Dependência química – “como está meu tratamento”

Avaliar o próprio tratamento. Esta foi a proposta que fiz ao grupo de dependentes químicos em tratamento, com o qual hoje tive encontro. De um grupo de 30 pessoas, foram formados pequenos grupos de 3. Nos pequenos grupos eles trocaram experiências sobre  a forma como vieram parar na clínica, período de adaptação, sentimentos para com o familiares, resistências, reinternações e os medos e inseguranças sobre o conseguir deixar a droga ou não.

Alguns estão na primeira internação. Outros, na segunda, terceira, quinta….Dentre os que já foram internados outras vezes, vários falaram que apesar de terem recaído, têm se sentido mais amadurecidos e mais fortes para quando saírem da internação.

Um deles falou explicitamente: “Das outras vezes que vim internado, vim amarrado. Fiquei um mês sumido. Desta vez liguei para a minha mãe e falei: ‘recai. preciso de ajuda novamente’. E estou realmente disposto a fazer tudo o que estiver ao meu alcance para não usar mais drogas. Hoje estou com o vínculo familiar muito melhor. Será, eu quero, minha última internação, porque estou decidido a não usar mais drogas”.

Outros dois colocaram que não sabem como fazer. Estão com medo, pois mesmo não querendo pensar mais em drogas; estando decididos a parar, a vontade de usar e mesmo todas as situações de uso vêm à mente até quando estão lendo a bíblia.

Mais alguns depoimentos:

“Eu estou para ir embora. Está terminando meu tempo de internação. Procurei aproveitar bem tudo o que me foi passado aqui. Fiquei aqui sem pensar em drogas. E agora estou com medo, porque os pensamentos relacionados à ativa estão voltando”.

“Quando estava no segundo mês de tratamento eu queria ir embora de qualquer jeito, porque achava que não tinha mais nada que fazer aqui. Meus pais não me levaram e, agora que está faltando só um mês, sinto que ainda não estou preparado para sair”.  A clínica tem uma proposta de 9 meses de tratamento. Tem um porquê desse tempo. Não basta só desintoxicar. É preciso um tempo maior para que a pessoa consiga se avaliar melhor, se reestruturar, perceber que pode viver de outra forma e se dispor a fazer algumas mudanças estruturais na sua forma de vida. É uma tarefa muito grande para se fazer em pouco tempo. E mesmo ficando 9 meses, muitos não se posicionam para realmente parar de usar a droga de preferência. Querem parar mas sem a própria participação, sem esforço, sem deixar nada da vida de ativa.

“Não aceito até hoje ter sido internado à força. Quando me lembro que meus pais fizeram isto comigo, ainda sinto raiva. Não sei como vou superar este sentimento que, sei, está me fazendo mal”. Ainda não se conscientizou que os pais não tiveram outra opção. Todas as propostas feitas pelos pais para ajudá-lo não foram aceitas. Todas as promessas que ele fez aos pais não foram cumpridas. Estava saqueando os pais, largou os estudos, não conversava com mais ninguém. Não aceitava ir ao psiquiatra nem ao psicólogo. A vida da família estava totalmente desestruturada e só em função do descompromisso e da doença dele. E ainda acha que ninguém tem que se meter na sua vida. Incapacidade de perceber os outros e ver como são afetados pelo seu comportamento egoísta e  inconsequente. Ninguém pode lhe cobrar nada, mas ele pode exigir que todos fiquem em sua função.

“Eu forcei meus pais para me levarem bem antes do tempo determinado pela clínica. Achava que iria resistir. Prometi que não usaria mais drogas. Poderiam confiar em mim. Sai e ao primeiro não que recebi, à primeira frustração, respondi indo justamente buscar e usar drogas. Trouxeram-me de volta e agora tenho que admitir que preciso ainda aprender muita coisa e melhorar na forma de reagir aos ‘nãos”, se quiser continuar limpo”.  Na primeira internação dele havia uma resistência muito grande em aceitar que tinha perdido o controle e que precisava de ajuda. Colocava toda a culpa da sua fraqueza nos pais, pois achava que não podiam ter falado alguns nãos para ele. Prometeu aos pais que não usaria mais drogas e que tinha todo o controle sobre a situação. Os pais o levaram e ao primeiro não que recebeu, à primeira frustração, foi diretamente para as drogas. Agora está com outra postura, pelo menos por enquanto. Está participando de uma outra forma dos grupos, dispondo-se a colaborar com os colegas e afirmando que não imaginava ser tão difícil controlar o impulso como agora tem consciência.

“Tenho que ficar ocupado. Quando fico no páteo sem fazer nada, minha cabeça viaja e começo a pensar em coisas que me fazem mal”. Aqui fica visível a ansiedade exacerbada. Não conseguir entrar em contato consigo. Precisa estar sempre ocupado com afazeres, porque se ficar ocioso não aguenta de tanta angústia. Isso mesmo estando medicado para a ansiedade. Ainda tem medo de se ver, de se conscientizar das próprias fraquezas. Necessidade de aprender a lidar com os pensamentos e sentimentos que afloram. Estes sentimentos não podem ser simplesmente renegados, porque podem se tornar ainda mais fortes. Há toda uma técnica de evitamento, de se focar em outra coisa, mas algumas feridas exigem que se entre nelas para serem curadas.

Houve ainda outros depoimentos. O compartilhar levou 40 minutos. Mas o exposto acima já dá para ter uma ideia dos sentimentos e posicionamentos deles frente às dificuldades não só quanto ao tratamento, mas ao uso, relacionamento com os familiares, perdas que já tiveram….

Quase todos reconhecem que estavam muito mal. Não estavam tendo controle sobre o uso e o relacionamento com os familiares há muito estava péssimo. Não ouviam mais ninguém e os compromissos estavam ficando todos de lado. Mesmo não gostando admitem, na sua maioria, que foram salvos pela intervenção da família. Se a família não tivesse feito nada, poderiam agora estar mortos ou presos. Alguns colegas da ativa já foram mortos. Se a família ficasse esperando que eles pedissem ajuda, na sua maioria, no ponto em que estavam não iriam pedir essa ajuda, porque não queriam parar e não tinham nem condições de pensar sobre isto.

Agora que estão há um tempo limpos, voltaram a sentir saudades, falta dos pais, reconhecer que se não saírem desta vida, vão perdê-la muito rápido. E reconhecem que a família tomou esta decisão porque ama. Se não amasse deixaria que se acabassem na rua.

É fácil ficar internado? Claro que não. É um remédio amargo. Mas necessário. Remédio a gente não toma porque é gostoso, mas porque é preciso.

Para fazer uma mudança, como deixar de usar drogas, é necessário mais que boa vontade. É renunciar a algo que dá prazer imediato. Se não tiver um projeto de vida e a capacidade de raciocinar sobre não só o prazer imediato, mas o desprazer consequente, a pessoa não para de usar. Uma outra coisa importantíssima é decidir mudar alguns hábitos pessoais e sociais.  É importantíssimo que se crie vínculos com pessoas não ligadas ao uso drogas e se aproximar de pessoas com hábitos mais saudáveis.  Além disso: ter um projeto; cuidar da espiritualidade, ter referências positivas para auxílio nas horas de desespero, acompanhamento profissional…E a família também precisa mudar algumas coisas no relacionamento com o dependente. Todo o contexto precisa ser melhorado.

O dependente precisa ter paciência consigo mesmo e com os que estão a sua volta, neste processo de aprendizagem de como viver limpo e se sentir bem. Há um tempo para readquirir a confiança em sua capacidade, voltar a sonhar, ter uma nova percepção de si nos vários aspectos da vida. Persistir nos seus planos de vida saudável e entender que a vida não é feita só de sim. Há também nãos. E as dificuldades não para ficar parados frente a ela, mas para acharem uma forma de superá-las. Só encarando os problemas é que pode haver crescimento. Quem não quer assumir a vida com mais responsabilidades, acaba por não sair da adolescência, mesmo que já esteja com 40 anos de idade. Ter medo de ficar adulto faz com que se pare na vida. Assim não há crescimento. E a droga sempre fica sendo uma saída fácil para se anestesiar das contrariedades reais ou imaginárias.

Conforme Leonardo Caixeta (2011, in “Mente&Cérebro, n. 29, p. 14-19), há prazer menos imediato que a droga, diretamente ligado à possibilidade de postergar o bem-estar e tomar decisões que nos tragam satisfação de foma mais equilibrada e perene.

Referindo-se de modo específico à bebida alcoólica, o mesmo autor afirma que vários estudos mostram que a bebida interfere em nossa capacidade de fazer escolhas. Para entender esse processo precisamos entender que dispomos no cérebro dois sistemas de processamento de informação que lutam para controlar as respostas à nossa vontade: o impulso de recompensa imediata e a razão, que persegue objetivos de longo prazo. Quando a pessoa desenvolve uma dependência química ou etílica, a razão evapora. Ciente dessa luta, o escritor Oscar Wilde afirmava: “resisto a tudo, menos às tentações”. E poderíamos citar também São Paulo que afirma:”não faço o que quero e faço o que não quero”.

Adiar uma recompensa imediata é aceitar ser privado do prazer naquele momento. Um adicto não consegue adiar a este impulso imediato. Primeiro ele usa a droga ou outra coisa da qual se tornou dependente. Depois pensa nas consequências. O problema é que só via pensar nas consequências quando já as está sofrendo.     Usar a razão para conseguir vencer o impulso é algo a ser aprendido e treinado com persistência.   Aprender a pensar antes de agir.  Por isso a necessidade de grupos de apoio, novos amigos….e motivos que justifiquem continuar se posicionando e falando todo dia: “só por hoje”.

Segundo a teoria do comportamento planejado (Icek Ajzen, Thomas J. Madden, 1986), todas as nossas ações são diretamente influenciadas por nossos interesses. Recentemente, contudo, pesquisadores começaram a considerar modelos que atribuem ao autocontrole (ou à sua falta) o resultado de uma batalha entre impulsos e capacidade de reflexão.

Para avaliar a influência do álcool nas decisões, pesquisadores ofereceram chocolate aos voluntários de uma pesquisa e descobriram que era fácil prever a quantidade que comeriam com base somente em suas respostas, desde que não tivessem consumido álcool. As pessoas dispostas a não exagerar o consumo de doces (embora se sentissem inclinadas a fazê-lo) mantinham-se fiéis a seus propósitos quando estavam completamente sóbrias. O mesmo, porém, não ocorria se tivessem ingerido bebida alcoólica: entre os participantes não tão sóbrios, quanto mais gostavam de chocolate, mais comiam. Isto confirma a velha máxima de que o superego (instância psíquica que cumpre, entre outras coisas, o papel de promover interdições) parece mesmo ser solúvel em álcool. Ou dorme e nos deixa nos braços dos impulsos momentâneos.(Mente&Cérebro, n. 19, p 17-18).

Tendo presente este enfraquecimento da vontade quando se fica alcoolizado, há uma orientação para quem é dependente de outras drogas mas acha que não tem problemas com álcool: “não beba bebida alcoólica, porque seu sistema de controle fica relaxado e você corre um sério risco de voltar ao uso da droga de preferência. Muitos não acreditam que isto seja verdade. E o resultado é que não são poucos os que recaem seguidas vezes, por causa disso.

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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