Papa Francisco e outras cositas mais

 

Padre Telmo José Amaral de Figueiredo


“BERGOGLIO ERA O PESADELO DA CÚRIA”

Posted: 15 Jul 2013 06:33 AM PDT

Entrevista com Andreas Englisch *

Ocimara Balmant
Para especialista, papa já reduziu poder da cúpula da Igreja e impôs seu estilo: 
“Acontece uma revolução latina no Vaticano”

“Enquanto os votos da quinta rodada são apurados, a esperança dos cardeais da Cúria afunda a olhos vistos. ‘Bergoglio, Bergoglio, Bergoglio’, ressoa novamente pela Capela Sistina. Tarcisio Bertone simplesmente não pode entender.” Quem revela o clima da votação que elegeu Francisco é o jornalista Andreas Englisch.

Vaticanista há 25 anos, ele escreveu sobre João Paulo II, Bento XVI e, agora, traz Francisco – o papa dos humildes (ed. Universo dos Livros, R$ 39,90). Na obra, bastidores do conclave, como o desespero da Cúria com a eleição do papa argentino, e as mudanças já percebidas nos corredores do Vaticano.

Os cardeais escolheram um “papa forte”. O interesse da Cúria, liderada pelo cardeal Tarcisio Bertone, seria por outro papa apolítico, tal qual Bento XVI?

Andreas Englisch: Exatamente. João Paulo II tomou o poder da Cúria. Bento XVI devolveu. Por seu perfil, Bergoglio era o pesadelo da Cúria durante a eleição. Ele é completamente anticúria.

Francisco abriu mão do palácio para viver em uma suíte da Casa Santa Marta. Mais do que evitar o luxo, o senhor diz que foi uma estratégia para saber tudo o que ocorre no Vaticano. É um sinal de que a Cúria perdeu o poder?

Andreas Englisch: Sim. Tenho certeza de que nunca nenhum outro papa conseguiu reduzir o poder da Cúria tão drasticamente como Francisco. Ele quebrou a estrutura de isolamento. A Cúria sabe que pode controlar qualquer papa, desde que ele esteja isolado do restante da Igreja.

Havia uma expectativa de que Francisco mudasse de imediato a estrutura da Cúria. Ele já não deveria ter feito isso, a começar pela demissão de Bertone? 

Andreas Englisch: Ele precisa demitir Bertone, mas Bergoglio é muito inteligente. Sabe que ninguém espera mudanças drásticas no Vaticano. Por isso, criou uma comissão com oito cardeais. Se decide com o aval e a participação da comissão, terá respaldo para outras decisões difíceis.

Na mídia, durante o conclave, Bergoglio não aparecia na lista de favoritos. Para os cardeais sua vitória também foi surpresa?

Andreas Englisch: Para entender isso, é preciso considerar que Bergoglio foi eleito porque os cardeais estavam completamente aborrecidos com o péssimo trabalho da Cúria, o que inclui o escândalo do banco do Vaticano [o Ior].

O senhor diz que Bento XVI era um admirador de Bergoglio. Será que ele imaginava que teria o argentino como sucessor?

Andreas Englisch: Tenho certeza de que não. Bento XVI não sabia o quão mal avaliados estavam seu governo e sua Cúria. Ele nunca imaginou que a ira dos cardeais estivesse tão grande a ponto de escolherem pela revolução. Bergoglio era o pesadelo da Cúria. Nenhum outro cardeal foi tão maltratado como ele durante seu tempo em Buenos Aires. Uma das críticas era porque enviava os melhores padres para os pobres e não para as paróquias ricas da cidade.

Como você avalia a primeira encíclica de Francisco? Teólogos dizem que o texto foi totalmente escrito por Bento XVI.

Andreas Englisch: Francisco foi instado a publicar a encíclica de Ratzinger. Não teve outra opção, senão permitir que sua primeira encíclica, a primeira declaração do que ele pensa sobre a fé, fosse escrita por Bento XVI. Ele foi gentil e a publicou com o seu nome, mas a fé não é o ponto principal para Francisco. Ele não acredita que se encontra Deus lendo livros sobre a fé. Para ele, se encontra Cristo ajudando os pobres, os doentes e as pessoas desesperadas.

Como você vê as mudanças no banco do Vaticano, como a prisão de um padre e a demissão de um diretor?

Andreas Englisch: Por décadas, bispos e padres, mesmo quando culpados, eram protegidos pelo Vaticano. Exemplo: o cardeal americano Bernard Law, de Boston, ganhou um passaporte do Vaticano para escapar da Justiça dos EUA (ele é acusado de encobrir casos de pedofilia). Mas Francisco disse ao governo italiano que isso acabou. Agora, o Vaticano vai ajudar a encontrar os sacerdotes culpados.

Andreas Englisch

Francisco prega uma “Igreja pobre para os pobres”. O que ele já fez em direção a isso? 

Andreas Englisch: Fez a coisa certa: disse à Igreja que o tempo de não fazer nada, apenas de estudar e rezar, acabou. Para ele, é desnecessário dizer a alguém no que acreditar e como se comportar, se essa pessoa está desesperadamente com fome. Primeiro a ajude, depois fale sobre Deus.

A Cúria repreendeu o papa por lembrar o “suntuoso Vaticano que tudo começou com o pobre Jesus de Nazaré”, como o senhor diz no livro?

Andreas Englisch: A Cúria não tem qualquer influência sobre ele. Isso ficou claro quando se recusou a ir a um concerto de gala no Vaticano. Toda a Cúria foi, mas ele declarou que não gosta de compromissos da sociedade elegante. Acontece agora uma revolução latino-americana no Vaticano, em que as famílias europeias aristocráticas não são melhores do que as outras.

* Andreas Englisch é jornalista alemão, mudou-se para Roma em 1987. É autor dos livros João Paulo II, o segredo de Karol Wojtyla (2002), Habemus papam (2005), O papa dos milagres (2011) e O homem que não queria ser papa (2013).

Fonte: O Estado de S. Paulo – Metrópole – Domingo, 14 de julho de 2013 – Pg. A23 – Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bergoglio-era-o-pesadelo-da-curia-,1053255,0.htm

Com 50 anos de atraso, “papa bondoso” será canonizado

Posted: 15 Jul 2013 06:35 AM PDT

José Maria Mayrink
João XXIII poderia ter virado santo durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, 
que revolucionou a Igreja
Papa João XXIII

A canonização de João XXIII, anunciada pelo Vaticano no dia 5 e que deverá ser celebrada neste ano, chega com 50 anos de atraso. O “papa bondoso”, como era chamado Angelo Giuseppe Roncalli, poderia ter sido canonizado durante o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), se Paulo VI, seu sucessor, tivesse ouvido oapelo dos bispos que pediram que fosse declarado santo, por aclamação, na Basílica de São Pedro.

“Estamos preparando terreno para a canonização do papa João por aclamação, sem processo e sem mais milagres, no encerramento do Vaticano II. Como na Igreja primitiva”, escreveu d. Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, na carta circular n.º 32, redigida nos dias 4 e 5 de novembro de 1965. D. Hélder, que participou dos quatro períodos do Concílio com mais de 2,5 mil bispos do mundo inteiro, registrava, de madrugada, propostas, discussões e votações do plenário.

Paulo VI vetou a proposta de canonização para que uma decisão sumária não ofuscasse a figura de Pio XII, morto em 1958, cuja causa de beatificação se pretendia iniciar. João XXIII foi beatificado em 2000, juntamente com Pio IX, que governou a Igreja de 1846 a 1878, enquanto a causa de Pio XII ficou estagnada, pelas implicações e dificuldades políticas de seu pontificado durante a 2.ª Guerra.

A canonização de João Paulo II, que ocorrerá em brevíssimo tempo para os padrões da Congregação para as Causas dos Santos, apenas dois anos e meio após a cerimônia de beatificação, seguiu as normas do Vaticano, que exige a aprovação de dois milagres. Bento XVI, o papa emérito que trabalhou durante 23 anos ao lado de João Paulo II como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, empenhou-se pessoalmente para apressar a causa.

O papa Francisco fez mais do que isso no caso de João XXIII: dispensou a exigência de um segundo milagre. João XXIII morreu em 3 de junho de 1963, deixando o prosseguimento dos trabalhos nas mãos de Paulo VI.

A reunião do Vaticano II, que poderia ser considerada o grande milagre de João XXIII, foi uma revolução na Igreja. Além da reforma da liturgia, que substituiu o latim pelas línguas nacionais nas celebrações e fez os padres celebrarem a missa voltados para o povo, o Concílio publicou constituições dogmáticas e pastorais, decretos e declarações sobre fé, relação com outras religiões e compromisso do cristão com a justiça social. Foi um sopro de vida nova na Igreja, que ainda hoje continua estudando e assimilando o texto promulgado em 1965.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Metrópole – Domingo, 14 de julho de 2013 – Pg. A23 – Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,com-50-anos-de-atraso-papa-bondoso-sera-canonizado-,1053273,0.htm

REFORMA POLÍTICA, DE NOVO!

Posted: 15 Jul 2013 05:47 AM PDT

LEÔNCIO MARTINS RODRIGUES *
Leôncio Martins Rodrigues – cientista político USP/UNICAMP

Diante das manifestações populares e, especialmente, da queda em popularidade da presidente, o governo federal não encontrou nada melhor do que trazer à ordem do dia uma reforma política que nem mesmo era uma demanda importante dos manifestantes e que ninguém sabe exatamente qual seria. Mas reformas políticas não são inocentes. Como já mostrou Douglas Rae em seu magistral The Political Consequences of Electoral Laws [trad. livre: As Consequências Políticas das Leis Eleitorais], as regras eleitorais prejudicam alguns partidos, geralmente os pequenos, e beneficiam os grandes. Ninguém faz reforma política para beneficiar o adversário.

Neste espaço vamos comentar sumariamente algumas das propostas mais importantes.

Comecemos pelo VOTO DISTRITAL, deixando de lado a importante questão da delimitação das fronteiras dos distritos. Uma das razões que justificariam a adoção do voto distrital é que os eleitores estariam mais próximos de seus representantes. Há aqui a suposição de que haveria maior proximidade dos candidatos com os eleitores e que essa proximidade seria benéfica para o funcionamento do sistema. Mas num país federativo da dimensão populacional e geográfica do nosso as situações podem ser muito diversas e as consequências, inesperadas. Em alguns Estados os distritos seriam forçosamente de grande dimensão geográfica e de pequena concentração eleitoral. Em outros, o contrário. Nas 27 unidades da Federação teríamos um leque variado de combinações que podem fazer os candidatos estar mais próximos ou distantes dos eleitores.

A defesa do voto distrital, porém, parte de um pressuposto que necessitaria ser comprovado: o de que o eleitorado é um poço de virtudes cívicas e éticas e tende a punir os políticos de má conduta. Nossa história política mostra que não é bem assim. Políticos corruptos e demagogos, dos que “roubam, mas fazem”, são frequentemente reeleitos. A América Latina, em especial, assistiu com frequência à utilização do voto popular para enfraquecer ou liquidar as instituições da democracia. Regimes autoritários podem ter apoio eleitoral e chefes partidários podem chegar ao poder pelo voto.

O sistema distrital tem como um de seus efeitos um veneno mortal para os pequenos partidos, que tendem a ser os mais ideológicos. Se fosse implantado (especialmente na modalidade de maioria simples), tenderia a resultar num sistema partidário de dois ou três partidos, como ocorre no Reino Unido e em todos os países de colonização britânica que adotaram o modelo da antiga metrópole. Seria positivo para a governabilidade, mas reduziria o coeficiente de representatividade. Pequenos partidos doutrinários, depois de algumas eleições sob o sistema distrital, tenderiam a se enfraquecer ou a desaparecer dos órgãos legislativos.

Outra bandeira frequentemente agitada, o FINANCIAMENTO PÚBLICO DAS CAMPANHAS, igualmente conduz os resultados na mesma direção do fortalecimento dos grandes partidos. Serão eles que ficarão com a maior parte da verba vinda do bolso dos contribuintes. Acontece que cumpre haver critérios para a distribuição dos recursos públicos. Não seria lógico (e não aconteceria) que partidos com um número reduzido de cadeiras ou com poucos votos recebessem o mesmo auxílio financeiro que outros com desempenho muitas vezes superior. O financiamento público, em lugar de favorecer os pequenos partidos, contribuiria para a manutenção do status quo partidário.

Passemos a outra proposta sempre imaginada: o sistema de LISTA FECHADA. Não vamos discutir aqui as suas modalidades, como a lista partidária bloqueada, em que o eleitor não poderia alterar os nomes nela apresentados, ou a lista flexível, em que o eleitor poderia alterar a ordem ou mesmo excluir nomes. Deixaremos de lado o modo como seria constituída a lista partidária a ser oferecida aos eleitores: em convenção, pela direção partidária, por um comitê ou por outro órgão. Mas a lista, em si mesma, não teria a capacidade de favorecer os grandes partidos ou de fabricar maiorias artificiais nos Legislativos. Seu principal efeito seria aumentar o controle das chefias dos partidos sobre a máquina partidária e, portanto, reduzir a autonomia dos eleitores na escolha dos candidatos.

Por sua vez, a EXTENSÃO DO MANDATO PRESIDENCIAL  PARA CINCO ANOS, outra proposta que ronda o universo político, teria como efeito a eleição solteira para a Presidência num dado ano. (Por que também não para governador e prefeito?) Depois teríamos eleições municipais e, após dois anos, para a os Legislativos estaduais e federal. O País praticamente só cuidaria de eleições. Seria maravilhoso para os marqueteiros.

Contudo nenhuma das propostas cogitadas pela classe política eleva os índices de representatividade e eficiência do sistema político brasileiro nem, especialmente, diminui a corrupção, o nepotismo e o clientelismo.Nenhuma das eventuais mudanças nos aspectos acima garante que teríamos um sistema melhor que o que já temos.

O sistema eleitoral brasileiro – proporcional com lista aberta para eleições legislativas e majoritário para o Senado e os Executivos – é bastante flexível. É o sistema que dá maior autonomia aos eleitores ante os chefes partidários. Possibilita “candidatos corporativos”, “candidatos ideológicos”, “candidatos de grupos étnicos” e de outros segmentos minoritários que não teriam chances num sistema majoritário. Certamente, tem muitos defeitos. Mas está na hora de entendermos que não existem sistemas políticos perfeitos. Poderíamos obter melhor resultados se deixarmos de perder tempo com a miragem de grandes reformas e tentarmos medidas corretivas de mais fácil aplicação, como seriam a efetiva aplicação da Lei da Ficha Limpa, a redução do tempo de campanha e do horário eleitoral gratuito.

* Leôncio Martins Rodrigues é cientista político, professor titular do departamento de ciência política da USP e da Unicamp, seus últimos livros sobre o assunto foram Partidos, Ideologia e Composição Social (2002) e Mudanças na classe política brasileira (2006).

Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Domingo, 14 de julho de 2013 – Pg. A2 – Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,reforma-politica–de-novo!-,1053250,0.htm

IGUALDADE DE SEXOS, A REVOLUÇÃO ESQUECIDA

Posted: 15 Jul 2013 05:51 AM PDT

ANDREI NETTO
Vítimas de estupros, egípcias relatam terem sido alvo de abusos por motivação política

A sexta-feira, 25 de janeiro de 2013, Dia da Congregação no mundo muçulmano, marcaria o segundo aniversário da queda do ditador Hosni Mubarak. Como dezenas de milhares de compatriotas, Hania Moheeb, jornalista de 42 anos, se dirigiu à Praça Tahrir, no centro do Cairo, para o seu segundo protesto do dia. Estava disposta a lutar pela liberdade e pela democracia no Egito, mas também por uma bandeira que lhe é cara: a igualdade de gêneros.

“Senti de imediato que havia uma má vibração no ar, que não havia apenas pessoas que queriam protestar. Decidi ir embora, mas precisava encontrar uma pessoa e, para não perder tempo, atravessei o centro da praça”, relata. Então Hania viveu o mesmo pesadelo pelo qual 19 outras mulheres passaram naquela noite.

Hania Moheeb – jornalista egípcia

“Comecei a ouvir gritos na multidão e fui cercada por um grupo”, ela relata. “Não entendia nada, até que dezenas e dezenas de homens que me apertavam e me impediam de mexer começaram a arrancar minhas roupas.”

O longo martírio, de 35 a 45 minutos em que sofreu violências sexuais em pleno centro do Cairo lotado de manifestantes, se repete. No Egito, todos os testemunhos convergem para o mesmo tipo de violência vivida pelajornalista Lara Logan, correspondente da rede de TV CBS, a primeira a dizer publicamente ter sido atacada em 11 de janeiro de 2011.

Graças ao relato da sul-africana, o mundo começou a descobrir o horror dos ataques e estupros em massa na Praça Tahrir, que voltaram a acontecer nos protestos de 30 de junho e 1º de julho e deixaram pelo menos 91 vítimas, em cálculos da Human Rights Watch.

O que pouco se é diz é que o espetáculo de barbárie da Praça Tahrir é apenas a ponta do iceberg da violência contra a mulher no Egito – onde a revolução sexual ainda não aconteceu. Dados de ONGs locais indicam que 83% das mulheres confirmam já terem sido vítimas de agressões ou de assédio sexual no país.

Ao longo dos últimos 10 dias, o Estado [jornal] ouviu vítimas de estupros na praça Tahrir, feministas, ativistas de direitos humanos, ONGs e sociólogos para tentar entender o fenômeno. Entre os relatos, estão histórias de perseguições nas ruas, insultos em público, discriminação constante, maus tratos e, claro, agressões sexuais.

Não bastasse, o Egito é o recordista mundial de mulheres que sofrem excisão – a mutilação sexual por amputação do clitóris. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2008 indicam que pelo menos 50% das egípcias com idade entre 10 e 18 anos passaram pela “cirurgia”.

Nos arredores de Luxor, a 700 quilômetros ao sul do Cairo, esse porcentual chega a 99%, tornando epidêmicos problemas como hemorragias graves, cistos repetidos, riscos de reabertura da cicatriz durante o parto e dores – em lugar de prazer – no ato sexual.

A discriminação e o menosprezo são tão graves e enraizados que em 2012 Azza al-Garf, do Partido Justiça e Liberdade, o braço político da Irmandade Muçulmana, defendeu com todas as letras o fim da proibição legal à mutilação, sob o argumento de que se trata de uma “cirurgia estética para embelezamento” da mulher. Detalhe: Azza é mulher, é deputada e uma das únicas nove exceções entre 479 homens na câmara.

Além de pregar a mutilação feminina, a parlamentar nega que haja perseguição sexual e defende mais rigor na lei – já draconiana – de divórcios no país.

Madiha El-Safty – socióloga egípcia

De acordo com Madiha El-Safty, socióloga especializada em questões de gênero da Universidade Americana do Cairo, no Egito, essa situação vinha se agravando durante o governo do presidente deposto Mohamed Morsi, representante da Irmandade Muçulmana – movimento islâmico moderado, mas não tanto assim.

“No governo da Irmandade, não houve nenhum tipo de condenação e nem mesmo de recriminação aos homens envolvidos em gangues de estupros, nem estavam assegurados os direitos protegendo mulheres contra mutilações sexuais praticadas em nome de crenças religiosas”, diz a docente, que apoiou o golpe de Estado.

Para intelectuais e militares feministas, um dos problemas do Egito é que a violência e a discriminação sexual não são responsabilidade só de uma religião, mas de toda a sociedade.

Oficialmente, tanto a maior autoridade sunita do mundo, Al-Azhar, quanto a igreja cristã copta, ambas com sede no Cairo, recriminam a excisão e, é claro, práticas como os estupros coletivos. Mas tais crimes continuam se repetindo.

É para lutar contra eles que mulheres como Hania e Yasmine el-Baramawy, compositora e intérprete de 30 anos, vêm falando de forma aberta sobre as violências que sofreram na Praça Tahrir.

Segundo elas – e muitas outras vítimas -, os estupros em praça pública não são só um ato sexual, mas sobretudo político. Seriam perpetrados por gangues remuneradas por grupos conservadores, com a conivência da polícia, para tentar amedrontar e dissuadir mulheres da vida política.

Mozn Hassan – da ONG Nazra

“Não foram manifestantes que arrancaram e cortaram as minhas roupas e me violentaram com mãos e objetos. Foram membros de grupos pagos para nos retaliar, para controlar mulheres e manter a sociedade como ela é”, diz Yasmine. Sete amigas dela foram violentadas na Tahrir, todas têm a mesma convicção. “É organizado, é um ato político. No Egito somos criadas como um objeto qualquer. E os grupos que patrocinam esses atos querem que siga assim.”

A relações públicas Mary Awaballah, de 29 anos, concorda. Chocada com os relatos de violência, ela criou uma rede de voluntários, a Tahrir Bodyguards, que tenta fazer a segurança na praça nos dias de protestos. “Para alguns egípcios, mulheres não devem ter iniciativa política, nem ação social”, diz. “Vai levar anos para mudarmos essa mentalidade, não há dúvida.”

O problema é que até aqui, diz Mozn Hassan, diretora da ONG Nazra (Olhar), essa é a revolução esquecida no Egito. “Um país que não reconhece que crimes sexuais são cometidos todos os dias ainda não está pronto para a revolução feminista.”

AGRESSÕES

91 mulheres
sofreram abusos sexuais, pelo menos, nos protestos que ocorreram no Egito entre 30 de junho e 1º de julho, segundo cálculo da ONG Human Rights Watch

83%
das egípcias relatam que já foram vítimas de abusos sexuais, de acordo com ONGs do país

50%
das mulheres egípcias sofrem mutilação do órgão genital

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional – Domingo, 14 de julho de 2013 – Pg. A16 – Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,igualdade-de-sexos-a-revolucao-esquecida,1053224,0.htm

Anúncios

Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
Esse post foi publicado em FÉ E VIDA e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s