O jovem infantilóide e os prejuízos educacionais

O jovem eternamente infantil ou, melhor dizendo, infantilóide

22/07/2012

Transcrevo mais um texto de Paulo Ghiraldelli Jr., por achar que ele está colocando uma temática para a qual precisamos estar mais atentos e, também, para ajudar na reflexão de quem ainda consegue fazer isto. Boa leitura.

João Loch

“É fácil ver que os jovens hoje ficam mais tempo jovens, até crianças. Não sob aspectos morais muito específicos, mas intelectualmente, tomando isso de modo amplo e geral. Falta-lhes capacidade intelectual para se colocar no lugar do outro e sair de certo egocentrismo. Carecem daquela percepção pós-adolescência que permite a nós todos vermos que o que sabemos não é mais nem talvez melhor do que o que os mais velhos sabem.

No passado recente, a ampliação de números de anos do que se entendia por infância ou adolescência tinha uma causa nos países do Ocidente ou ocidentalizados. Falávamos de certo esforço das classes médias de protegerem seus rebentos, até mesmo mimá-los, dando-lhes condições de se integrarem ao trabalho só tardiamente. O trabalho, então, seria o fator de “maturidade”. Essa tese não se sustenta mais. Há vários países emergentes onde o jovem se integra cedo ao mundo do trabalho e passa a carregar nas costas responsabilidade imensas, talvez maiores do que as da minha geração ou anteriores, mas as atitudes de indecisão e imaturidade intelectual perduram e até se ampliam por todos os lados. Existe algo no comportamento da classe média em nossos tempos que parece encantar todos, e isso se espraia como modelo pela sociedade. A imaturidade e a incapacidade intelectual para se colocar no lugar do outro – uma competência que Piaget achava essencial para dar como completo o desenvolvimento intelectual e moral de uma pessoa – atingem amplas camadas de jovens que se integram ao trabalho antes mesmo dos dezoito anos, data da maioridade no Brasil. Até mesmo as meninas, que antes amadureciam mais cedo, por razões biológicas e por questões do horizonte posto em favor do casamento, agora desfrutam de certa viseira fechada por mais tempo.

O que está ocorrendo? Por que estamos diante de uma ampliação etária da juventude que, ao invés de trazer para o mundo idéias novas, próprias dos imaturos, está pondo no palco quase que exclusivamente a novidade nada nova do que chamaríamos de cabeças-duras, não tão exclusivamente própria dos imaturos?

Ainda que no Brasil isso se acentue, uma vez que nossa juventude das últimas duas décadas foi submetida a um sistema educacional básico finalmente falido, o que estou apontando é um fenômeno mundial. As salas de aula do mundo todo estão repletas de jovens – trabalhadores ou não – cuja rebeldia única que oferecem é não saberem colocar argumentos lógicos decisivos contra o professor, mesmo quando estão em boas universidades e o professor já lhes deu tais instrumentos para serem operados.  O que está havendo?

Psicólogos têm insistido que como somos membros de uma geração educada nos anos sessenta e setenta que, tendo lutado contra mecanismos repressores de toda ordem, acabou em contrapartida sendo demais condescendente enquanto pais e avós. Não conseguimos dizer não aos filhos e netos e geramos isso que estamos vendo: uma massa que desrespeita o professor, mas que não consegue desrespeitar leis injustas dos seus países, ou uma massa que vê na rebeldia tudo aquilo que movimentos da direita ensinam-lhes errado como sendo a rebeldia. Ou então jovens ativistas que caem em partidos de esquerda que repetem jargões já caducos antes do fim do comunismo e da URSS. O poder de reação dos jovens contra os mais velhos continua funcionando, mas de um modo irracional: o estudante é capaz de seguir o pastor corrupto de uma igreja e se rebelar contra o professor que quer lhe ensinar Darwin!Isso sem contar as indecisões de ordem sexual. Há mais gente “no armário” hoje, entre os jovens, do que deveria haver em uma época menos repressora que a imediatamente anterior. O preconceito contra si mesmo parece ter se ampliado. Olhar no espelho deixou de ser uma metáfora. As pessoas olham, mas para arrumar o cabelo! O jogo de xadrez, em que é necessário se colocar no lugar do outro, perdeu de vez a atratividade entre os jovens. O melhor jogo é o de ser observador do reality show, onde o jovem se deleita com o tédio que imita o seu tédio, jurando para si mesmo que vai haver alguma novidade no dia seguinte.

Há boas formas de retratar isso tudo. Uma delas foi a escolhida pelo filme Babel[1] que, talvez por isso mesmo, não foi apreciado no Brasil, embora premiadíssimo no mundo todo. Nosso país, particularmente, tem rejeitado de todas as formas intervir no ensino médio, isso é, pagar melhor os professores e criar uma escola que possa ser efetivamente propedêutica para o ensino superior, sendo este, então, aberto em oportunidades de diversos tipos e com tempos diferentes. Intervir nessa fase da vida dos jovens é o que nossa sociedade está fazendo de menos profissional ultimamente. É a fase em que Piaget apostava que todos começavam a ser filósofos morais, planejando suas vidas futuras a partir da criação de uma cosmovisão própria. Justamente aí, nessa hora, oferecemos o que há de pior no país para nossos jovens. Entra então a aventura da droga para uns e o embotamento mental para outros, causado por três ou quatro anos de não uso do aparelho cerebral.

Depois de três anos sem usar o cérebro, os jovens viram que os exames vestibulares eram impossíveis de serem vencidos, então nos convenceram que, em nome da democracia que construímos para eles – nós, os que lutamos contra a ditadura (1964-1985) – tínhamos de aprofundar o igualitarismo prometido derrubando barreiras de acesso à universidade. Não sei como esses jovens conseguiram nos ludibriar nisso. Mas o certo é que nossa culpa era tão grande em relação a eles, nossos filhos e netos, que embarcamos nessa idéia maligna e idiota de abolirmos os vestibulares. Hoje, qualquer um entra em uma universidade pública federal, não há qualquer sistema seletivo que faça com que o jovem estude. Uma vez lá dentro, sem condições, ele acredita que as provas e aulas são formais, que basta passar o tempo e ele deverá receber o diploma.

Cada sala de aula da universidade se tornou, então, o lugar da ditadura da maioria imbecilizada. O aluno que faz perguntas inteligentes na aula é calado pela massa. Esse fenômeno que já ocorria no ensino médio se transfere rapidamente para o ensino superior. A aula do professor universitário não é mais a aula de uma pessoa mais velha, mais sábia, mais experiente, mas apenas a aula de alguém que está ali para cumprir o papel burocrático de funcionário público: carimbar presença, não desafiar os alunos que, afinal, podem ir para a reitoria a qualquer momento “processar o professor” (com a ajuda de outros professores fracos e calhordas) e, por fim, entregar as notas. Todo aluno de universidade pública precisa de notas, pois com isso, ele “pede bolsa”. A nota não significa nada em um sistema onde a liberdade de cátedra do professor é coisa de um passado longínquo e onde sua carreira vive ameaçada por reformas cujo objetivo final é transformar a rede de universidades federais em “colegiões públicos” de baixo nível.

Um sistema de ensino médio acoplado a uma rede de universidades vivendo desse modo amplia ainda mais a imaturidade da juventude. Hoje, pessoas com trinta anos ou mesmo quarenta, escolarizadas até no nível superior dizem sem ruborizar: “ainda não me encontrei profissionalmente”. Ou pior: “ainda não me encontrei emocionalmente”. Outros ainda, praticamente idiotizados: “sou homem e tenho atração por homens, será que sou gay?” (Pode rir, mas não muito, pois isso é uma verdade em número que a torna não mais piada!). Há também os que desafiam a si mesmos sem desafiar ninguém, afirmando frases do seu pastor (analfabeto) da esquina: “Deus está comigo, nada me atingirá”. De fato, nada atinge uma pessoa assim. Nenhuma matéria, nenhum desafio intelectual, nenhum acontecimento no mundo. Uma juventude militante de Deus parece nos dar saudades dos mais broncos da nossa geração, os militantes de Marx-Lênin.

Há quem acredite que a “indústria cultural” tem alguma culpa nisso. Mas eu duvido, se é que vamos tomar o termo pelo modo como ele é entendido por jornalistas afoitos e professores mal formados.

O que os frankfurtianos chamaram de “indústria cultural” não são as editoras ou as redes de TV ou as produtoras de cinema, simplesmente por venderem produtos culturais. Embora eles, Adorno e Horkheimer, principalmente, não tenham conseguido precisar o conceito[2], e nisso foram culpados pela confusão, quando os lemos no conjunto da obra e não só pelo malfadado texto sobre indústria cultural dentro do O que é o Esclarecimento é possível vê-lo de forma melhorada. Há hoje quem pense que Hollywood é um lixo e, pior ainda, que tudo que se fizer fora de lá, sendo lixo, é bom.  Mas, deixando esses erros crassos de lado, que dominam a cabeça de estudantes de sociologia e filosofia (e até de professores, agora!), pode-se lembrar que a “indústria cultural” tem a ver com a noção de filisteísmo da cultura, que vem de Nietzsche e que se explicita, entre outros, em Hannah Arendt. Trata-se daquela indústria que não democratiza a literatura e as artes, muito menos a populariza, o que faz é transformá-las em algo esquemático para o entretenimento daquele que não pode mais se divertir com nada que é sofisticado, mas que, por imitação, quer se mostrar como conhecedor do que é culto e clássico. A “indústria cultural” faz seu papel maligno não quando produz Mickey, e nisso os próprios criadores do conceito erraram. Ela faz seu papel nocivo quando imagina que pode fazer Mickey apresentar a história da filosofia resumida, com fins não propriamente de divertimento por divertimento, mas de divertimento em favor da didática, já que os estudantes são tidos como eternas crianças, incapazes de se interessar pela história da filosofia se não for por meio de uma história em que Mickey esteja não só presente, mas como aquele que tem uma história própria, maior que a história da filosofia. Dessa forma, Disney nunca fez propriamente parte da “indústria cultural”, mas O mundo de Sofia, idolatrado pelos que acham que sabem o que é “indústria cultural”, infelizmente sim. Ali está o autêntico produto da indústria cultural: a história da filosofia é assumida por princípio como não interessante e, então, alguém tem de embuti-la, resumidamente, em uma outra história – aliás, banal. Pode-se fazer isso em nome da popularização ou democratização da cultura. Mas, isso não é popularização ou democratização. Isso é a produção para o consumo de um tipo específico: o produto adorado pelo filisteu da cultura. Com ela ele galga posições sem saber a história da filosofia, mas lambuzado por ela à medida que se interessou pela lorota na qual ela veio embrulhada.

O filisteu da cultura é nada mais nada menos que a forma adulta desse jovem eternamente infantilizado que temos hoje por aí, seja ele trabalhador ou não. Esse jovem está nas salas de aula das universidades do mundo todo. Mas, no Brasil ele é mais reconhecível, porque seu rosto é o rosto daquele que, em “A Fazenda” (o reality show da TV Record), recebe as provas e não as entende, ou na garota que não consegue sequer dividir o serviço na “casa”, por que cresceu com olhando para o umbigo e, como seu umbigo sempre foi gostoso, cresceu também com todos olhando para ele. Ela já nem coloca mais brincos como quem gostaria de adornar o rosto, embora não perca aquilo que põe na barriga, pois está num mundo onde o último umbigo sem piercing era o de alguma de nossas bisavós.

Diga-se de passagem, o umbigo com piercing é lindo, mas ele não consegue, mesmo que puséssemos nele um chip ligado a um bom computador, substituir o cérebro. É este que está efetivamente se perdendo.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ. Agora, também como cartunista no http://gametas.blogspot.com – “Mas que porra é essa?”

 

[1] Babel é uma produção conjunta de Estados Unidos, México e França, de 2007. Dirigido por Alejandro González Inárritu e tendo no elenco Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal. Foi premiado com o Oscar, mas ficou poucos dias nos cinemas brasileiros.

[2] Ver: Ghiraldelli Jr., P. O que é a dialética do Iluminismo? Barueri-SP: Manole, 2011.”

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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