PAPA BENTO XVI APOSENTADO…

Compartilho, hoje, mais uma reflexão do Paulo Ghiraldelli, agora sobre a renúncia de Bento XVI. Considero que ele coloca alguns dados importantes sobre esta renúncia e o próprio valo desse papa.
Do meu ponto de vista, sem saber detalhes da renúncia, considero que Bento XVI teve uma atitude louvável em comunicar a renúncia, pelo fato de sentir-se impossibilitado, em função da saúde, para continuar seu ministério com a energia que esse cargo exige. Como seria bom se todos os líderes tivessem essa percepção e resolvessem renunciar ao poder quando sentissem já estando ficando incapaz para bem exercê-lo.
Apesar de muita gente do mundo católico ter ficado sem entender, é bom que todos louvem a Deus por este papa ter feito isso, agradeçam pelo tempo que ele esteve à frente da igreja, independente de concordar com o modo de ele dirigir a cátedra de São Pedro ou não.
Que o Espírito Santo ilumine os que vão eleger um novo papa e que este tenha todo discernimento necessário para bem continuar a pilotar a nave de São Pedro.
A seguir o texto sobre o qual me referi no início.
João Loch

“Papa Bento XVI: aposentadoria de atleta é na vitória
11/02/2013

Nunca um verbete da Wikipedia foi atualizado tão rapidamente como dessa vez. O Vaticano tem a mídia mais eficiente do mundo, de modo que a biografia de Bento XVI na Wikipedia apareceu já com os motivos oficiais da renúncia no momento exato que esta estava sendo anunciada pelo Papa. Sim, o Papa atual vai deixar o poder. Já faz um ano que sua morte foi prevista exatamente para agora, pois havia vazado para a imprensa, na época, um documento secreto sobre a sua saúde. Mas o que ocorre quando um Papa deixar a Cadeira de São Pedro? A melhor pergunta não é esta, e sim: o que é o poder papal hoje?

Quando o Papa foi coroar Napoleão, este tomou delicadamente a coroa das mãos do religioso e coloco-a na sua própria cabeça. Napoleão não foi coroado, coroou-se. Hegel tinha mesmo de elegê-lo como “a História a cavalo”. Nenhum outro político ou militar, ao sinalizar ao mundo o que seriam “os novos tempos”, acabou por mostrar o que era, enfim, o próprio tempo, em termos filosóficos. O tempo é o campo das possibilidades. Napoleão fez com que uma possibilidade se definisse de vez: a Igreja Católica teria de se submeter aos Estados Nacionais, definitivamente, sem criar problemas.

A elite da Igreja não era menos culta que Hegel e sabia que este falava lá alguma coisa de verdade ao dizer que “a filosofia é a apreensão de uma época em pensamento”. Boa parte da Igreja estudava filosofia de modo assíduo e, após o século XIX e até mais ou menos os anos setenta, mantiveram tal prática em um crescendo. Eles, os padres, tinham de compreender o que estava ocorrendo com a Igreja no mundo contemporâneo. Era necessário encontrar uma nova narrativa sobre o mundo em mudança, de preferência uma narrativa que não excluísse a Igreja, mas que lhe desse, nos novos tempos, uma função ainda digna e necessária. A Igreja Católica entrou o século XX tentando assim agir, oscilando entre dois pólos: realmente criar condições de compreensão de sua nova missão e apenas seguir determinações políticas conjunturais. Nesse trabalho, somente dois Papas puderam agir segundo o que Hegel lhes havia ensinado. João XXIII e João Paulo II. Eles apreenderam “o tempo em pensamento” e souberam narrar, inclusive se fazendo heróis, uma história do mundo na qual a Igreja ainda dava algumas cartas importantes, talvez decisivas.

João XXIII trouxe a Igreja para o campo da preocupação com os problemas sociais classistas para além de uma mera aderência aos princípios da social democracia. João Paulo II colocou a questão do “fim do comunismo” como uma meta quase que transcendental. Ambos foram vitoriosos, ainda que hoje isso já pareça não importar mais para uma leva de fieis que se aglutinam em casas de shows de padres cantores, padres completamente analfabetos em relação à teologia, filosofia e até mesmo história da Igreja.

Ratzinger vem de outras paragens. Nada tem de inculto. Sabe a história toda de cor e salteada. Quando se transformou em Bento XVI, não tinha nas costas o peso de séculos, mas o maior peso de todos para um homem como ele, o peso do século XX. Na sua cabeça fervilhava uma só missão: tornar a Igreja Católica competitiva diante de outras igrejas, principalmente as igrejas evangélicas, em especial as caça-níqueis, formadas “por qualquer um”. Sua aposta: fazer da Igreja uma incentivadora da tradição, das práticas menos reflexivas, das ideias mais conservadoras que, de certo modo, era o que ele via nos adeptos dessas novas igrejas. Ele tinha uma tarefa ingrata: dar abrigo ao fiel e ao padre incultos, justamente as pessoas que ele, pessoalmente, desprezava. Ele colocou essa tarefa como uma missão tão grande quanto a de João XXIII e João Paulo II. Mas, muito mais consciente que os dois anteriores a respeito de suas próprias forças, Bento XVI sabia perfeitamente que teria de agir rápido e sob um clima áspero, interno e externo. O tempo contava contra ele.

Todavia, como todo Papa, Ratzinger entendia que ter conseguido ser Papa não era só uma façanha produzida pela habilidade política, mas seria, sim, a graça de poder executar uma missão realmente divina, um propósito do destino ou de Deus. Ao contrário do que os críticos meio que irreflexivos falam por aí, os Papas não são ateus disfarçados. Eles realmente se acham capazes de levar uma vida santa e, se enfrentam o pecado do passado, acreditam piamente que podem conseguir o perdão de Deus. Ratzinger nunca teve dúvidas disso e, se teve, nem mesmo a mais íntima célula neural dele próprio soube de tal coisa a ponto de poder comunicar algo. Visto de fora, que é o único lugar de onde podemos vê-lo, Ratzinger foi um intelectual católico conservador inquebrantável, de uma tenacidade jamais vista na Igreja. Depois, como Papa, com a saúde completamente destroçada já nos primeiros dias de nomeação, tirou energias dessa sua fé para dar sua última contribuição ao projeto que, na cabeça dele, tinha de se rivalizar com o de João XXIII e João Paulo II.

Os projetos de João XXIII e João Paulo II tiveram momentos mais espetaculares, mais próprios para um tempo como o nosso, que é a Era da Mídia. É claro que ver a Igreja criar uma doutrina social e vê-la por isso em prática ou ver “o fim do comunismo” foram coisas mais televisivas que aquilo que Bento XVI conseguiu fazer. Mas engana-se quem imagina que o que ele fez teve menos importância para a sobrevivência da Igreja. Engana-se quem imagina que hoje, ao falar em renúncia do cargo, Bento XVI se sinta menos vitorioso do que qualquer outro Papa. Posso imaginá-lo agora, ao falar em renúncia, abrindo um vinho italiano da adega histórica do Vaticano e pedindo licença para Deus para oferecer-lhe um gole profano. O homem Ratzinger conseguiu ser Papa, contra tudo e todos. Também duvido que Deus não esteja orgulhoso dele. Pois Deus sabe muito bem que antes ter sua casa terrena meio que capenga que não ter nenhuma. O Bem triunfante não é o Reino de Deus, se executado na Terra. O Bem triunfante é o Reino dos Céus. Aqui na Terra, não importa o Bem, e sim atos aqui e acolá louváveis. Desse modo, Bento XVI jamais será julgado por ter favorecido crueldades ao exercer o papado do modo conservador, ele será julgado, ao menos por Deus, como quem fez a Igreja durar mais tempo do que ela poderia durar sem Ratzinger.

Dia 28 de fevereiro às 20 horas, na hora de Roma, Bento XVI poderá encontrar Ratzinger e lhe dizer: “vá, homem pequeno, vá embora, você não existe mais, agora só há entre Deus e eu Jesus e o Papa Bento XVI”. Eu aposto minhas calças que ele, Ratzinger, irá embora, e essa será a verdade de Bento XVI, para sempre”.

2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Em seguida eu coloco a cópia da comunicação de Bento XVI sobre a sua renúncia.

Bento XVI anuncia a decisão de deixar o cargo. Sede vacante a partir de 28 de fevereiro. Eleição do novo Papa em março

Eis as palavras com que Bento XVI anunciou a sua decisão:

Caríssimos Irmãos,

convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.

 

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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