Mártires em nome da fé

 

34 novos Beatos Capuchinhos

Posted: 26 Aug 2013 03:30 AM PDT

Caríssimos irmãos,
[OFMCap.] Sinto-me feliz em poder compartilhar com cada um de vocês uma bela notícia: ao já longo elenco dos Santos e Beatos da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, logo serão inscritos trinta e quatro novos Beatos!
Aos 21 de setembro de 2013, em Bérgamo (Itália), será declarado beato, frei Tomás Acerbis de Olera (1563-1631) e aos 13 de outubro de 2013 em Tarragona (Espanha), numa grande celebração, seja pelo número de beatos – mais de quatrocentos- seja pela extensão – estando envolvidas mais de 30 dioceses espanholas e vinte e cinco congregações religiosas, – serão declarados beatos tembém, trinta e três frades capuchinhos, martirizados in odium fidei nos anos 1936-1937, vítimas da Guerra Civil na Espanha.
A beatificação de Frei Tomás de Olera, há quatrocentos anos do seu nascimento, poderá até surpreender! Mas a sua fama de santidade, sempre constante no tempo, permitiu manter sempre alta a atenção para sua Causa de Beatifi cação. Finalmente, na documentação que se referia a um milagre ocorrido no início do século passado, pela intercessão de Frei Tomás, foi possível constatar a veracidade e preciosidade de tal testemunho. Reconhecida a autenticidade do milagre – mesmo que trezentos e dois anos depois da sua morte, Frei Tomás vem agora elevado à glória dos altares oferecendo a nós uma figura muito bonita e verdadeiramente surpreendente de irmão capuchinho: simples esmoleiro e mestre de espiritualidade seja para pessoas de condição humilde, seja para aquelas abastadas, na sociedade do seu tempo. O reconhecimento da autenticidade do milagre era “a última peça” que faltava para o “mosaico” da Beatificação. Um dom a ser acolhido com gratidão e  uma oportunidade favorável para conhecer melhor este nosso irmão.
A Beatificação de frei André de Palazuelo e dos seus trinta e dois companheiros mártires, trazem à nossa mente os dramáticos e tristes acontecimentos da Guerra Civil Espanhola entre os anos 1936 -1937. Trata-se de uma história recente, memória da ferocidade e do ódio fratricida que, em nome de ideologias totalitárias, colheram tantas vítimas inocentes e continuam a inserir no tempo sombras espessas e ameaçadoras. Como é possível – continuaremos a perguntar-nos – para o homem chegar a tanta crueldade para com o seu semelhante? Como é possível que esta história, em particular o ódio para com os cristãos, perdure até os nossos dias?
Que se realize nisto a palavra de Jesus: “Se o mundo vos odeia, saibais que por primeiro odiou a mim.
Se perseguiram a mim, vos perseguirão também” (Jo 15,18.20).
Os nossos irmãos foram mortos porque eram religiosos e representavam uma realidade, aquela da fé cristã, que se desejava eliminar da face da terra. A memória deles é uma amonição e encorajamento a permanecer seguros na nossa vida de fé chamada a ser testemunhada também lá onde é ameaçada e posta em discussão. Nos sustente a intercessão destes nossos irmãos Beatos, que agora pretendemos conhecer com maior atenção.
Tomás Acerbis de Olera
Do tempo do seu nascimento, ocorrido em Olera, pequeno vilarejo no desembocar do Vale Seriano, no final de 1563 e da sua infância, não conhecemos muito. Filho de camponeses e pastores, até os dezessete anos foi também lavrador e pastor, ajudando os pais no trabalho duro. Analfabeto, porque o pequeno vilarejo era desprovido de escolas, aos 12 de setembro de 1580, desejando fazer-se capuchinho, foi acolhido no Convento de Santa Cruz de Cittadella, em Verona e incardinado na Província Vêneta como irmão leigo. Aqui, pediu e obteve, mesmo como irmão leigo, a permissão para aprender a ler e escrever. Durante o triênio de formação vieram à luz seus notáveis dotes e sobretudo as suas virtudes, vivendo com grande intensidade a escola e o coro.
Aos 15 de julho de 1584, emitiu a profi ssão religiosa e foi encarregado do delicado e essencial serviço de esmoleiro em Verona, serviço que exerceu até 1605 quando foi transferido para Vicenza sempre com a mesma função. Aqui permaneceu até o fim de 1612 passando então a Rovereto de 1613 a 1617. Foi para Pádua em 1618 como porteiro do convento e em 1619, poucos meses depois de sua chegada ao convento de Conegliano, a pedido do arquiduque do Tirol, Leopoldo V de Habsburgo, foi destinado para fazer parte da nova Província do Tirol setentrional. No mesmo ano chegava a Innsbruck, mais uma vez ainda encarregado de pedir esmolas. A Áustria era naquele tempo o baluarte para a reforma católica e sobretudo para a “reconquista católica” nas terras alemãs.
Obediência e humildade, fizeram-no o “irmão esmoleiro” por quase cinquenta anos! O amor pelas almas, o fez “um apóstolo incansável” do anúncio do Evangelho. A todos, crentes ou não, falou do amor de Deus revelado em Jesus Cristo. A todos, pequenos e grandes, instruiu na fé. A todos, potentes e humildes, pediu para empenharem-se no amor. Um verdadeiro apóstolo, tanto que muitos “se espantavam, e parecia humanamente impossível que um simples frade leigo falasse assim de Deus como ele falava”. O seu esforço era fogo de amor. “Em toda parte falava das coisas de Deus com tanto espírito de devoção, que causava em todos espanto e maravilha”. (Ippolito Guarinoni, Detti e fatti, profezie e segreti del frate cappuccino Tommaso da Bergamo, Brescia 2007.)
Ao mesmo tempo, convidava e instigava à pacificação e ao perdão; visitava e confortava os doentes, escutava e encorajava os pobres, perscrutando as consciências, denunciava o mal e facilitava as conversões. A fim de obter de Deus o quanto esperava quem o encontrava, passava a noite em vigilante oração, flagelava o seu corpo, impondo-se jejuns e austeridade, para a salvação dos outros.
Foi também promotor de vocações à vida consagrada. Em Vicenza, patrocinou a ereção do mosteriro das capuchinhas, construído junto à Porta Nova em 1612-13. Em Rovereto solicitou aos provedores da cidade para erigir o mosteiro das clarissas, construído depois em 1642. Aqui conheceu e guiou a adolescente de treze anos, Bernardina Floriani, a futura mística, venerável Giovanna Maria della Croce. (Vita, a cura di Cristina Andreoli, Claudio Leonardi, Diego Leoni, Centro italiano di studi sull’Alto Medioevo, Spoleto, 1995.) No Tirol foi guia espiritual dos pobres do vale do No Tirol foi guia espiritual dos pobres do vale do Inn, catequista, propagador e defensor dos decretos tridentinos para uma verdadeira reforma católica. A partir de 1617 foi amigo e mestre espiritual do cientista Hipólito Guarinoni de Hall (Cf. Ippolito Guarinoni, ibid.), médico de corte em Innsbruck. Numerosas são as cartas escritas às arquiduquesas de Habsburgo Maria Cistina e Eleonora, irmãs de Leopoldo V, assim como foram tantos os encontros pessoais com este. Para ele e a esposa Cláudia de Médici foi guia espiritual, com frequentes encontros no palácio e com numerosas cartas.
A todos ensinava aquela “alta Sabedoria do amor que se aprende nas caras chagas de Cristo”, exortando a refugiar-se “felizes no sofrer”. Foi ainda, conselheiro do arcebispo Paride Londron, príncipe de Salzburgo e guia espiritual do Imperador Ferdinado II, permanecendo próximo deste durante a guerra dos trinta anos (1612-1642). Na sua permanência em Viena (1620-1621), favoreceu a conversão à fé católica da viúva de Jorge Fleicher, conde de Lerchenberg, Eva Maria Rettinger, que se consagrou a Deus entre as monjas beneditinas do mosteiro de Nonnberg-Salzburgo, tornando-se sua abadessa. Ainda em Viena, em 1620, elaborou “Conceitos Morais contra os hereges”, publicados postumamente em Fogo de amor. Aqui revelou a fonte de onde bebia para escrever: “ nunca li ao menos uma sílaba dos livros: mas me afano em ler o passionato Christo”.
Enamorado da Virgem, nos seus escritos a reconhece entre outras coisas como a Imaculada Conceição,
Assunta ao céu. Foi por três vezes peregrino à Santa Casa de Loreto (1623, 1625, 1629), recordando que “chegando àquela Santa Casa, me parecia estar no paraíso’. Ao amigo Hipólito Guarinoni indicou uma localidade perto de Hall, às margens do rio Inn, em Ponte de Volders, para que se construísse uma
igreja dedicada à Imaculada Conceição. Em 1620 foram lançadas as bases e, superadas muitas críticas e dificuldades, foi concluída em 1654. Foi a primeira igreja, em território de língua alemã, dedicada à Imaculada e a São Carlos Borromeu, ainda hoje considerada pela Áustria monumento nacional.
Quantos se encontravam presentes à sua morte, ocorrida aos 03 de maio de 1631, a consideram “uma morte de amor”. Foi sepultado, domingo, 05 de maio na cripta da capela da Virgem, na igreja dos Capuchinhos em Innsbruck.
André de Palazuelo e 32 companheiros mártires, 1936-1937
Frei André é o primeiro dos trinta e três capuchinhos a serem mortos por odium fi dei pelo Fronte Popular nos anos mais cruentos da Guerra Civil Espanhola dias após o falido Alzamiento de 08 de julho de 1936. Juntamente com outros quatrocentos sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas, estes nossos confrades das Províncias da Espanha e da Catalunha serão beatifi cados no próximo 13 de outubro em Tarragona (Espanha).
O longo elenco dos mártires capuchinhos aberto por Fr. André de Palazuelo, morto aos 31 de julho de 1936, formou-se ao longo de ao menos seis investigações diocesanas. Eis o elenco com a indicação, além da diocese na qual ocorreu a investigação, do dia no qual foram mortos:
Madri:
Fr. André de Palazuelo † 31 Julho 1936
Fr. Fernando de Santiago † 12 Agosto 1936
Fr. José Maria de Manila † 17 Agosto 1936
Fr. Ramiro de Sobradillo † 27 Novembro 1936
Fr. Aurélio de Ocejo † 17 Agosto 1936
Fr. Saturnino de Bilbao † 26 Agosto 1936
Fr. Alejandro de Sobradillo † 16 Agosto 1936
Fr. Gregório de la Mata † 27 Agosto 1936
Fr. Carlos de Alcubilla † 15 Janeiro 1937
Fr. Gabriel de Aróstegui † 23 Agosto 1936
Fr. Primitivo de Villamizar † 20 Maio 1937
Fr. Norberto Cembronos de Villalquite † 23 Setembro1936
Oviedo:
Fr. Bernardo de Visantoña † 14 Agosto 1936
Fr. Arcángel de Valdavida † 14 Agosto 1936
Fr. Ildefonso de Armellada † 14 Agosto 1936
Fr. Domitilo de Ayoó † 14 Agosto 1936
Fr. Aleixo de Terradillos † 14 Agosto 1936
Fr. Eusébio de Saludes † 14 Agosto 1936
Fr. Eustáquio de Villalquite † 14 Agosto 1936
Malaga:
Fr. Ángel de Cañete La Real † 6 Agosto 1936
Fr. Luis de Valencina † 3 Agosto 1936
Fr. Gil Del Puerto de Santa María † 6 Agosto 1936
Fr. Ignacio de Galdácano † 6 Agosto 1936
Fr. José de Chauchina † 6 Agosto 1936
Fr. Crispín de Cuevas Alta † 6 Agosto 1936
Fr. Pacífico de Ronda † 7 Agosto 1936
Oriuhel:
Fr. Eloy de Orihuela † 7 Novembro 1936
Fr. J. Crisóstomo de Gata de Gorgos † 25 Dezembro 1936
Fr. Honório de Orihuela † 2 Dezembro 1936
Santander:
Fr. Ambrosio de Santibáñez † 27 Dezembro 1936
Fr. Miguel de Grajal † 29/30 Dezembro 1936
Fr. Diego de Guadilla † 29/30 Dezembro 1936
A este elenco se deve acrescentar o nome de Fr. Carmelo De Colomés (diocese de Gerona, Província capuchinha da Catalunha), martirizado em 25 de agosto de 1936. O irmão vem elencado no Inquérito diocesano de Terragona que compreende ao menos cento e quarenta e sete mártires, guiado por Dom Emmanuele Borrás Ferré, Bispo Auxiliar de Terragona e pelo irmão Agapito Modesti, religioso dos Irmãos das Escolas Cristãs.
É impossível haver uma, mesmo que breve informação, sobre a vida de todos, suas atividades e idades. Podemos porém, afirmar com absoluta certeza que todos, desde o mais velho ao mais jovem, permaneceram firmes na fé e enfrentaram com paciência e humildade o martírio. Não resignados, mas tornados intrépidos e audazes pela graça que dá aos pequenos e aos simples a força do martírio. Lendo
as milhares de páginas do Inquérito diocesano encontra-se em cada testemunho a beleza e o frescor da fé dos nossos irmãos mártires. Igualmente se vislumbra, inclusive nas narrativas de alguns de seus perseguidores, a força com a qual enfrentaram a morte em nome de Cristo. Ao contrário, é evidente o plano preordenado para destruir a Igreja, abatendo as igrejas e assassinando os sacerdotes, religiosos,  religiosas ou quem fosse indicado como católico. Um projeto que cada um dos mártires sabia destinado à falência, na confiante certeza que a sua oferta não seria em vão e os sofrimentos do momento presente não eram sem um porquê, mas inseridos no grande Mistério de Deus que salva.
Conclusão
Mais uma vez a nossa Ordem vive um momento de graça ao doar à Igreja irmãos que viveram a sequela de Cristo com autenticidade. Tornados credíveis pelo seu viver e morrer. Vemos como Cristo os associou ao seu mistério de vida e de morte, de serviço e de dom de si até a não reter mais nada para si. Vemos realizadas aqui as palavras do nosso Seráfico Pai São Francisco: “Nada, pois, reservai para vós, a fim de que vos acolha todos Aquele que a vós se dá todo.” (Carta ao Capítulo Geral e a todos os frades).
Cada tempo e cada momento histórico há as suas dificuldades e suas fadigas. Fr. Tomás de Olera viveu num período complexo, cheio de contradições, de confrontos violentos, tempo porém, também cheio de fascínio porque faz transparecer e põe em relevo a paixão do homem e o seu desejo de afirmar-se ao contrário de deixar que Deus se afirme e se mostre, visível e tangível. A ele, a Ordem havia confiado o esmolar, a “busca” pela subsistência dos frades e dos pobres do convento, a graça o transformou no solicitado conselheiro de nobres e de servos, no douto mestre espiritual que sabia pronunciar aquela palavra que orientava para Cristo, escondendo-se, como sabem fazer bem os verdadeiros místicos e os verdadeiros contemplativos do Mistério.
Igualmente, os frades mortos na Espanha nos anos 1936-1937, não fi zeram outro que acolher a Graça, testemunhando que a História da Salvação se cumpre também quando as circunstâncias parecem ser menos favoráveis. Capazes de dar razão da vocação, do chamado a escutar Cristo, a segui-lo e a servi-lo.
Pode ser que, ao festejar estes novos beatos, sintamos um certo senso de estranhamento: os sentimos distantes, pertencentes a outro tempo, inacessíveis no seu testemunho heroico. E mesmo, para além de todo sentimento de estranheza, considero que seja importante sublinhar a pertença à mesma família religiosa e deixar viver em nós mesmos também, um salutar sentimento de orgulho. Orgulhosos, por fazer parte desta Ordem que foi o alvéolo no qual o Espírito do Senhor suscitou tantos caminhos de heroica santidade. Estes novos beatos nos precederam com o seu testemunho de fidelidade até à efusão do sangue. Deste modo nos convidam a viver a nossa vida de capuchinhos hoje com renovado ímpeto e sinceridade. Somos seus herdeiros e o seremos verdadeiramente na medida em que reconhecemos que vimos deles e se, fortes neste liame entre as gerações, nos projetamos confiantes para o porvir.
A Virgem Maria, Mãe e modelo de fé, interceda por nós e nos sustente na nossa tarefa e serviço à Igreja e ao mundo, para que o deserto espiritual, que parece expandir-se cada dia mais, encontre em nós corajosos agricultores que sabem guardar a semente para semear quando também a nós é pedido o testemunhar a fé em Cristo. T
Roma, 15 Agosto 2013
Festa da Assunção da Virgem Maria
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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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