O HOMEM FILHO DO CACHORRO

O homem, filho do cachorro

Compartilho o artigo de  Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ, num momento muito especial em que acabo de perder a companhia de minha samoieda AYUNE, depois de uma convivência intensa a linda. Como em toda perda, ainda estou me reorganizando emocionalmente e racionalmente. Ela ocupava um espaço muito grande no meu dia. Posso afirmar que era apaixonada por mim, pela forma como me olhava, procurava me agradar, sinalizar as coisas para mim. Esperava-me com manifestações de alegria e sentia quando eu não estava bem.
Essa descendente direta dos lobos me ensinou muito sobre convivência carinhosa e dedicação irrestrita.
Lendo o artigo de Paulo, não tenho como discordar dele de que temos muito a aprender com os cães e que, provavelmente, eles não só nos salvaram em nossos estágios primitivos, mas continuam nos salvando. Quando nos deixam é porque já não podem mais ficar conosco. Eles não fazem como muitos de nós que os abandonam e maltratam. Eles sempre nos tratam bem e nos protegem.
Agora que ela morreu, tenho que reorganizar o vazio que deixou. Demora um tempo para se fazer isso. É o tempo de luto. Mesmo sabendo que tudo é transitório, nós sempre sofremos quando alguém ou algo importante sai da nossa vida. Mas se não soubermos lidar com isso, não podemos ter nenhuma alegria. Então, minha decisão é continuar aceitando e convivendo com quem me faz bem e continuar a aprender com os cães também, e muito, a viver de forma tão intensa como se fosse eterna, toda convivência de carinho e experiências boas que me forem apresentadas.
Convido você a ler a reflexão do Paulo e também pensar um pouco sobre o que ele escreve.
João Loch
“01/06/2012
O Pitoko é uma criança, ele é uma criança, mas só com a parte boa
Francielle Maria Chies

“Pelo cão, o deus dos egípcios!” – era assim que Sócrates exclamava. Ele sabia o quanto soava engraçado essa formulação em uma sociedade como a dele, cujo antropocentrismo nós herdamos e conhecemos muito bem. Mas ele também sabia que os egípcios, mais antigos que os gregos, não eram nada tolos e a adoração do cão remetia a tradições inteligentes que vinham de um passado mais que distante. O cão e o homem estão juntos faz tempo, e pesquisas recentes indicam que esse encontro é muito mais velho do que até poucos anos se supunha. Admite-se agora que o homem e o cão passaram a se entender quando ainda estavam na superfície da terra os neandertais, aqueles que diferiam muito pouco dos humanos, mas que foram brindados com a extinção.

Os neandertais chegaram a acasalar com os humanos e tiveram filhos. Os pesquisadores consideravam esses filhos como híbridos, aos menos até pouco tempo atrás. Mas agora, admite-se claramente que esses rebentos não eram híbridos e que a carga genética de ao menos 1/3 da população mundial tem a forte presença dos neandertais. Não somos todos iguais perante Deus, apenas tentamos isso, nas democracias liberais, perante a lei. Essa diferença inclui, também, nossa relação com o cão. Neandertais comiam carne, e só carne, e não aceitaram os cães entre eles. O homem humano diversificou a sua alimentação e, assim, teve mais condições adaptativas que o seu concorrente, e o ensino escolar da evolução, até pouco tempo, dizia que este foi o elemento decisivo para que o homem tivesse escapado do tempo de escassez que fez com que os neandertais desaparecessem. No entanto, as pesquisa mais recentes – e fortemente embasadas em dados empíricos e na pluralidade de grupos de pesquisas – indicam que o que realmente salvou o homem foi sua amizade com o cão (e com o lobo). (Veja Scientist)

Os olhares que trocamos com os cães, atualmente, e que mostram cumplicidade e entendimento (uma humanização do cão ou, talvez, o inverso), e o comportamento do cão, que efetivamente ganhou merecidamente o título de “o melhor amigo do homem”, denota uma relação extremamente antiga. Essa relação salvou o homem e determinou o rumo da evolução quanto à existência da humanidade como ela é hoje. O cão pode muito bem ter chefiado a vida do homem, conseguindo comida, caçando, farejando água, protegendo seus filhos e os filhos dos humanos em uma época dificílima na Terra. Além disso, o cão, quanto mais próximo do lobo, tende a comportamentos monogâmicos e de clã, dando ao homem um feedback positivo quanto ao comportamento que estaria sendo já adotado pelo homem. Os neandertais não tiveram a sorte de serem amigos dos cães. O cão ficou como o “amigo do homem” – seu melhor amigo. Melhor em um sentido muito mais intenso e decisivo que aquele que até pouco tempo louvávamos.

As pesquisas atuais mostram que o homem primitivo não sacrificava os cães nem os comia. Além disso, o punha em condições especiais. Crânios de cães dessa época mostram apetrechos incrustados, postos neles após sua morte, em um claro sinal de devoção. O cão foi um deus muito antes do que imaginávamos, e não sem razão. Diante dessas descobertas, também inscrições e desenhos em cavernas, ganharam outra dimensão. Neles, não raro, os cães são mostrados acompanhando o homem em caçadas e outras atividades. Ou, talvez, o contrário: o homem esteve acompanhando o cão nisso tudo.

Falamos muito em humanização dos cães, hoje em dia. Mas o trabalho todo para nos conhecermos – o “conhece-te a ti mesmo” ainda continua sua saga – talvez devesse ser posto de ponta cabeça. Deveríamos ler em nós o quanto temos dos cães, e não o quanto eles têm de nós. Pois a interação primitiva não deve ter sido unidirecional. Nietzsche chamou o homem de “animal de rebanho”, talvez fosse interessante pensarmos em nós mesmos como “animais de matilha”. Mogly, o menino lobo, e os fundadores de Roma, Rômulo e Remo, deveriam ser símbolos de nossa antropologia e, de certo modo, da filosofia. Talvez não tenhamos sido só salvos pelos cães, ganhando destino diferente dos neandertais. Talvez tenhamos recebido dos cães uma educação muito especial, que nos fez trabalhar coletivamente, e que nos deu a parte bondosa de nossa natureza.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ”

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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