CONFISSÃO DE UM CARDEAL

CONFISSÃO DE UM CARDEAL

(retirado do livro “Confession d’un cardinal”, de autoria de Olivier le Gendre, éditions JC Lattès, Paris, 2007, pp. 379-380. Trata-se de uma série de entrevistas concedidas por um cardeal da cúria romana que prefere ficar no anonimato).

Não há mais cristandade no ocidente por duas razões. A primeira é que a igreja, apesar de suas realizações extraordinárias e de sua boa vontade, está desacreditada. A segunda é que o mundo ocidental, por seu próprio desenvolvimento, perdeu um bom número de razões que o levavam a crer, nos tempos passados.

Querer reconstruir os equilíbrios desse passado é impossível, ingênuo e um pouco doentio. Os que se engajam nisso, gastam suas energias e aumentam a perda de credibilidade da igreja e dos cristãos. Fora do ocidente, a nossa religião ainda é vivida segundo o modelo ocidental da bela época. Esse modelo não vai durar muito por duas razões. A primeira é o desenvolvimento em curso desses paises que produzirá os mesmos efeitos dos anteriormente constatados no ocidente. A segunda é que a globalização em curso traz consigo uma ideologia que vai destruindo o sentimento religioso.

Essa globalização do mercado é criadora de conflitos agudos. Ela fabrica injustiça e miséria, provoca desequilíbrios e traumatismos dos quais ainda não conhecemos os efeitos reais. O mundo não possui meios de regular essa globalização selvagem. Nossa igreja é o único poder espiritual centralizado mundialmente. Ao invés de se empenhar na restauração de seu passado dito glorioso, ela é chamada a desempenhar um papel preponderante para tentar propor, com outros poderes, uma alternativa á globalização do mercado. Essa alternativa consiste em humanizar uma globalização que desumaniza de forma intensiva.

A igreja, em geral, ainda não tomou consciência de sua situação real, nem da situação do mundo, nem do papel para o qual é chamada a ser fiel à sua vocação. Ela gasta muita energia em combates secundários de antemão perdidos.

Nós fazemos parte de grupos que pretendem fazer com que ela tome consciência de que sua fidelidade lhe ordena mudanças de atitudes e de objetivos. Nós nos engajamos numa obra de fôlego longo que tem duas vertentes. A primeira é de tentar acelerar essa tomada de consciência da igreja. A segunda consiste em preparar o momento em que a crise se tornará tão aguda que será impossível negar a necessidade das mudanças. Nós queremos estar prontos nesse momento preciso. (Nota do tradutor: num outro tópico do livro, o cardeal opina que esse momento provavelmente chegará daqui a vinte ou trinta anos). Prontos a propor alternativas, prontos a demonstrar a validade delas graças às experiências que teremos instituídas um pouco pelo mundo inteiro.

Essas experiências minúsculas são de uma diversidade muito grande. Mesmo assim, todas elas têm um coração comum: encarnar uma nova maneira de ser cristão num mundo desumanizado. E, nesse sentido, criar espaços onde se expresse concretamente a ternura de Deus pelo mundo e pelos que nele vivem.

Eis o que um determinado número de nós está fazendo no momento, cada um onde vive, cada um segundo os seus meios. Nós nos conhecemos, nós nos reconhecemos. Nós falamos, nós colaboramos, nós tentamos convencer. Nós agimos sob múltiplas formas. Nós influenciamos, tanto quanto está em nosso poder, o desenvolvimento dos acontecimentos. Nós não somos muito visíveis, mas somos facilmente identificados. Nós estamos mais do lado da brisa do que da tempestade.

(traduzido do francês por Eduardo Hoornaert)

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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