A OUTRA (?!)

Por que “a outra”?

12/02/2011

Transcrevo a reflexão de Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ, sobre uma questão que está sempre em pauta. Ele não trata do assunto sob o ponto de vista da moral religiosa, para afirmar o que pode ou não pode, deve ou não deve. A leitura apresentada por ele, conforme afirma, é buscada na filosofia, procurando entender o que acontece.

Não é necessário concordar em tudo com o autor, como não é necessário concordar em tudo com nada que nos falam. Pode-se até negar tudo, caso necessite ou não consiga entender a análise feita por ele. Em todo caso, talvez seja bom pensar um pouco sobre a questão conforme a ótica que ele apresenta.

João Loch

“Eu poderia ter perguntado “por que os homens traem?”, mas, propositalmente, evitei esse título. O lado ético-moral é sempre o mais procurado pelos filósofos. Mas, aqui não quero falar de moral ou, melhor dizendo, não quero conversar primordialmente sobre moral. Minha questão é mais simples: quero saber a razão da necessidade de se ter “a outra”. Necessidade? Bem, quase isso, se levarmos em conta que mais de 50% dos homens, de diversos países do Ocidente, admitem ter tido “um caso” fora do casamento ao menos uma vez.

A resposta do senso comum para a existência de “a outra” é simples: procura-se fora do lar o que não se tem no lar. E o que é que não se tem? Sexo – dizem muitos. Carinho e atenção, dizem outros. E outros ainda: o homem é caçador e acaba sendo vítima da caça. Tudo isso tem um pouco de verdade. Mas a verdade, às vezes, para ser entendida, precisa de análise e hierarquização.

Há pesquisas recentes que dizem que o homem procura fora do casamento antes o reconhecimento e a valorização – que não tem em casa ou que não percebe – do que propriamente o sexo. Há pesquisas que mostram que o QI dos homens que traem é menor que o dos que não traem. Existem as pesquisas que demonstram que o homem de salário mais baixo que o da mulher trai mais. Podemos lembrar, ainda, de livros recentes que ajudam no tema: entre eles o Mistress – a history of the other woman, de Elizabeth Abbott, que conta a história do concubinato, da Grécia aos dias atuais, mostrando as várias facetas (inclusive as engraçadas) dessa “instituição paralela ao casamento” (veja a resenha). Exceto a questão ligada ao orgasmo feminino, não creio que exista outro assunto com mais “ibope” que este no campo jornalístico chamado “comportamento”.

Uma coisa comum que a literatura recente tem mostrado bem, principalmente a literatura que envolve estatísticas mais cuidadosas, é que aquilo que primeiro faz o homem se envolver com “a outra” é a construção (ou a reconstrução) da sua auto-imagem. O sexo é importante. Mas ele, como sabemos, está envolvido antes na fantasia que nos dotes de parceiras. O problema inicial é, mesmo, a questão do homem não conseguir sobreviver em um lar em que ele não é tomado como o “macho alfa”.

Um “macho alfa” precisa ser seguido. Ele é quem dá uma palavra de sabedoria. Ele tem elegância. Mais que isso, sua esposa é um porta voz de seu sucesso. Ela é um porta voz! Mas isso não implica em ser dominada ou submissa. Muitas vezes o homem precisa que sua esposa linda e inteligente, que até se mostre mais que ele, não deixe  de se apresentar na sociedade (e também para ele, a quatro paredes) como quem é sua primeira fã. É exatamente isso que as esposas traídas (com muitos dotes) não entendem.

As esposas que permitem a entrada da “outra” são as que reconhecem nos filhos “tudo que têm”. Os filhos vêm antes do marido? Então, eis aí o passo para a entrada da “outra”. A segunda questão é a valorização diante dos amigos. Aquela esposa brincalhona que, na mesa do bar, diz que o marido não é tão potente ou que faz chistes com a masculinidade do parceiro, já está com o salário dele pela metade, a metade restante ou até mais está com “a outra”. É claro que aqui temos de falar de sexo: a mulher com orgasmo pleno, através disso, premia o “macho alfa” com reconhecimento. Homens (e agora mulheres) querem não só gozar; eles querem que o “foi bom para você?”seja respondido com mais de um “sim”, quer aplauso e, se possível, maços de confete. Mas isso, o sexo com aplauso, nada é senão uma cláusula do primeiro item: reconhecimento como “macho alfa”, portanto, como aquele que é o número 1 e único.

Pequenas desvalorizações do marido no cotidiano abrem o espaço para que a “outra” entre e se instale. A mulher pode dizer: ora, mas isso é exatamente o que ocorre comigo. De fato, as mulheres sempre deram essa resposta também, bem antes que os homens. Mas aqui é que a filosofia pode ajudar, no discernimento do que é o reconhecimento masculino e o feminino.

O reconhecimento feminino tem a ver com o afeto. O reconhecimento masculino tem a ver com o afeto e com a construção da personalidade. Quando a mulher trai e denuncia que foi levada a isso porque foi desvalorizada, ela está sendo literal. Quando o homem trai e diz que foi desvalorizado, ele não está se referindo ao que a mulher pode inicialmente pensar. Ele não está falando só de afeto, há uma componente a mais aí: ele precisa da mulher, mais que a mulher precisa dele, para construir sua imagem. Ela é continuação da mãe para ele. Mas ele, nem sempre, funciona como a continuação do pai para ela. O homem espera a aprovação da mulher como ele esperou a aprovação da mãe. É claro que tudo isso pode ser sapecado e incrementando com Freud. Mas não quero chegar a tanto. Quero manter apenas a idéia geral da filosofia a respeito da formação da personalidade.

O que uma observação filosófica pode nos dar? A questão do espelho é fundamental.

A mulher precisa de espelho. Mas ela o tem na penteadeira. O homem usa esse espelho apenas para a barba. O verdadeiro espelho que ele precisa é a mulher, para que a personalidade dele fique acabada. Sim isso, o que começou em casa, não fica terminado. É como se os homens fossem, sempre, muito mais imaturos que a mulher para o casamento. E são. Por isso o saber popular nunca quis condenar (a não ser agora, em países onde a noção de pedofilia virou algo maluco) o casamento de homens mais velhos com mulheres bem mais novas. Essa sabedoria dos antigos (não só os orientais!) não veio de qualquer “dominação” masculina ou machismo. Poderia se dizer que ela sempre foi uma bandeira feminista, ainda que o feminismo oficial nunca a tenha entendido. A mulher sem o marido amadurece. O homem sem a esposa não amadurece. Tenha ele passado bem pelo Complexo de Édipo, o fato é que a esposa é, ainda, mesmo no “homem resolvido”, retrato (inconsciente?) da mãe. E é a mãe que vai vestir o menino, o rapaz, de homenzinho. Quando a mulher se nega a isso, esse homenzinho vai para a “outra”. Na verdade, o homem só amadurece para o casamento, como indivíduo que se sustenta com suas duas próprias pernas, após os 45 anos. Principalmente agora, na nossa sociedade ocidental que empurrou de vez a adolescência masculina para bem mais anos.

Mas qual a razão da mulher não requisitar o mesmo? Ela requisita reconhecimento, é claro. Mas ela sabe viver sem isso ou, melhor dizendo, ela sabe viver sem o reconhecimento que cobra mais que o afeto. A criação da mulher, por mais que ela tenha se libertado do lar, não a coloca como quem pode desconhecer duas coisas que a amarra à Terra: a maternidade e, portanto, o lar. O homem não conhece nenhuma manifestação como a menstruação. A mulher sangra. O sangramento diz: você pode ser mãe. O sangramento (e tudo que está ligado a ele), reverbera: você, a cada passo,  a cada escolha de parceiros, estará definindo sua responsabilidade com outra vida. Isso tem seu peso. É um peso pesado – não à toa, pois já vem com a simbologia do sangue! Isso é absorvido pelos poros da mulher, andando pela cidade, e a lembrança disso, no seu corpo, é mensal. Ela nasceu e falou primeiro que qualquer menino. Andou mais rápido. Mas, também, fica mulher antes que o homem fique homem. Biologia e vida social se casam aí para dar o quadro de uma psicologia que pode servir ao macho alfa. Caso não sirva, ele procura a “outra”.

Duro isso? Duro, mas, no contexto ocidental atual, real. A mulher que entende isso fecha a portas e as janelas para “a outra” e tem seu casamento a dois, e não a três, imaculado. É só a mulher perceber que ela é o sexo frágil porque é o forte, então fica fácil para ela por a outra para correr antes que esta apareça.

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ.

Quer mais? Leia Filosofia, amores e companhia, da Manole.”

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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