A BÍBLIA OU A CIÊNCIA?

Compartilho o artigo de Ghiraldelli sobre um debate que volta e meia retorna sobre se a bíblia tem razão ou a ciência, na questão da origem do mundo. São discussões sem sentido, para quem tem um pouco mais de formação e sabe que a bíblia não tem a preocupação em determinar normas científicas. Isto acabe aos homens. Descobrir como realmente se deu a criação, como o mundo foi aumentando. Recebemos inteligência para irmos descobrindo e aperfeiçoando este conhecimento. A principal preocupação bíblica é ajudar o povo a viver conforme a vontade de Deus, perceber seus limites e saber que uma sabedoria maior dá sentido a tudo. Convido você a ler a reflexão do filósofo, que vem a seguir. Pode ajudar a melhorar também sua visão sobre este assunto e a não ficar em discussões bobas e que não servem para nada. Ignorar ou ter medo das descobertas científicas não é sinal de fé. É sinal de insegurança e desejo de manter as pessoas na ignorância e incapacidade de reflexão, para serem melhor manipuladas. Reconhecer as descobertas científicas não é sinônimo de ignorar ou ir contra a ação de Deus e seu amor que a tudo perpassa e permite.

João Loch

“Deus e Darwin, cada um no seu quadrado

14/01/2012

Deus e Darwin nunca brigaram. Mas partidários de um e outro, vivem se pegando. Qual a razão dos partidários se estapearem enquanto que os próprios donos da coisa vivem em paz? A razão é que Deus sempre soube que o seu best seller, a Bíblia, é antes normativo que descritivo, enquanto que Darwin nunca contou outra coisa com oA origem das espécies que não uma narrativa descritiva.

Darwin mostrou em teoria o evolucionismo que depois, em laboratório, graças às observações em genética e mutabilidade, confirmou-se: nós todos que usamos a linguagem somos parentes dos não usuários da linguagem. Deus mostrou para Moisés um conjunto de regras para guiar um povo nômade que, enfim, estava desejoso de fixar residência, e mais tarde mandou Jesus ampliar e reformular essas regras de modo que elas pudessem ser oferecidas para outros povos.

Assim, aquilo que é da Bíblia diz respeito ao dever ser enquanto o que é de Darwin trabalha com o ser. Fatos e normas não deveriam ser postas no mesmo plano. Todavia, há doutrinas filosóficas que os colocam no mesmo plano. Estariam essas doutrinas desprezando a divisão de Hume de uma maneira prejudicial à necessária separação entre Bíblia e evolucionismo e, então, nublando a boa divisão posta pela política liberal de Locke entre religião e Estado?

Preciso me explicar, porque quem agrupa fatos e normas é justamente aquela filosofia da qual me considero, de certo modo, um herdeiro.

Alguns filósofos – em relação aos quais não discordo – já disseram que no limite não há diferença hierárquica, quanto à verdade, entre enunciados sobre o dever ser, isto é, enunciados ético-morais, que implicam em juízos de valor, e enunciados sobre o ser, sentenças científicas, que implicam em juízos de fato.  Eles argumentam que, no limite, a crença em determinados enunciados e a justificação desses enunciados, portanto, a verdade, depende da aceitabilidade intersubjetiva, o que valeria igualmente tanto para juízos de valor quanto para juízos de fato. Os filósofos adeptos do pragmatismo – uma doutrina nascida na América – são os que dizem isso. Para os pragmatistas o enunciado “2 + 2 = 4” pode durar mais como alguma coisa em que se pode acreditar em comparação com o enunciado “A escravidão é abominável”, mas nenhum e nem outro possuem, no âmbito filosófico, qualquer motivo para falar a favor de sua eternidade como verdade. Ambos dependem de nós, os que proferimos tais verdades e a sustentamos.

Os argumentos para se chegar nessa conclusão dependem de uma discussão filosófica mais profunda, inclusive com termos técnicos que exigem que o leitor tenha formação em filosofia. Todavia, para o que interessa aqui, podemos dispensar Dewey, Quine, Davidson e Rorty e dizer apenas que (1) “2 + 2 = 4” é tão relativo a nós quanto (2) “A escravidão é abominável”, porque para que (1) seja algo sustentável temos de fixar o domínio de validade da sentença. Temos de dizer que essa operação matemática diz respeito a um determinado conjunto de números, e não a todo e qualquer conjunto. O mesmo nós fazemos para (2), “A escravidão é abominável”; temos de fixar o equivalente ao domínio, ou seja, as condições históricas e geográficas. Bem, se entendemos isso, então podemos começar a desconfiar que a Bíblia, que diz respeito ao normativo, e o escrito de Darwin, que diz respeito ao descritivo, não teriam cada um o seu campo, e por isso eles de fato podem brigar. Mas, cuidado aí!

Apesar dos pragmatistas afirmarem que os enunciados podem ser trazidos para o mesmo campo de validade, isso não implica em dizer que eles, semanticamente, não estão em campos distintos. Quanto à verdade, podemos trazê-los para um campo delimitado por um muro que os aglutinaria, mas quanto ao significado, eles não nos contam a mesma coisa ou coisas da mesma ordem. A Bíblia não conta uma história coerente da criação. Ela conta uma história incoerente e fragmentária da criação. Qualquer criança sabe que seria um pouco desagradável perguntar como que a humanidade cresceu sem que Eva tivesse filho com seus filhos. Então, é fácil perceber que para levar a Bíblia a sério, como tantos assim agiram, o discurso bíblico nunca é tomado para ser colocado sob crivos desse tipo. O que está em jogo, efetivamente, é o valor moral da história da criação. Tudo gira em torno de um perigo para o qual o homem é alertado (pela maioria das religiões), isto é, o homem deve saber de seus limites. Não querer ser divino quando se é mortal é algo inteligente. A promessa da serpente como gênio do mal é a promessa de que o homem poderia ser mais senhor da Terra do que ele já estava predestinado a ser. Em outros termos, o aprendizado bíblico diz o seguinte para os judeus: “os povos podem querer se suplantar uns aos outros, mas todos são humanos e mortais, e ninguém é mais que o outro, pois ninguém tem forças divinas, só mortais mesmo. Meu povo – conheçam o que podem fazer e o que não podem fazer e farão tudo da melhor forma”.

Essa mensagem foi captada. Junto dela, se o homem veio ou não a aparecer na Terra daquela forma contada na Bíblia, nunca foi importante para os que abraçaram a Tábua de Moisés. Essas questões de veracidade factual, no sentido que a entendemos hoje, nunca se colocaram para os leitores antigos da Bíblia. Elas só foram aparecer quando os Evangelhos tiveram de competir com outras narrativas, as dos romanos, gregos, persas etc. Mas aí, todos nós sabemos, os cristãos tiveram um exército de intelectuais que foram criando os mecanismos de adaptação dessas narrativas todas. Santo Agostinho esteve à frente desse processo, mais ainda que os primeiros padres da Igreja.

Agora, quando do início da época moderna, aí sim, por força da tendência dos intelectuais de traçarem quadros descritivos – quase que um positivismo antecipado –, é claro que o discurso bíblico não escapou de começar a ser também interpretado como alguma coisa dessa ordem, em um sentido moderno da idéia de factualidade. Até porque, como discurso normativo, uma vez distante do seu povo de origem e de seu tempo de nascimento, ele já não estava lá com grande autoridade. Quem iria levar a sério algo como “não matar” ou “não roubar” ou não “cobiçar a mulher do próximo” etc.? Todos os reis faziam isso. A própria Igreja torturava e matava. Então, o peso descritivo começou a ser efetivamente um peso – parecia ser a única coisa que restava. Tanto os padres quanto os intelectuais laicos caíram na armadilha que eles próprios montaram. Quiseram disputar terreno com o elemento de verdade de seus discursos, deixando de lado o elemento semântico. Acharam que diante dos setores populares, era muito mais fácil convencer tramando as coisas no campo do primeiro e não no sofisticado e mais sutil campo do segundo. Não demorou em ocorrer o inevitável: eles mesmos se perderam e passaram a acreditar que o grande embate deveria ser traçado entre o discurso da criação e o discurso ateu, que logo depois viria ganhar uma artilharia pesada, a de Darwin.

A Igreja, entre os seus intelectuais, há muito abandonou essa querela. O darwinismo está integrado às verdades científicas e a Bíblia, por sua vez, diz respeito ao como viver. É assim para a cúpula da Igreja Católica e é assim também para os setores mais intelectualizados do protestantismo. Mas nem um e nem outro procuram dizer isso muito claramente. Temem que um tal discurso, que seria como o que estou fazendo agora, não possa ser compreendido pelos setores populares, e que isso leve a uma descrença geral na religião e, enfim, a um vazio ético moral no mundo. No limite, pode-se então ficar com Voltaire, que disse claramente contra Diderot: “que nós sejamos ateus, tudo bem, mas que o povo não tenha religião, é um loucura”. (Um dado curioso é que Voltaire, muito doente e sentindo que estava para morrer, pediu que chamasse um padre para lhe dar a unção, a qual recebeu com grande devoção. O que ele havia ignorado durante a vida, precisou assimilar, pela necessidade de se tornar inteiro, na hora da morte.  Obs.: este é um acréscimo meu ao artigo de Ghiraldelli – João Loch)

O marxista Terry Eagleton escreveu uma resenha do livro de Alain de Botton,Religião para ateus (2011). É uma boa resenha, diferente das publicadas no Brasil, onde alguns pouco informados que, enfim, talvez nem tenham lido o livro, classificaram o livro de “auto-ajuda sofisticada”. Eagleton diz que Botton está falando o mesmo que Voltaire: que a religião permaneça para as massas. Isso seria um elogio a Botton, e de fato é. Mas Eagleton não está querendo fustigar ou elogiar Botton, ele tem o marxismo na cabeça e, de certo modo, ainda está sob os ventos de sua velha formação: tem de pregar o ateísmo, mesmo após Nietzsche ter dito que Deus morreu. Então, ele quer combater a religião e, junto disso, fustigar também Habermas que, segundo ele, estaria agora defendendo que a religião, como elemento cultural e moral, é alguma coisa que teria seu espaço em um mundo forjado pelo iluminismo.

Ora, tudo isso são farpas de Eagleton. E, a meu ver, se a resenha dele é boa, o pecado fica na parte em que ele novamente reforça uma disputa em nível filosófico que não deveria fazer sentido. Criacionismo não é uma teoria, nunca deveria ter existido como teoria, muito menos se oposto ao que é uma teoria, o darwinismo.

A leitura da Bíblia é crucial nas escolas. Ela faz parte, no Ocidente, de um tripé em que os outros dois caniços são formados pela República de Platão e pelos dois grandes poemas épicos de Homero, a Ilíada e a Odisséia. Os filhos dos mais sofisticados assim aprenderão. Os filhos dos setores populares, no entanto, serão agarrados aqui e ali para uma visão da Bíblia que os infantilizará, e uma visão da ciência que não lhes dará condição de distingui-la da religião.

Aliás, a própria reação a esse artigo mostrará bem essa divisão que, infelizmente, até por razões econômicas, cria um fosso entre grupos maior do que se deveria existir entre nós, aqui no Brasil.”

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Quer saber mais para compreender melhor o artigo? Clique aqui!

Anúncios

Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
Esse post foi publicado em FORMAÇÃO HUMANA. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s