O SAGRADO

19/10/2012

Conheci duas garotas que não lavavam com as mãos suas partes íntimas. O pastor da igreja que frequentavam ensinou-lhes que o correto era “só jogar água, sem se tocar”. O toque iria “despertar a carne” e, obviamente, induzir o desejo e o pecado. Haveria certa sacralidade do corpo a ser mantida a todo custo! Essas duas garotas santas também tinham outra atividade, além de tomarem banho com todos os cuidados que Deus teria inventado. Qual? Ah, simples: elas descartavam cães na rua. Sim! Eram daquele tipo de pessoa que diz “cachorro é cachorro”, e por tal frase estavam falando exatamente isso: “cachorro é como um palito de fósforo usado, e então podemos descartá-lo sem qualquer problema ou atenção”. Para elas a vida nada teria de sagrado. A vida resume à vida humana e, talvez, à vida alojada em corpos intocáveis e intocados.

Há pessoas que não sabem utilizar o adjetivo “sagrado” naquilo que ele tem de essencial. O sagrado é o que é inviolável. A vida é algo que tem toda a tendência de poder adquirir essa qualidade. A vida é um bem incomensurável. Todo bem fica difícil de ser mensurável se a vida torna-se também mensurável. A incomensurabilidade da vida garante que possamos ter a linguagem e tudo o mais que permite apontar coisa como sendo bens e dispor sobre a mensuração deles. Quando começamos a achar que a nossa vida é sagrada, mas que a vida de outros habitantes da Terra que em nada prejudicam o planeta é alguma coisa profanável e descartável, estamos já sem qualquer noção minimamente racional capaz de nos ajudar em nossa própria vida. A racionalidade não nos faz menos cruéis, mas ela nos ajuda a ver que somos cruéis e, então, nos permite correções. As duas garotas podiam deixar um bichinho na rua e achar que não estavam pecando contra tudo, mas acreditavam como um grande pecado uma higienização das virilhas e adjacências.

Poderia dar inúmeros exemplos dessa incapacidade de eleição correta do sagrado. Mas escolhi este porque ele me é chocante. Não posso me lavar porque algo completamente natural em mim, o desejo, pode ser despertado. No entanto, posso colocar um companheirinho na rua, para a fome, os maus tratos e a morte. Que tipo de educação tiveram aquelas garotas que as transformou em rebentos cruéis de uma barbárie alojada em seus poucos neurônios com sinapses tão capengas? Que tipo de familiares possuem? Que tipo de depósito de cocô é a cabeça do pastor que lhes ensinou tamanha incapacidade de adquirirem uma escala de valores razoável?

Muitas vezes, grupos sociais mais atentos sobre o que considerar sagrado ou não, se movimentam a favor da criação de leis para que certas atitudes éticas se ampliem e deem uma melhor racionalidade para toda a população. A ética não se cria com as leis, é o inverso que ocorre, mas as leis podem ser um bom lembrete da ética. Há povos que, em determinado momento, veem que é necessário que se criem leis que voltem a ensinar aos seus membros o que vale a pena em seu ethos. Ficaria ridículo colocar na lei: você precisa lavar com as mãos e com sabão sua vagina. Mas não ficaria nada ridículo uma lei que dissesse: a vida dos animais (não nocivos) é sagrada, não a descarte. Em parte, a segunda já temos, espero que não cheguemos a ter de fazer um projeto de lei no Congresso para viabilizar a primeira.

A tarefa de tomar como tema de reflexão o que indica a palavra “sagrado” é boa nesse caso, pois penso que, em nossa sociedade, o seu inverso, o “profano”, é o que aponta para o perigoso. O perigo está nesse verbo: profanar. Profanar é violar. E nossa inversão sobre o que é violável e o que não é violável se mostra exatamente na atitude do descarte. Pois o descarte é o que vem logo após a profanação. Entramos numa praia, usamos a praia, tornamo-la imprestável e, então, colocamos lá uma placa: “praia poluída, não entre”. Descartamos a praia. Que Deus cuide dela! Lavar a vagina é passar sabão nela, com as mãos, e esfregá-la. Caso o desejo sexual apareça, nada ocorrerá além da masturbação. Terminado o ato, nada terá ocorrido. Não houve violação importante. A praia, terminado o uso, conforme o uso, terá se tornado imprestável. O cachorro, uma vez jogado na rua, pode tornar-se um sofredor e, em seguida, um corpo sem vida. Essas profanações que levam ao descarte são o perigo. Elas deveriam importar em nossa educação social.

O sagrado deveria ser repensado a partir de um bom preceito cristão: não ser cruel. A crueldade deveria ser vista como o “colocar o outro para sofrer”. A praia pode sofrer e o cachorro pode sofrer. Um sofre em um sentido, o outro noutro sentido. Mas sofrem. Mas uma parte de nosso corpo, por ser lavado e obter limpeza e prazer, limpeza ou prazer, não sofre. Esses pequenos detalhes do que é uma coisa e do que é outra coisa, de modo a não confundir instâncias, é o que deveria ser observado de modo a fazer as pessoas parecidas com aquelas duas meninas se tornarem menos idiotas e, então, menos cruéis.

Preocupo-me com a idiotia dos que perderam a noção correta do que pode ou não ser sagrado.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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