VIDA APÓS A VIDA

ACid, faz uma reflexão com dados muito interessantes para ajudar a entender as visões sobre a vida a pós a morte, conforme uma preocupação antiga e nas reflexões de algumas culturas. Este texto também ajuda a perceber como foi sendo gestada a visão cristã da ressurreição, embora de forma limitada. As idéias não nascem do nada. Há sempre uma evolução, aprimoramento e tentativa de encontrar respostas mais condizentes para peguntas que são de todos os tempos: de onde viemos e para onde vamos. A própria Bíblia, livro de inspiração divina comum ao judaísmo e cristianismo, tem muitos textos que procuram responder a este questionamento, assim como a compreender as origens do sofrimento, dos desentendimentos, das várias linguas, das brigas entre irmãos e, principalmente, compreender a ação de um Deus único na história da construção do mundo e da humanidade.
O que você lerá a seguir é o texto elaborado por Acid com algumas considerações minhas, em alguns itens que considero poder fazer alguns comentários. É um texto que se fundamenta nos estudos da mitologia e as interpretações  da vida e da morte anteriores ao cristianismo. Não se pode esquecer disto. Os meus comentários estarão sempre entre parêntesis ("…….."). 

O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e, obviamente, orientais. Teria sido fundado por Orfeu, um herói lendário da Grécia e patrono da música.

Há dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. Reza a lenda que ele teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão apresenta-o como filho do próprio Apolo. Orfeu é considerado como o maior músico da antiguidade, não só pela música, como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, que teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele. Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os Trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Grécia a idéia da "expiação das faltas e dos crimes", bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio, que o integraram no seio de suas obras. O orfismo oscila entre o culto a Dioniso (ou Dionísio), que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, cuja seriedade corrigia os excessos e os desvarios dionisíacos. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas.

Mitologia

Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos, que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a Terra. Fanes criou a Lua e o Sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que "Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas". A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreu, que terá papel fundamental no culto do orfismo. ("Para quem é cristão e tem familiaridade com as escrituras, pode perceber que, tanto no gênesis, quando fala da criação, como no Evangelho de São João, há uma certa semelhança na narrativa, com esta forma mitológica. São João afirma que "no início era o Verbo….e este Verbo armou a sua tenda entre nós. Também é clássica a afirmação de que Cristo é o alfa e o ômega, o início e o fim, como proclamamos de forma clara na cerimônica do sábado de Aleluia. E o Alfa e Õmega, primeira e última letras do alfabeto grego, simbolizando que ele abarca toda a existência e toda a criação. Também numa tradução mais poética do Antigo Testamento, Deus é apresentado como que um grande pássaro que com suas asas abertas choca a vida do mundo e no mundo, até que essa vida eclode. Deus com suas asas dá vida ao caos. Eu acho linda essa visão" que me foi transmitida pelo meu antigo professor de grego bíblico").

A mitologia conta que Zagreu, o primeiro Dioniso, era filho de Zeus com Sêmele. Os Titãs, a mando de Hera, raptaram Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica, e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu, que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém -pois- de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico (prega a salvação humana).

Características

O orfismo rejeitava os ritos antigos, nos quais os iniciados despedaçavam animais ainda vivos, para consumo do sangue e da carne, pois os orfistas eram radicalmente vegetarianos. ("Jesus também se posicionou contrário ao derramamento de sangue no altar, que era comum nos cultos judaicos e, simbolicamente se ofereceu com o cordeiro imolado para a remissão dos pecados de toda a humanidade, sendo ele pregado na cruz e permanecendo na nossa memória e nos alimentando através da partilha do pão na ceia, o que fazemos até hoje quando comungamos. Comungamos o Corpo de Cristo. Alimentamo-nos da sua força para que possamos, como Ele, ajudar a construir um mundo melhor. E essa busca e construção é contínua"). 

De Apolo, herdou uma componente da catarsis (purificação, ou purgação), tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a idéia de Apolo de que esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos eram ascéticos, que purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.

Os órficos substituíram a "folia" dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antiguidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime tinha que ser não só individual como coletiva. Os cultos dionisíacos eram secretos e envoltos em mistério (ao contrário dos cultos apolíneos, que eram públicos). Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final. ("Até hoje a purificação é uma tônica de todas as religiões. Cada religião tem sua forma de promover e incnetivar esta purificação, como superação dos erros, das maldades e como forma de merecer a misericõrdia divina e a garantia de uma vida plena após a vida terrena").

A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades (inferno), a glorificação final da psiqué nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuía em política.

É importante salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. ("para quem quiser conhecer um pouco dos mitos do olímpicos, existe uma boa literatura sobre a mitologia grega. E a mitologia não pode ser interpretada somente como uma visão irreal do mundo e da vida, ou como invenção de mentes doentias. A mitologia era a forma de ler o mundo e de se entender no mundo naquela época"). O orfismo defendia a noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa corpo-túmulo). Como conseqüência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte, e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira "vida" não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna ("isto conforme a doutrina de Orfeu"). A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via-crucis, de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar. ("Os sumo sacerdotes, aqueles que têm acesso aos ensinamentos sagrados, sempre reservam para si os melhores lugares e maiores privilégios diante da divindade e da eternidade. Ao se colocarem como intérpretes da vontade de Deus, julgam-se também melhores que os comuns dos mortais e com mais merecimentos. Jesus, observando esta postura, chama a atenção para o comportamento de um fariseu que ao rezar se coloca diante de Deus como perfeito e agradece por não ser como os pecadores….E Jesus fala sobre a oração de um publicano, que com humildade se colocou no fundo do templo e humildemente pede a Deus que se compadeça dele. Para Jesus a oração daquele desqualificado tem muito mais valor que a do fariseu. Até hoje ainda não aprendemos isso. E é também Jesus que fala que as prostitutas terão primazia no reino de Deus sobre aqueles que se consideram muito bons e gostam de ser reconhecidos diante dos homens. Até hoje essa afirmação de Jesus soa pesada quando a ouvimos ou lemos. Mas é Ele que afirma. Eu me pergunto porque Jesus afirma isso. E, no meu entender, é porque as prostitutas não enganam, não mostram uma coisa querendo outra. Todos sabem o propósito delas e não podem falar que foram enganados. Todos sabem o que elas querem. Não enganam ninguém. Ao contrário de muitos relacionamentos que são considerados modelos ou exemplares socialmente. Certamente que Jesus não está incentivando a se viver como as prostitutas, mas mostra que muitas vezes os que se consideram muito bons, são piores que as prostitutas").

Um artefato importantíssimo no orfismo são as "lamelas órficas". São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.

Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda. "À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes… eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória". Para a alma que deve retornar a terra para reencarnar-se, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devenir.

Para aquelas almas que não precisam mais reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: "Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos". Ao que Persófone replica: "Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone".

A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.

("Nos ritos fúnebres cristãos, principalmente no católico, as orações são uma entrega da pessoa a Deus e um pedido para que Deus a perdoe de todas as culpas e a receba no reino eterno. Procura-se oferecer ao doente a oportunidade de se purificar, para o encontro com Deus. Há muitas interpretações sobre para onde pode ir a alma após a morte. Também se anuncia a vida no purgatório, como uma oportunidade para purificar-se, antes de poder ser aceito no paraíso. E se a pessoa fez a opção de viver afastada de Deus, então afirma-se que ela escolheu o inferno, isto é, viver a eternidade longe de Deus. Quando estava na cruz, ao ser interpelado por um dos ladrões pregados ao seu lado para que tivesse misericórdia dele, Jesus fala ‘hoje mesmo estarás comigo no paraíso’, deixando claro que a ressurreição se dá concomitante à morte. Então o fim dos tempos acaba sendo próprio para cada um. Ao morrermos, concomitantemente Deus nos recria para uma vida nova, transformada. Não precisamos ficar imaginando mil anos ou sei lá quanto tempo. Entramos na dimensão do tempo cósmico. O tempo de Deus, para o qual não passado nem futuro. Tudo é presente").

Conclusão

Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Especialmente cristãos, se considerarmos que o cristianismo como o conhecemos floresceu na Grécia e em Roma. Nos afrescos das catacumbas romanas encontram-se imagens de Orfeu, tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros e pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra, o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como o Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de "Orfeu báquico". A semelhança dos simbolismos é flagrante: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva; a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego; Cristo como filho de Deus, assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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Uma resposta para VIDA APÓS A VIDA

  1. k�tia Nunes Teixeira disse:

    Existe vida após a vida. Senão qual o sentido de estarmos aqui?Muitos tem medo de morrer, sendo que é o começo da vida verdadeira.O corpo já é o túmulo da alma, mas nem por isso devemos fazer besteiras.Um dia entederemos o que ainda não conseguimos. Deus não deixa ninguém sem resposta.É claro que há algo. JESUS AFIRMOU QUE MANDARIA O CONSOLADOR. Que muitas coisas ainda não teríamos condições de entender. Então….

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