Doente terminal – a morte na primeira pessoa do singular

A MORTE NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

Sou uma estudante de enfermagem. Estou morrendo. Escrevo isso para vocês que são, e vão ser enfermeiras, na esperança  de que ao compartilhar meus sentimentos, algum dia vocês sejam mais capazes de ajudar aqueles que estiverem vivendo essa experiência.

Agora estou fora do hospital – talvez por um mês, seis meses, um ano – mas ninguém gosta de falar sobre estas coisas. Na verdade, ninguém gosta de falar muito a respeito de nada. A Enfermagem deve estar progredindo, mas eu gostaria que se apressasse. Ensinaram-nos a não demonstrar muita animação, a omitir a rotina do “está tudo ótimo!”, e nos saímos muito bem. Porém agora estamos num solitário vácuo silencioso. Acabado o protetor “muito bem, muito bem”, o pessoal é deixado apenas com sua própria vulnerabilidade e medo. O paciente á morte ainda não visto como uma pessoa, e assim não se pode falar com ele com tal. É um símbolo do que teme todo ser humano e do que todos sabemos – pelo menos academicamente – que também teremos que enfrentar algum dia.O que diziam em Enfermagem Psiquiátrica a respeito de juntar patologia com patologia em detrimento tanto do paciente quanto da enfermeira? Havia muito a respeito de conhecer os próprios sentimentos antes que se pudesse ajudar alguém. Como isso é verdade!

Porém, para mim, o medo é hoje e a morte agora. Vocês entram e saem do meu quarto, dão-me remédios, verificam minha pressão. É porque sou uma estudante de Enfermagem, ou apenas um ser humano, que sinto pavor de vocês? E seus terrores aumentam o meu. Por que estão apavorados? Eu sou a única que está morrendo!

Sei que se sentem inseguras, não sabem o que dizer, não sabem o que fazer. Mas, por favor, acreditem em mim: se vocês se importam, não podem estar erradas. Apenas admitam que se importam. Isto é realmente o que queremos. Podemos pedir pelos porquês e portantos, mas na verdade não esperamos respostas. Não fujam… esperem… tudo o que quero saber é que haverá alguém para segurar-me a mão quando precisar disso. Estou com medo… A morte pode ser rotina para vocês, mas é novidade para mim. Vocês  podem não me ver como única,original, mas eu nunca morri antes… Para mim, uma vez é absolutamente única!

Vocês murmuram a respeito de minha juventude: mas quando alguém está morrendo, continua assim tão jovem? Tenho montes de coisas para conversar com vocês. Na verdade, não lhes tomaria muito tempo, pois, de qualquer maneira, vocês estão aqui mesmo.

Se ao menos pudéssemos ser honestas, conversar nossos temores, tocar-nos… Se realmente se importassem, perderiam muito de seu profissionalismo, se chorassem comigo? Apenas pessoa com pessoa? Então, poderia não ser tão difícil morrer… num hospital… com amigos por perto…

Autora Anônima

Citado por  MIRANDA, Clara Feldman de, in Atendendo o paciente: perguntas e respostas para o profissional de saúde. Belo Horizonte: Crescer, 1996, p. 245-7.

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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