PRIMEIRO MANDAMETNO – Pe. Häring

Pe Bernhard Häring, padre redentorista, teólogo e moralista respeitado mundialmente e com grande influência em algumas das idéias mais renovadoras do Concílio Vaticano II, sendo entrevistado por Valentino Salvoldi, sobre sua visão e sua vivência dos 10 mandamentos, responde à primeira pergunta de um modo que considero de um grande significado e indicativo para um amadurecimento na vida de fé e de interação social profundamente humana e cristã. As respostas às demais questões também são de grande profundidade e equilíbrio, mas aqui vou transcrever somente a primeira resposta. Se alguém quiser ver todo o livro, considero que ficará positivamente tocado com sua reflexão e modo de vida. Conforme a disponibilidade do meu tempo irei publicando também as outras respostas sobre a visão e vivência dele sobre os demais mandamenetos.

Salvoldi: “Atualmente, em muitas revistas teológicas, há uma revisitação dos mandamentos. As “dez palavras” podem ser vistas como marcos no caminho da liberdade. Com essa premissa, gostaria que você lesse a sua vida através da sua moral, e a moral através da sua vida, mostrando como seu testemunho é “fonte de alegria”, livre e libertador. De fato, a lei divina nos foi dada para nos ajudar a remover o véu que nos impede de contemplar a verdade (alétheia = verdade =  remover o véu) e para evidenciar que nós somos Cristo vivo hoje. Eu recito os mandamentos e lhe faço algumas perguntas concretas. Você responde àquelas que considerar mais importantes para nos ajudar a entender como você passou da lei ao Espírito.

“Eu sou Javé seu Deus; não tenha outros deuses diante de mim”. Que sentido tem para você o mandamento da unicidade de Deus? Você foi fiel a Deus, à sua opção fundamental, ou você também se deixou levar por ídolos: Você sempre procurou purificar a Igreja? Quais são os ídolos contra os quais você colocou de prontidão clérigos e leigos?

Häring: “O ídolo mais perigoso para todos é nosso “eu” presunçoso, um Eu engrandecido desmedidamente. A dança em torno do próprio Eu é estigmatizada pela Bíblia com a imagem do bezerro de ouro, destruído por Moisés juntamente com as tábuas da lei. Esse Eu soberbo incomoda os outros e cria problemas até para seu “proprietário”. Devemos rezar muito para sermos libertados da tentação de dançar em torno desse ídolo.

Para compreender o sentido de todos os mandamentos, é preciso lembrar o que Deus coloca antes da formulação: “Ouça, Israel! Eu sou Javé seu Deus, que libertou você. Sou o seu Salvador. Eu o fiz sair da terra da escravidão. Eu o conduzi em direção à terra prometida. Por isso, você me amará”. Seria errado dizer: ”Você deve me mar”. O Senhor não dá uma ordem; expressa simplesmente a sua expectativa. Ele fez tudo para o homem; agora espera tudo dele, como resposta livre e agradecida pela “inundação” do seu amor.

Antes de ficarmos preocupados em observar esta ou aquela lei, eu digo a mim mesmo e a todos aqueles que me ouvem: é importante se preocupar com a própria “memória”. Esta deve ser desobstruída das coisas inúteis, das ofensas à majestade do nosso “eu” (pedregulhos ou pedrinhas que nos impedem de continuar na caminhada da nossa realização) e centralizar-se, ao contrário, na lembrança das maravilhas que Deus realizou em todos nós. Dessa memória nasce a intuição que Deus pode esperar de nós o amor agradecido.

Um “eu” inflado e um coração cheio de gordura – para usar uma comparação bíblica – nos incapacitam de vermos a nós mesmos e a realidade na perspectiva certa e, portanto, levam-nos a uma ação frenética, ansiosa, carregada de tensões para todos.

Analisando o primeiro mandamento, sinto que devo fazer a mim mesmo a seguinte pergunta: “Sou um monoteísta? Coloco o meu eu no mesmo plano de Deus ou, pior ainda, o anteponho a Ele”. Isso seria politeísmo…

Devo admitir amargamente que encontrei muitos padres politeístas! E sinto que posso dizer com o papa João XXIII (quando foi enviado ao Oriente): “Estou contente de deixar Roma para trás, porque me causou muito, mas muito mesmo, enfado,  esse contínuo falatório de carreira, de promoção”. Ele intuira que isso de fato era politeísmo. Rezando ou fazendo conferências, eles falavam “também” de Deus. Um Deus, no melhor dos casos, considerado tão importante como o próprio eu. É triste ver homens de Igreja deixando-se levar pela tentação de explorar o próprio estado clerical e de ser servir da religião para fazer do próprio eu um verdadeiro ídolo: terrível sedução satânica, que faz emergir a petulância imunda do politeísta.

Oh, impureza dos homens que interiorizaram apenas fórmulas, fanatizando a lei e fazendo morrer a liberdade e o Espírito!     

SALVOLDI, Valentino (Org). HÄRING: uma autobiografia à maneira de entrevista. Trad. Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulinas, 1998. (Coleção Ética). pp 173-175

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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