carta lembra que a vida nova provém da inicia­tiva de Deus, que escolheu as pessoas e as consagrou através do Espírito Santo. Os cristãos são, portan­to, pes­soas sepa­radas da in­justiça do mundo para obedecer a Jesus Cristo, continuando seu testemunho. Se perse­guidos, os cris­tãos devem ver nisso o selo da autenticidade do seu testemunho.

A carta mostra que a Igreja é o novo povo de Deus que nasce a partir dos marginalizados, cujo tes­te­munho provoca a reação da sociedade que a marginalizará ainda mais. Mas é assim mesmo que ela se apresenta como a testemunha do Ressuscitado que julga e salva.

Para refletir: a) Esta carta é simplesmente uma carta? b) Qual a situação dos destinatários? c) Como os cristãos devem viver? d) Ler e comentar 1 Pd 4,12-19.

 

 

26. SEGUNDA CARTA DE PEDRO: PERSEVERAR NA ESPERANÇA

“Houve, contudo, também falsos profetas no seio do povo, como haverá entre vós falsos mestres, os quais trarão heresias perniciosas, negando o Senhor que os resgatou e trazendo sobre si repentina destruição” (2Pd 2,1).

Embora se apresente como sendo de Simão Pedro (1,1; 3,1), esta segunda carta é o último es­crito do Novo Testamento, e foi provavelmente escrita no fim do séc. I ou mesmo em meados do séc. II. Seu autor imi­ta o gênero literário do “testamento dos antepassados”, comum naquela época: colocar conse­lhos e advertências na boca dos patriarcas que estão próximos à morte.

Estamos no tempo em que a Igreja está passando da época primitiva para a chamada era pós-apos­tóli­ca. Até aí o cristianismo fora vivido como novidade entusiasmante e esperava-se ardente e continu­amente pela volta gloriosa de Jesus. Nesse momento, porém, o tempo do Jesus terrestre come­çava a perder-se no passado, e o futuro da sua segunda vinda torna-se cada vez mais distante. A comu­nidade cristã vai aos poucos sofrendo in­fluências de pen­samentos e religiões diversas que ameaçam deturpar o mistério cristão e até mesmo a consciência moral das comuni­dades com uma série de idéias sem ligação com a vida.

A carta responde à situação, estimulando os desencorajados e denunciando com veemên­cia as dou­tri­nas estranhas à fé. Ao mesmo tempo que anuncia a catástrofe final do mundo, ensina tam­bém a paci­ência e a per­se­verança, o senso da vida sob o julgamento de Deus, o progresso na fé e na graça. Por outro lado, defende o essen­cial da fé e insiste na Palavra de Deus, referindo-se às cartas de Paulo como um con­junto literário bem co­nhecido de toda a Igreja. Em poucas palavras, a carta é uma lição importante para o cristianismo, que deve acei­tar ser fermento den­tro de uma longa história, embora deva recusar um estabele­cimento triunfal num momento da história.

Para refletir: a) Qual o último escrito do NT? b) Qual a situação dos cristãos? c) O que a carta res­pon­de a esta situação? d) Ler e comentar 2 Pd 1,3-11.

 

 

27. PRIMEIRA CARTA DE JOÃO: O DINAMISMO DA FÉ É O AMOR

“Esta é a mensagem que ouvimos dele e vos anunciamos: Deus é Luz e nele não há treva alguma. Se dissermos que estamos em comunhão com ele e andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Mas se caminhamos na luz como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1,5-7).

O autor de 1Jo é talvez o mesmo do IV Evangelho ou um discípulo seu. A carta foi escrita prova­vel­mente no fim do séc. I, e dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor. Essas comunidades pas­sam por uma crise provocada por um grupo de dissidentes carismáticos que propunham uma doutrina gnós­tica, isto é, o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Tais pessoas nega­vam a Jesus como Messias e se glorificavam de conhecer a Deus, de ama-lo, de estar em íntima união com ele; afirmavam-se iluminados, livres de pecado e da baixeza do mundo; não davam importânc­ia ao amor ao próximo e talvez odiassem e hostilizassem a comunidade. O grupo foi rejeitado, mas as comunidades fica­ram inseguras e confusas.  Até hoje, não é raro surgirem grupos assim, que se acham diferentes dos demais da comunidade e correm o risco até de rejeitarem toda a doutrina tradicio­nalmen­te ensinada. São grupos que podem provocar conflitos e divisões sofridas na co­munidade. O que deve ser sempre avaliado, nos vários grupos que sempre se formam com o objetivo de vivencia­rem me­lhor o anúncio evangélico, é se não estão se individualizando demais e deixando exatamente os compro­missos do testemunho no serviço à comuni­dade. O encontro intimista com Deus nunca pode ser esque­cido, contu­do a vivência da fé comunitá­ria tam­bém não pode ficar de lado. Tem que haver o equilíbrio. E nesta vivência comunitária é que há a necessi­dade de uma organi­zação. Daí vem também o papel da hierarquia como serviço e compromisso para que se mantenha a fi­delidade ao evangelho. Caso os grupos se separem dos seus líderes religio­sos, normalmente o que justifica essa sepa­ração ou de­sobediência não é só a vontade de uma fidelidade maior ao evangelho, mas o orgulho e desequilíbrio de alguns líde­res do grupo que, na realidade usam o grupo para a pro­moção pes­soal, confundindo o próprio orgulho com a vontade de Deus. Quando há discordância o que se precisa fazer é buscar os motivos de tais discordân­cias e procurar chegar a um acordo para que se fique mais fortalecido, não caminhar para a intolerância e impossibilidade de diálogo. Neste aspecto Pedro e Paulo, os primeiros apósto­los, dão testemunho muito válido.

A carta mostra que um espiritualismo que não se traduz em comportamento prático é vazio. Não é possível amar a Deus sem a Deus sem amar ao próximo e formar comunidade, pois, se Deus é Pai, os homens são fi­lhos e família de Deus, e todos devem se amar como irmãos. Deus manifestou seu amor por meio de Jesus, que tor­nou possível o amor entre os homens. Daí o perigo de negar que Jesus, que viveu e deu sua vida pelos homens, é o Messias, o Filho de Deus. Por outro lado, é só pela fidelidade ao exemplo e ao mandamento de Jesus que o homem tem vida plenamente humana.

A unidade da carta é o amor, e amar é traduzir a fé em vida concreta. amar ao próximo si­gni­fica co­nhecer a Deus, viver na luz, estar unido a Deus e aos irmãos, não pertencer ao mundo, cumprir os mandamentos e, portanto, amar a Deus, praticar a justiça, ser filho de Deus, obter o perdão dos peca­dos e libertar-se do medo.

Para refletir: a) Qual a situação das comunidades da Ásia Menor no fim do séc. I? b) É pos­sí­vel ter fé sem amar? Por quê? c) Qual a unidade da carta? d) Ler e comentar  1Jo 4,7-21.

 

 

28 SEGUNDA E TERCEIRA CARTAS DE JOÃO: PROBLEMAS E CAMINHOS

“Embora tenha muitas coisas a vos escrever, não quis fazê-lo com papel e tinha. Mas espero ir ter convosco e vos falar de viva voz, para que a nossa alegria seja perfeita” (2Jo 12).

Os dois escritos têm um estilo bastante aproximado ao das cartas modernas. O emitente assi­na “Ancião” (= presbítero) e os destinatários se encontram na Ásia Menor. O autor e a época são os mesmos da 1Jo.

A 2Jo dirige-se a uma comunidade personificada como “senhora eleita”, repetindo frases da 1Jo. Trata-se de uma comunidade exposta à ameaça de perder o próprio coração da fé e da vida cris­tã. Al­guns prega­dores “avançados” negam que o homem Jesus seja o Messias enviado por Deus e dei­xam de lado o mandamento do amor mútuo, rompendo conseqüentemente sua relação com Deus. Em poucas palavras, pregam um conheci­mento elevado que não necessita da fé em Jesus e nem do seu evangelho de amor. O Ancião é radical: proíbe que a comunidade mantenha qualquer relação com esses impostores. Trata-se sem dúvida de pessoas que pertencem ao grupo combatido pela 1Jo.

A 3Jo é uma carta de encorajamento, que apresenta uma situação e pessoas bem concre­tas. O “Ancião” é certamente responsável por um grupo de comunidades, e está encontrando a oposição de Diótre­fes, o bispo de uma igreja local, a quem acusa de ser dominador e de ter uma língua ferina. O ancião enviou alguns missio­nários que se hospedaram na casa de Gaio, mas Diótrefes não permitiu que eles tivessem acesso à comuni­dade local; agora torna envia-los e pede a ajuda de Gaio. Demétrio, porta­dor da carta, talvez seja um dos missio­nários. Note-se que a censura ao bispo Diótrefes não se deve a uma doutrina errada, mas ao seu espírito autoritá­rio, que toma deci­sões sem consultar a comunidade.

Para refletir: a) Qual o problema enfrentado na 2Jo? b) Por que João censura o bispo Diótre­fes? c) Ler e comentar as duas cartas.

 

 

29. CARTA DE JUDAS: NÃO DEIXAR QUE A FÉ SE ENFRAQUEÇA

“Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé e orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, pondo a vossa esperança na misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Jd 20-21).

Esta pequena carta atribuída a Judas, irmão de Tiago e parente de Jesus, provavelmente foi es­crita no fim do séc. I. Seja quem for o autor, ele conhece bem a literatura judaica do seu tempo, os textos chamados apócrifos, que ele cita, e dos quais está muito próximo pelo estilo.

É um discurso violento mas, ao mesmo tempo, estranho e surpreendente; muitos particula­res aí acena­dos são desconhecidos totalmente por nós. Entretanto, o cerne de sua preocupação é bas­tante claro: a necessidade de defender o essencial da fé com unhas e dentes e de denunciar com cora­gem as aberrações de um misticismo imoral. Parece que o autor ataca alguns grupos que pretendiam possuir uma forma particu­lar de conhecimento. estes provo­cavam a desunião da comunidade, até mesmo nas reuniões. A essas pes­soas que se consideravam “espirituais”, e que chegavam a negar que Jesus Cristo é o Senhor, o autor as acusa de estarem dominadas por seus interesses e instintos e não pelo Espírito.

Essa violenta intervenção deve ter tido certo êxito, pois é retomada na segunda carta de Pedro, embora com alguns retoques. Não devemos ficar admirados com a sua violência, que não tem medo de usar formas injurio­sas. Trata-se, freqüentemente, de fórmulas fixas na literatura religiosa da época. Mais digna de nota é a preocupação religiosa da carta: não permitir que o mistério cristão se en­fraqueça.

Nessa acusação contra os que pervertem a fé em Cristo e a fé  cristã, o autor cita os ímpios mais famo­sos da Bíblia: o povo revoltado (Nm 14,26-35), os misteriosos seres celestes de Gn 6,1-3, So­doma e Gomorra (Gn 19,1-29), Caim (Gn 4,1-24), Coré (Nm 16,1-35).

Para refletir: a) Por que esta carta é violenta? b) Qual a preocupação central da carta? c) Ler e comen­tar a carta.

 

 

30.  O APOCALIPSE DE SÃO JOÃO: A CORAGEM DO TESTEMUNHO

“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda a lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,3-4).

Apocalipse é uma palavra grega que significa revelação. Ao contrário do que muitas vezes pen­samos, não é um livro que revela quando ou como será o fim do mundo. Como podemos ver desde o seu início, trata-se de um livro sobre Jesus Cristo: “Revelação de Jesus Cristo” (Ap 1,1).

De todos os livros da Bíblia o Apocalipse de João, sem dúvida, é um dos mais difíceis de se compreen­der, por causa de sua linguagem cheia de símbolos, imagens, figuras, visões etc. O autor usou essa forma de lingua­gem porque se dirigia às comunidades cristãs que viviam em meio à perseguição  romana, no fim do sé. I. Os cristãos daquele tempo entendiam essa linguagem, pois estavam familiariza­dos com a Bíblia, principalmente o antigo Testa­mento, onde se encontram todos esses símbolos e ima­gens. Para nós sua leitura também se torna mais fácil à medida que vamos conhecendo o Antigo Testa­mento.

Podemos dizer que o Apocalipse é o evangelho de Jesus Ressuscitado, pois ele começa onde os quatro evangelhos terminam: a manifestação de Jesus Ressuscitado como Senhor da História (Ap 1). Jesus é o chefe das comunidades cristãs, e está presente no meio delas, chamando-as continua­mente à con­versão (Ap 2-3). Dentro desse movimento de conversão, as comunidades se tornam capa­zes de compreender a vida e a história a partir do testemu­nho de Jesus (Ap 4-22), tornando-se elas mesmas testemunhas da presença e da ação de Jesus (Ap 10,11; 19,10).

O livro do apocalipse esboça , portanto, as linhas de um testemunho cristão para todos os tempos e lu­gares. Esse testemunho transforma a sociedade e a história dos homens tornando cada vez mais próximo do Reino de Deus , que é apresentado no Apocalipse como a Jerusalém Celeste (Ap 21-22)

Para refletir: a) O Ap revela o fim do mundo? b) Por que a linguagem desse livro é difícil? c) Qual o tema central do livro? Ler e comentar Ap 1.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

MODOS DE LER A BÍBLIA

 

1. O Povo Interpreta a Bíblia

Até pouco tempo as Sagradas Escrituras eram pouco lidas pelos católicos. Muitos tinham um livro de História Sagrada que era como que um resumo ou trechos selecionados da Bíblia.  Outros costu­mavam ler alguns trechos selecionados dos Evangelhos. Aos poucos, contudo, a Palavra de Deus passou a ser mais divulgada e incenti­vada a sua leitura em casa e nas comunidades, sendo percebida como força ilu­minadora de uma caminhada de vida. Em conseqüência, aumentou o número de tradu­ções bíblicas para o português, porque as procuras aumentaram.

As Bíblias costumam trazer notas de rodapé e comentários que ajudem a entender os livros e passa­gens, fazendo a contextualização e relação com outros livros. Entretanto isto se tornou insuficien­te em relação à ne­cessidade de encontrar no texto uma luz e não puro conhecimento técnico. Onde normalmente mais se aprende sobre a bíblia é nos círculos bíblicos, onde a mesma é refletida em comu­nidade, onde a vida concreta vai ensinando a des­cobrir nas Sagradas Escrituras interpretações jamais pensadas.

Aos poucos o povo vai descobrindo na Bíblia a fonte de água viva. Iluminada pelo Espírito Santo, a fé faz a Bíblia se tornar como um rio no tempo das águas: as pequenas margens de alguns crité­rios para uma leitura não conseguem reter mais a Boa Nova contida na Palavra de Deus.

Querer espremer a interpretação da S. Escritura dentro de certas normas estabelecidas é a mesma coisa que tentar canalizar a enchente  de um rio. Não há dúvida de que o leito dessas normas são úteis e importantes para que a comunidade de fé possa seguir o seu trajeto até à plenitude do Reino. En­tre­tanto, limitar-se a esse leito significa bitolar a própria efusão do Espírito Santo, pois essas interpreta­ções que surgem no seio do Povo de Deus se unem ao leito para formar o imenso caudal que a Bíblia provoca e continuará provocando até o final dos tempos.

 

 

2. LEITURA INGÊNUA DA BÍBLIA

Há muitas maneiras de ler, ou seja, de interpretar e compreender a Bíblia. A mais comum é a leitura ingênua, que toma as coisas como se apresentam, sem espírito crítico.

Quem faz uma leitura ingênua cai facilmente em dois erros fundamentais. O primeiro é o de não per­ceber até que ponto sua própria realidade e suas idéias influem na leitura. Por exemplo, esse leitor não critica sua idéia sobre Deus e sobre o homem, sua maneira de ver a vida e a sociedade, seus próprios problemas e o modo de re­solvê-los. Resultado: acaba procurando e “encontrando na Bíblia” uma justifi­ca­tiva para seu modo de ver e de viver. A Bíblia perde toda a sua força transformadora, tornando-se apenas um espelho para auto contemplação. A pessoa fica vendo a si mesma, na Bíblia, não o que a Bíblia está falando.

O segundo erro é imaginar que Deus escreveu a Bíblia de próprio punho, e depois a man­dado para a terra de um modo misterioso. Alguns acham que Deus ditou a Bíblia letra por letra e os ho­mens não colaboraram em nada, ou quando muito, foram apenas instrumentos passivos que ficavam ali como um gravador. Resultado: o leitor ingênuo toma tudo ao pé da letra, como se tudo fosse um conjunto de revela­ções absolutas, inclusive os acentos e as vírgulas. Jamais se perguntará pelo significado das imagens literá­rias e dos diversos modos de expressão, comuns ao povo que vivia 20 ou 30 séculos atrás, que eram bem diferentes dos nossos. Estamos numa outra época, com outros problemas e visão de mundo bem diferentes de quando a Bíblia foi escrita.

A leitura ingênua da Bíblia leva a um emaranhado de interpretações erradas, exageradas, confu­sas, misturadas à magia e distantes da nossa realidade concreta. É uma leitura que sempre vai sofrer a crítica dos fiéis de outras religiões, e principalmente dos que resistem à religião por acharem que as pessoas de fé são muito infantis.

Essa leitura ingênua também pode facilitar uma interpretação doentia da Bíblia, fazendo com que a mesma não sirva para trazer vida nova e sentir Deus caminhando com o povo também hoje, mas Deus sendo usado por alguns líderes que aprisionam as pessoas de sua comunidade através de ameaças e subordinação às suas próprias neuroses.

 

 

3. LEITURA CRÍTICA DA BÍBLIA

Criticar é analisar e esmiuçar uma coisa, para compreendê-la melhor. a leitura crítica é o con­trário da leitura ingênua: não fica parada na casca, na aparência, mas procura penetrar no texto, a fim de compreendi-lo a partir de dentro e em relação com a situação histórica e social em que ele nasceu. Tudo isto é feito para descobrir o essen­cial da Bíblia como Palavra de Deus, separando-o daquilo que é aparente, pas­sageiro, e que pode caducar. Leitura crítica da Bíblia é o esforço  da fé para buscar suas próprias raízes, pro­curando o projeto que Deus faz e propõe para a realização da Vida. Três coisas são necessárias para uma leitura crítica.

  • primeiro: criticar a realidade em que vivemos – nossa vida, sociedade, problemas, lutas, pos­sibilida­des, idéias, opções  e buscas. Em outras palavras, ter consciência de onde partimos para ler a Bíblia e, o mais impor­tante, saber o que nela procuramos. Esta, na realidade, é a atitude que devemos ter frente a qualquer coisa que ve­nhamos a ler.
  • segundo: leitura crítica do texto: deixar que o texto fale o que tem a falar, e estarmos dis­pos­tos a que o texto nos ensine algo novo e importante. Para isso é importante analisar e esmiuçar o texto de todos os modos, pro­curando não só compreender o que está escrito, mas também o que está por trás das palavras (Carlos Mesters tem um livro que este título). Em resumo: o que este texto queria dizer naquele tempo? E o que nos diz hoje? (Por que é es­crito desse jeito? Como o povo vivia? Em que época da histó­ria se localiza?…).
  • terceiro: buscar compreender o essencial. A Bíblia é a revelação do projeto de Deus, que é li­berdade e vida para os homens. Como o povo daquele tempo compreendeu e viveu esse projeto? Quais foram as dificuldades e as lutas que tiveram de vencer para conquistar a liberdade e a vida que Deus dá? Quais as dificuldades e lutas que nós enfrentamos para que o projeto de Deus seja realizado hoje?

 

4. O LUGAR SOCIAL NA LEITURA DA BÍBLIA

Pode parecer estranho que se possa ler a Bíblia de diversas maneiras, sendo ela Palavra de Deus. Entre­tanto, isso é uma realidade. E um dos fatores que leva as pessoas a leituras diferenciadas e até opostas dos textos bíblicos é o lugar social que essas pessoas ocupam. É como se ver tudo na cor dos ócu­los que se usa; se é cor-de-rosa, se vê tudo cor-de-rosa; se é verde, se vê tudo verde…E todos nós temos óculos para ler a Bíblia, queiramos ou não. Quem é rico e mora num bairro chic da cidade não vai interpre­tar um texto bíblico da mesma forma que alguém que mora num barraco e não tem dinheiro para o leite das crianças. Por isso, pode haver até discussões sobre a Bíblia. Tanto assim que muitos, querendo fugir da questão, dizem: “Sobre religião não se discute”. No entanto, a frase já re­vela que não existe lei­tura neutra da Bíblia; nela nos envolvemos com o que somos e o que temos. Como o caso da­quela mu­lher de alta socie­dade que ao ler no Evangelho: “Pedi e vos será dado” (Mt 7,7), rezou insistentemente para que seu marido lhe desse um iate. E ela estava plenamente convicta de estar interpretando o texto de maneira correta.

Portanto, se os nossos óculos não forem da mesma cor dos óculos que Deus deu aos escri­toras da Bí­blia, poderemos deturpar tudo o que ali está escrito. E esse óculos Deus os deu aos simples: “Eu te louvo, ó Pai, Se­nhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11,25-26).

 

5. A CIÊNCIA AJUDA A LER A BÍBLIA

Sabemos que a Bíblia é uma coleção de livros muito antigos: 20 a 30 séculos nos separam daqueles que a escreveram.  Além disso, ela nasceu no Oriente, lugar distante, com geografia, condi­ções sociais e po­líticas, mentalidade diferente etc. Seria ingenuidade pensar que a Bíblia é um livro como qualquer outro. Para com­preendê-la melhor, temos que fazer muita ginástica para transpor grandes dis­tâncias e dela nos aproximarmos.

É aqui que entra a ciência. A ciência ajuda-nos a vencer as distâncias que nos separam do tempo, lugar e condições em que a Bíblia nasceu. Ajuda, mas não substitui a própria Bíblia. a ciência é um meio, um instrumento para facilitar a compreensão, mas não substitui a própria leitura da Bíblia, sempre em busca da Palavra de Deus que revela e faz compreender o projeto de Deus que a ciência presta um serviço à leitura crítica, e esta última é uma ta­re­fa contínua de todo o povo cristão que pro­cura viver a fé como compromisso com Deus e com o seu projeto.

A ciência que se ocupa das coisas da Bíblia chama-se exegese, que significa análise e in­terpre­tação do texto. Para fazer essa análise e interpretação, a exegese procura o mais possível reconsti­tuir e apro­ximar de nós o mundo bíblico, servindo-se de muitas ciências, como história, geografia, arqueo­logia, filo­logia, técnica de análise de texto, psicologia, sociologia, antropologia, etc. Todavia, a exegese é e será sem­pre apenas um instrumento de apro­ximação, um meio para tornar mais fácil e eficiente a lei­tura crítica da Bíblia. Sua finalidade é servir à leitura e com­preensão da Bíblia, e não anula-las ou substi­tuí-las. São mui­tas as pessoas que se aprofundam, de modo científico, no mundo bíblico, para que se possa ter mais ele­mentos na compreensão da finalidade dos vários textos contidos na Bí­blia. Quanto menos deturpada for a Palavra de Deus, melhor.

Algumas religiões determinam o que seus fiéis devem ler, sublinhando alguns versículos de cada capí­tulo, às vezes mais com uma finalidade apologética (de discussão com outras religiões), dando um valor descontex­tualizado e desproporcional a algumas citações sem perceber que para entender justamente aquela citação seria ne­cessário ler todo o capítulo ou mesmo todo o livro. Caso contrário ela é deturpada. É bom ficar atento com es­tas “decorebas” de textos pinçados aqui e ali. Muitas dessas téc­nicas têm a finalidade maior de justificar a ideologia de uma ou outra religião. Procure ler mais, ter uma visão mais panorâmica e conseguir entender a mensagem central de cada livro.

Quando você recebe uma carta, para entendê-la deve ler a carta inteira. Se você ler só uma frase no início, uma no meio e outra no fim, é possível que fique “boiando” ou entenda o que a pessoa que lhe escreveu não queria dizer. E isto serve também para os textos bíblicos, como também para qual­quer texto que venhamos a ler.

 

 

6. O LUGAR DE MARIA NA BÍBLIA

Maria, a mãe de Jesus, é motivo de veneração para os cristãos católicos. Esta veneração vem de uma tradição muito antiga e o que se tem percebido, no decorrer dos tempos, é que este amor filial para com Maria tem sido motivo de muitas manifestações religiosas. É o lado materno da religião.

Algumas pessoas de outras religiões, por não entenderem bem o sentido do relacionamento dos católicos com Maria, acham que ela é colocada no lugar de Deus e adorada, condenando os católicos como idólatras por isso. Diante dos argumentos dessas pessoas,  muitos católicos ficam meio perdidos e com medo de estarem mesmo adorando a mãe de Jesus como se fosse Deus. Mas a devoção à Maria não tem nada a ver com adoração. O que há é uma veneração por Maria, por ela ter trazido Jesus em seu seio, participado de sua educação e desenvolvimento, acompanhado sua pregação e tê-lo recebido em seus braços após a sua morte.

Os católicos sabem que Jesus sempre ouviu muito sua mãe, aceitando os seus pedidos mesmo que achasse não ser o momento. Durante sua vida, mesmo “estando preocupado com as coisas do Pai”, Jesus não deixou de atender aos pedidos da mãe (Jo 2,1-12). Se a mãe tinha tanta confiança no filho é porque o conhecia bem e sabia o que podia lhe pedir. Certamente ela continua pedindo ao seu Filho Jesus, por todos aqueles que precisam de sua ajuda.

Quando estava pregado na cruz, prestes a morrer, vendo a tristeza e abandono da mãe, Jesus se preocupa com ela, não querendo que ficasse desamparada. Como certamente não tivesse nenhum parente mais próximo com o qual a mãe pudesse ficar, entregou-a aos cuidados do seu discípulo amado (Jo 19,25-27). Se ela realmente tivesse mais filhos, certamente teria ido para a casa deles.

A Igreja Católica assumiu Maria como sendo também sua mãe.  Se Jesus é nosso irmão, sua mãe é também nossa mãe e Jesus não vai ficar ofendido por invocarmos a sua proteção. Maria é a mãe da Igreja, a quem os filhos podem sempre recorrer.

Quando começou esta admiração por Maria, por parte dos católicos? A coisa é antiga. Começou antes do cristianismo. O anjo de Deus (que é uma manifestação de Deus) foi o primeiro a dar o exemplo antes ainda de Jesus nascer (Lc 1,26-38). Depois foi Isabel, a mãe de João Batista, aquele que batizou Jesus no Jordão, que ficou toda emocionada quando recebeu a visita da “mãe do meu Senhor”. O próprio João Batista, ainda no ventre da mãe, sente tanta emoção, quando Maria chega, que salta de alegria no ventre da mãe (Lc 1,39-45).

Para condenar os católicos, por terem uma admiração por Maria, é necessário que se comece por condenar o próprio anjo de Deus, portanto, o próprio Deus, por esta consideração especial. Por ter escolhido esta mulher para ser a mãe de seu filho, dando-lhe um lugar de destaque dentre todos os personagens bíblicos, principalmente dentre todas as mulheres. Afinal de contas, foi o próprio anjo que a chamou de agraciada de Deus.

Se a Bíblia dá um lugar de tanto destaque à Maria, não vejo porque nós cristãos, que fundamentamos nossa vivência nos ensinamentos bíblicos, também não a possamos ter em grande consideração.

Mesmo as orações que os católicos rezam com mais freqüência, quando se dirigem à Maria, tem sua origem na Bíblia. Podem conferir Lc 1,28 e Lc 1,42. Aí está a origem da “Ave Maria” que é rezada por todos os católicos.

O Magnificat que é outra oração muito rezada pelos católicos, foi entoado pela própria Maria, depois da saudação de Isabel (Lc 1,46-55), inspirada no cântico de Ana (1Sm 2,1-10). Maria fez seu um hino que já havia sido entoado por outra mulher, bem antes dela e que era conhecido e entoado pela comunidade judaica. E nós continuamos, hoje, entoando este hino em reconhecimento à grandeza de Deus.

Maria nos aponta Jesus. Ela não ocupa o lugar de Jesus nem o substitui. Enquanto ela estiver servindo para ajudar as pessoas a compreenderem e viverem a vontade de Deus, a “vontade do Pai que está nos céus”, certamente continuará sendo um sinal de Deus para nós. Contudo, Maria não é Deus. Tenhamos isto sempre bem claro. Como Deus conhece o nosso íntimo, conhecendo-nos melhor do que nós mesmos, Ele sabe que nós não lhe estamos negando, quando lhe dirigimos as nossas preces por meio de Maria. Tudo converge mesmo para Ele, o Deus que tudo sabe e que ama todos os seus filhos.

Existe uma teologia muito mais profunda sobre a devoção mariana, mas o objetivo aqui foi simplesmente fazer uma menção a este assunto, tomando o que é estritamente bíblico, para que ninguém, principalmente os que se apegam tanto à Bíblia em suas argumentações, deixe de considerar também estas citações bíblicas referidas acima.

Depois de termos feito companhia a você durante um bom tempo, com nossas reflexões sobre a Bíblia, hoje estamos encerrando esta etapa. Há muito ainda que se estudar sobre a Bíblia. O que apresentamos aqui, nestas várias reflexões, foi só uma pequena introdução. Existem muitos livros excelentes que podem ajudar nesta caminhada, a quem tiver interesse em se aprofundar um pouco mais. Além disso, é importante que se leia  a Bíblia. Com mais conhecimento, pode-se aproveitar mais com suas leituras. A seguir sugiro alguns livros. Existem muitos outros de autores, pesquisadores, de uma profundidade muito grande e que podem trazer muitos benefícios a quem procura um conhecimento sério da Palavra de Deus.

Se estas reflexões ajudaram você a entender e a gostar um pouco mais de ler a Bíblia, eu também me alegro com isto. É importante que o conhecimento bíblico nos ajude a vivermos com mais sabedoria, mais felizes, porque sentindo mais a presença de Deus na nossa vida.

Que Deus abençoe a todos!

João Loch

Garça, Maio de 2008

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1981.

BRIGHT, J. História de Israel. Trad. Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Paulinas, 1978. (Nova Coleção Bíblica – 7).

STORNIOLO, Ivo, BALANCIN, Euclides M. Conheça a bíblia. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1987.

SAULNER, C., ROLLAND, B. A Palestina no tempo de Jesus. Trad. Pe. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Paulinas, 1983. (Cadernos Bíblicos -27).

Obs. Existe uma vasta literatura sobre o assunto, porém fiz a opção de citar só estes livros. As Edições Paulinas e  Vozes,  possuem uma ampla publicação de livros voltados para o entendimento bíblico.

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