DEPENDÊNCIA QUÍMICA – RECAÍDA 1

De tempos em tempos estarei colocando neste espaço depoimentos de dependentes químicos em recuperação para que se possa ter um conhecimento da dinâmica da doença e da recaída a partir de alguém que está nesta vida. Estes depoimentos são colhidos entre internos da clínica onde presto serviço e, são publicados aqui com a autorização deles, sabendo que suas experiências também podem ser de alguma ajuda para outros que esteja na mesma luta e para os respecitivos famimilares.
Na transcrição do depoimento serei fiel ao que cada um escreve, sem levar em conta se concordo ou não com o ponto de vista dele. A crítica seria um segundo passo. E se alguém quiser fazer um estudo a partir destes dados, não me oponho. Só gostaria que me comunicasse. É um material inédito. Acredito que tem seu valor e quero que seja útil a você que o lerá. Qualquer dia, sem compromisso de ser assíduo, posso divulgar outros depoimentos. Alguns depoimentos de dependentes que fazem tratamento comigo, sem estarem internados, também poderão ser colocados aqui. A elaboração dos depoimentos, quanto à clareza e forma literária,  também variará de acordo com a formação acadêmica, experiência de vida, idade e visão de mundo de cada pessoa. Alguns depoimentos podem se completar e ter a mesma linha de pensamento, mas alguns também podem ser contraditórios. A experiência de vida e as percepções pessoais podem extrapolar as teorias ou contrariá-las.
Este primeiro depoimento é de um artista plástico, com projeção em seu campo de trabalho. Está em tratamento com o objetivo de retomar sua vida de produção e equilíbrio.
 
                                                              "RECAÍDA DO PONTO DE VISTA DE UM RECAÍDO"
"Toda recaída pode ser interpretada como algo programado, algo friamente calculado de maneira consciente. Mas acredito que pelo fato de que todo homem se sente soberano em sua própria alma. Em algum lugar do seu ego, os processos inconscientes vão tomando forma até se tornarem reais, saindo do aspecto mental.
Não existem perguntas na decisão do uso, não existe nem o certo nem o errado. Existe todo o resto (…). O que acontece é que interiomente e exteriormente o indivíduo deixa de se controlar, sente-se insatisfeito e pressionado.
O primeiro passo entra em conflito com a Rendição. O instinto domina a   frágil lógica e ocorrre uma fissura no pensamento, fissura esta que leva o indivíduo ao kaos. Com isso a forma como recai não precisa de uma justificativa aceitárvel para cristalizar-se. É como uma espiral de pensamentos repetitivos que se fundem dentro de um campo mental onde os pensamentos se rompem por não existir uma maior reflexão e uma película mental no campo físico.
É nesse ponto (fissura) que a espiral se irrompe e puxa para dentro toda gama de idéias, vontades e desejos, satisfazendo por algum momento o supergo o homem torna consciente o inconsciente, alterando, através do uso a percepção da realidade sem nenhuma autocensura.
Os sentimentos ficam anestesiados e os mesmos se petrificam num misto de medo e paranóia. E na tentativa de manter o nível de alteração psíquica surge por consequência  a compulsão física onde o único denominador comum é o uso. 
Em minha recaída comecei a alimentar e a viver situações que deveriam ser evitadas. O contato com a mentria, o autoengano, a negação, me desafiava a me expor casos extraconjugais (mentiras) e, assim, de novo a ter uma vida dupla, uma vida secreta. Participando de festas,  orgias, fantasias que me iludissem cada vez mais.
Meu sentimento era de alegria. Mas no fundo eu queria ser como aqueles que eu considerava normais.
Alimentava em mim o falso orgulho de estar limpo há dois anos e meio, descuidando-me e comparando-me o tempo todo com os outros.
Me perguntava:
Por que não? Consegui ficar um ano neste meio e confusão mental até que acabei cedendo à minha vontade, ao meu desejo egóico de beber e usar cocaína. Isso durou um dia, pois tive uma rede de intervenção que me ajudou  a não entrar na cumpulsão. Mas o sentimento de derrota mais uma vez apareceu e minha forma de pensar, sentir e agir tinham sido alterados.  O que me levou a uma (segunda) recaída seis meses depois e assim fui caindo no ciclo de voltas no uso até ser internado novamente".
Este depoimento foi dado por escrito, a meu pedido. A pessoa tem mais de 30 anos. Já esteve internado em outra clínica de recuperação, ficou um determinado tempo sem usar drogas. Mas começou a descuidar do comportamento e, principalmente, a ter muitos conflitos no relacionamento afetivo.
Ao começar a frequentar ambientes de risco, a trocar o dia pela noite, a não ter um rítimo sadio de vida, a mentir e justificar os atos insanos, a pessoa começa a andar no "fio da navalha" e mais dias menos dias recai. 
Um outro dado que muita gente não considera é a bebida. Quem resolve parar de usar drogas mas não resolve parar de consumir bebida alcoólica, dificilmente consegue ficar limpo. A média de retorno à droga de preferência, para quem começa a consumir bebidas alcoólicas é de quatro semanas, conforme a literatura. Querer parar de usar drogas sem modificar o estilo de vida ou o grupo de amigos é uma tarefa impossível.   
O autor do depoimento está caminhando para o final do tratamento que, nesta clínica, é de 9 meses. Tem participado bem das atividades propostas pela clínica. Possui um bom nível de reflexão e questionamento dos próprios atos. Além das atividades grupais, também está fazendo terapia individual com o psicólogo da própria clínica. Há grandes chances de conseguir viver sem o uso da droga ou drogas. Mas se não tiver sempre presente que é impotente perante as drogas, alimentar seu projeto de vida, cuidar dos relacionamentos afetivos, reelaborar os sentimentos….e todo dia falar para si mesmo "só por hoje", pode novamente recair.
A internação é uma oportunidade importante para a pessoa se reorganizar até a nível de pensamento. Avaliar sua vida estando em outro contexto e se reprogramar, dando o passo importante de querer parar de usar, sabendo que isto exige esforço, dedicação, perseverança. Enquanto não der este passo e não firmar uma convicção interna clara, não vai parar. 
 
 
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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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