CONHECER-SE E VIVER MELHOR

Em seu livro The Middle Passage, James Hollis sugere que “frequantemente a pessoa se percebe como se estivesse a bordo de um navio acossado pela tempestade em alto mar. Olhamos para trás e não vemos porto algum a que regressar; adiante existe só o horizonte interminável. Não há tripulação e não há capitão; sozinhos, devemos decidir se vamos para a cabine e caímos no sono, na esperança de que o navio enfim alcance alguma praia agradável, ou agarramos  o timão e tocamos a nave para frente”. E, segundo ele, essa metáfora também ocorreu John Berryman, quando escreve:

” Se o atracadouro é invisível ou sumiu, dissemos que não podíamos saber.

Mas a razão tinha uma coisa por certa que ninguem ali, naquela noite pôde engolir muito bem: O navio está preso na névoa, nenhum homem a bordo consegue ver na direção do quê está indo, o alimento é escasso, menso amor ainda, sono nenhum, o mar é escuro e dizem que é fundo ali.

Onde está um oficial que saiba algo desta costa?…Quem sabe como com que fidelidade sua voz agora nítida poderia gritar ordens, vindas do chão do mar?     Personagens tradicionais não mais seus simples papéis aprendidos ensaiam  e enfim da maldição do tempo se protegem como na cama”. (Conversation, The Dispossessed, p. 42).

E Hollis continua: “As antigas autoridades perderam seu poder e os mapas não são achados. O tempo está amaldiçoado e os que se encontram à deriva no oceano cósmico estão em perigo. Apesar de tudo, devem singrar para frente”(p.154).

Fazendo considerações sobre o drama cósmico, do qual todos fazemos parte, Hollis (p.156-162) afirma que devemos vê-lo em pelo menos dois níveis simultaneamente: como a história da espécie e como a história da pessoa. E, como qualquer drama, tem uma estrutura. Na sua maneira de conceber este drama cósmico, existem quatro atos: caos, criação, separação e volta ao lar. A seguir estarei expondo esses quatro atos, conforme a visão de Hollis.

1. CAOS

O que há antes de ser, antes do princípio? O que causou a Causa Primeira? Nossa inteligência finita fraqueja, emaranha o fio de Ariadne de volta pelo labririnto do tempo imaginável  em caos, na sopa primal, no oceano cósmico, na lama e no lodo ctônicos, nos vagalhões tumultuados  da matéria primordial. Cada um de nós tem sua metáfora para esse estado anterior, anterior à consciência e à memória, de tal sorte que não pode ser descrito. Essa metáfora fala de um tempo em que a terra não tinha forma e os humanos não existiam. Na vida individual esse ato corresponde ao estado fetal, em que flutuamos sem noção de tempo naquele mar incosciente, ao sabor das grandes marés de sangue e proteína”.

Esse caos é percebido em todos os mitos da criação de todos os povos. É só ver como os ditos povos primitivos narram a criação do mundo. E também a Bíblia, conforme Gn 1-11.

2. CRIAÇÃO

“Em algum instante no antes-do-c0meço algo acontece, se mexe. Mas o que é esse “algo”, o grande catalisador? Não sabemos, então somos motivados a encontrar imagens, a extrarir do desconhecido um símile de significado, uma metáfora que se possa trazer do desconhecido para o mundo cognoscível. As várias tribos compõem as metáforas que lhe são emocionalmente significativas. Para uma é um deus que fala. Para outra, a terra e o céu copulam. Imensas forças colidem por estarem em movimento, e o ser tem início.

Seja qual for a metáfora, algo acontece para pôr em movimento esse processo. O ôvo cósmico racha, o uróboro divide-se no par de opostos. O vácuo concebe e dá fruto. A partir dessas dramáticas versões do mistério do nascimento, duas grandes forças são postas em movimento na história e na vida da pessoa. Podemos denominá-las  de eros e logos. Eros é a força de adesão, de busca de conexão, que recombina e sintetiza. Logos é a força que separa, diferencia, deixa para trás e desenvolve. Eros oferece o impulso para a ligação com os outros, com a natureza, com os deuses. Logos é o impulso para a diferenciação em nível celular, e depois para a instalação e o desenvolvimento da consciência”.

3. SEPARAÇÃO

“Para que alguma coisa seja, ela precisa diferenciar-se. Eu sou eu porque não sou você, nem a árvore ali adiante. As polaridades são necessárias à definição. Luz e escuridão, dia e noite, masculino e feminino, terra e céu, mar e firmamento, umidade e aridez, vida e morte, e assim por diante. O bebê que flutua no oceano cósmico do útero materno não tem identidade, pois não se posiciona em frente-contra o Outro. É dolorosa a separação da mãe. Arrremessado violentamente num mundo de luzes cegantes, de sons atordoantes, com gravidade e estranhezas, o padecimento do recém-nascido é imenso. O nascimento é também uma perda da conexão , um exílio do estado de graça, descer até o inferno da mortalidade. Não obstante, sem essa separação a pessoa  não existiria, pois só existimos em nossa própria separatividade.

A polaridade de opostos é indispensável ao nascimento de uma criatura humana. Temos em comum com os outros animais a  nossa vida instintiva, mas a experiência dessa polaridade crítica torna possível a dimensão da consciência, o despertar do torpor instintivo para nos tornar conscientes e capazes de processar, recordar e intencionar. É a paradoxal perda da conexão umbilical com o mundo instintivo da tribo e com a mãe (no caso de cada bebê), que gera a dimensão da consciência e a capacidade de ser uma criatura humana. Da polaridade nasce a consciência; desta vem a capacidade de fazer escolhas; desta decorre a sensibilidade ou percepção moral e, desta, a maturidade.

Cada unidade tribal teve, em algum momento de sua  história, de dar o grande salto evolutivo, da gratificação instintiva para a sublimação. (Podemos perceber os primeiros elementos dessas grandes transposições, por exemplo, nos livors finais da Bíblia, considerando o AT, em Jó em particular, e na Oresteia de Eurípedes.) Nossos companheiros na criação movem-se ao sabor dos ritmos de sua instintualidade. Acumulam os alimentos antes do inverno, dormem, copulam, afastam-se das fontes de dor, mas não se denominam entre si, nem  compreendem abstrações como dinheiro ou justiça, não ficam neuróticos, não amam nem trucidam  o vizinho em desfesa de algum slogan. Todas essas coisas exigem uma consciência capaz de refletir.

O crescimento da consciência é um processo de movimento espiral. A cada volta do círculo a pessoa sobe um pouco mais em relação à vida instintiva. A cada anel a tribo, como a pessoa, obtém mais controle sobre seus  instintos  e o mundo natural, mas sofre uma perda concomitante. Essa distãncia entre a vida instintiva e a consciência é chamada neurose, preço necessário para a evolução acontecer. Quanto mais plenamente evoluída a consciência, maior a carga de responsabilidade. Crescer e amadurecer, como sociedade e pessoa, siginfica subir pela espiral na direção de uma dimensão consciente cada vez maior, sempre voltando a experimentar diretamente a própria separatividade e ciclicidade.

4. A VOLTA AO LAR

“Precisamente a separação que consolida a consciência também desencadeia um grande sofrimento. Quanto mais nos afastamos da vida instintiva, mais longe estamos de casa e mais sofremos.  Todas as tribos têm um mito da Idade de Ouro, das Ilhas de Felicidade, do tempo edênico (um Éden) anterior ao sofrimento e à consciência (como o paraíso, na visão bíblica). Eles não estiveram lá, mas certamente seus gandes antepassados sim, os Primeiros. Se for verdade  que nossos antepassados viveram numa era de ouro, suplantada pela idade de prta e de bronze, e que vivemos na do ferro, então também é verdade que os deuses caminharam pela terra nesse tempo e falaram  diretamente com nossos ancestrais através dos carvões incandescentes, (Deus conversando com Moisés num arbusto que ardia em chamas), de grandes maremotos e da própria terra. Não, nós não estamos lá agora, mas gostaríamos de estar.

Por mais desejável possa parecer de longe, ser adulto, consciente e responsável é oneroso. É tão exigente e desgastante que, de tempos em tempos, todos nós temos vontade de largar um pouco a sacola de pedras e recuperar uma vida mais simples. Ao longo dos anos, pelo menos três padrões recorrentes evoluiram em todas as culturas de todas as idades e na vida da maioria das pessoas. Cada padrão representa, tenha a pessoa consciência disso ou não, uma maneira de recurar diante dos rigores da viagem, e de esquivar-se à ubiqua angústia do alto-mar.

Estou me referindo ao infantilismo, à regressão química e à dependência ideológica”.

INFANTILISMO

“Ser adulto não tem praticamente nada a ver com tamanho ou idade, e sim com o nível de consciência e de responsabilidade pessoal, até onde a pessoa tenha evoluído. Lamentar-se pelo próprio destino, por acidentes de nascimento ou vida em família, por sua fase existencial, são exemplos de infantilismo. Esperar que outra pessoa tome conta de nós, também.

As duas maiores e mais difíceis ilusões que os humanos têm para descartar são a fantasia do “Outro mágico”, aquela pessoa que vai entrar  na vida e fazê-la andar, torná-la  significativa e livre de dores, e a fantasia da ‘imortalidade’, por meio da qual o elo mortal que nos liga todos à condição humana só se aplica aos outros. Viver uma vida de preocupações narcisistas, a busca de gratificações imediatas e a sistemática evitação da dor e das responsabilidades por si mesmo e pelos outros são ainda mais alguns padrões comuns de infantilidade. Lamentavelmente, essas características se aplicam  a um contingente imenso de seres humanos, em nossa era moderna. Quantos confortos para a criatura, quantas maneiras vicárias e voyeuristas de viver, quantas fugas do abismo em cima do qual caminhamos diariamente…

REGRESSÃO QUÍMICA

Várias substâncias químicas têm sido ingeridas desde o início dos tempos para garantir acesso à visão sagrada. Desde os celebrantes enloquecidos pelo vinho que culturavam Dionísio, até o vinho-sangue de Cristo, e os índios do Novo México consumidores de peiote, as substâncias químicas têm sido empregadas no recipiente bojudo do ritual para fazer a ligação com o transcendente. Muito mais regularmente porém, alimento, drogas, tabaco e álcool têm sido usados para anular a dor da idade adulta psicológica e para estultificar a sensação da separação. Quanto mais uma cultura perde seu eixo mítico, mais propensa se torna ao abuso de drogas. Estas oferecem uma momentânea supressão da dor espiritual, um escudo contra as asperezas da viagem, mas o preço que é pago é o nível de consciência necessário ao crescimento.

Recorrer deliberadamente às drogas puxa a pessoa de volta para o sono no regaço da Mãe. É uma forma de lidar com a ansiedade. Conforme o nível de desligamento mítico aumenta, também cresce o nível de angústia. Com o movimento regressivo, a pessoa experimenta uma fugaz reconexão e sente a presença da totalidade através do Outro. Essa sensação só pode ser mantida por breve período e, portanto, tem que ser repetida com frequência. Esse é o nascimento do comportamento viciado, que pode se valer de alimento, das substâncias químicas, ou da cálida pele de alguém. É tão grande a dor da separação que hoje se ouve que o objetivo é ‘não sentir dor’, ‘se largar’, ‘ficar chapado’, ‘desistir um pouco’. Como todos têm comportamentos viciados, quer dizer, respostas reflexas a níveis inaceitáveis de ansiedade, todos nós caímos em padrões que atenuam a espiral ascendnete de evolução da consciência.

DEPENDÊNCIA IDEOLÓGICA

O terceiro modo mais comum de evitar o fardo da consciência é nos entregando a um grupo ou relegando-se a Grande Líder. Já presenciamos nações inteiras abrindo mão de sua consciência individual e de seus valores morais, para seguir líderes carismáticos em campanhas santas. De Jonestown ao fundamentalismo evangélico e às adulações dos comerciais, a sedução do pensamento massificado é por demais evidente. Toda ideologia se baseia em algum tipo de idéia, talvez até numa boa idéia. Mas toda idéia que seja universalizada a fim de aplicar-se a todos, que não sofre dúvidas nem críticas internas, que polariza as pessoas, torna-se demoníaca. Qualquer ideologia – relgiosa, política, até mesmo psicológica – que pretenda simplificar as complexidades do mundo a fim de tornar a pessoa mais confortável é demoníaca. Os que oferecem  respostas fáceis não compreendem as perguntas. Permanecer no território de uma ideologia, em lugar de crescer por meio do necessário sofrimento da vida, é outra versão da regressão.

Cada um de nós pode, de tempos em tempos, regredir através de um ou outro desses padrões, tão grande é o rigor e a duração da viagem. Mas a percepção destemida e consciente da amplitude, da diversidade e do imperativo do drama cósmico requer que nós também respondamos ao chamado mítico que ecoa ao longo dos corredores da história  e no tutano de nossos ossos.

O máximo que temos a oferecer diante das grandes forças regressivas dentro de nós  e ao nosso redor é nossa disposição de empreender a jornada. A consciência que temos da dualidade e do conflito é dolorosa, mas escollher  o caminho da própria individuação  é a única escolha adulta, o único caminho para vivermos a nossa vida ao máximo e, ao mesmo tempo, servir o mistério maior. Essa é uma escolha que não se faz só uma vez e pronto. Cada dia pede uma renovação da mesma, diante dos demônios do medo da dúvida e da letargia.   

Se dermos um passo atrás e contemplarmos a confusão caótica da história humana poderemos ver o drama cósmico em sua mais plena glória. Há muitas perdas, muitas regressões, muitos caminhos errados, mas a ânsia inescapável  da alma pode ser nitidamente constatada, através do tempo e da vida individual. Como disse Jung: ‘Cada pessoa é um novo experimento da vida em suas incontáveis inconstâncias de humor, e uma tentativa de uma nova solução’. O mito da individuação de Jung é um mito para esta era sem mitos. A metáfora do drama cósmico é uma maneira de localizar a jornada da alma quando todas as outras bússolas desaparecerem de vista.

Somos só um minúsculo fragmento da história , mas contemos a promessa dela inteira.  Enquanto viajantes de um tempo que perdeu seus mitos, nossa tarefa de individuação é uma nota que se destaca na grande canção que vem sendo cantada desde os primórdios. 

Para se aprofundar mais sobre este assunto, sugiro que leia o livro de James Hollis, RASTREANDO OS DEUSES: o lugar do mito na vida moderna, Ed Paulus.

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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