COM OS OLHOS ABERTOS: atentos aos sinais dos tempos

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
“Madonna” – África
Foto: Sebastião Salgado
COM OS OLHOS ABERTOS

As primeiras comunidades cristãs viveram anos muito difíceis. Perdidos no vasto Império Romano, em meio a conflitos e perseguições, aqueles cristãos buscavam força e alento aguardando a vinda próxima de Jesus e recordando suas palavras: vigiai. Vivei acordados. Tende os olhos abertos. Estai alertas.

No entanto, os apelos de Jesus para viver acordado, tem algum significado para nós? Que significa, hoje, para nós cristãos, pôr nossa esperança em Deus, vivendo com os olhos abertos? Permitiremos que se esgote, definitivamente, em nosso mundo secular, a esperança numa justiça última de Deus para essa imensa maioria de vítimas inocentes que sofrem sem culpa alguma?

A maneira mais fácil, precisamente, de falsear a esperança cristã é esperar de Deus nossa salvação eterna, enquanto viramos as costas ao sofrimento que há, agora mesmo, no mundo. Um dia, teremos de reconhecer a nossa cegueira diante de Cristo Juiz: Quando te vimos faminto ou com sede, estrangeiro ou nu, enfermo ou no cárcere, e não te assistimos? Este será nosso diálogo final com ele, se vivemos de olhos fechados [cf. Mateus 25,31-46].

Temos de acordar e abrir bem os olhos. Viver vigilantes para ver além de nossos pequenos interesses e preocupações. A esperança do cristão não é uma atitude cega, pois não esquece jamais os que sofrem. A espiritualidade cristã não consiste, somente, num olhar para o interior, pois seu coração está atento àqueles que vivem abandonados à própria sorte.

Nas comunidades cristãs, devemos cuidar, cada vez mais, para que o nosso modo de viver a esperança não nos leve à indiferença ou ao esquecimento em relação aos pobres. Não podemos isolar-nos na religião para não ouvir o clamor dos que morrem, diariamente, de fome. Não nos é permitido alimentar nossa ilusão de inocência para defender nossa tranquilidade.

Uma esperança em Deus, que se esquece dos que vivem nesta terra sem poder esperar nada, não pode ser considerada como uma versão religiosa de certo otimismo a todo custo, vivido sem lucidez e responsabilidade? Uma busca da própria salvação eterna de costas aos que sofrem, não pode ser acusada de ser um sutil “egoísmo ampliado para o além”?

Provavelmente, a pouca sensibilidade ao imenso sofrimento que existe no mundo é um dos sintomas mais graves do envelhecimento do cristianismo atual. Quando o Papa Francisco reclama “uma Igreja mais pobre e dos pobres”, nos está gritando sua mensagem mais importante aos cristãos dos países do bem-estar.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola 
“Pés” – África
Foto: Sebastião Salgado
SINAIS DOS TEMPOS

Os evangelhos recolheram, de diversas formas, o apelo insistente de Jesus para vivermos acordados e vigilantes, muito atentos aos sinais dos tempos. No início, os primeiros cristãos deram muita importância a esta “vigilância” para estar preparados diante da vinda iminente do Senhor. Mais tarde, tomou-se consciência de que viver com lucidez, atentos aos sinais de cada época, é imprescindível para nos mantermos fiéis a Jesus ao longo da história.

Assim se pronuncia o Concílio Vaticano II sobre esta preocupação: “É dever permanente da Igreja perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de forma que, para cada geração, possa responder às perenes interrogações da humanidade sobre o sentido da vida presente e futura…”.

Entre os sinais destes tempos, o Concílio assinala um fato doloroso: “Cresce, dia a dia, o fenômeno de massas que, praticamente, se desinteressam pela religião”. Como estamos lendo este grave sinal? Somos conscientes do que está acontecendo? É suficiente atribuir esse fenômeno ao materialismo, à secularização ou à rejeição social a Deus? Não deveríamos escutar, no interior da Igreja, um apelo à conversão?

A maioria foi caminhando em silêncio, sem fazer qualquer ruído. Sempre estiveram mudos na Igreja. Ninguém lhes perguntou nada de importante. Nunca pensaram que poderiam ter algo a dizer. Agora, vão embora calmamente. O que há no fundo de seu silêncio? Que os escuta? Sentiram-se, alguma vez, acolhidos, escutados e acompanhados em nossas comunidades?

Muitos dos que foram embora eram cristãos simples, acostumados a cumprir seus deveres religiosos por costume. A religião que receberam desmoronou-se. Não encontraram nela a força que precisavam para enfrentar os novos tempos. Que alimento receberam de nós? Onde poderão, agora, escutar o Evangelho? Onde poderão encontrar-se com Cristo?

Outros vão embora decepcionados. Cansados de escutar palavras que não tocam o seu coração nem respondem às suas interrogações. Angustiados por descobrir o “escândalo permanente” da Igreja. Alguns ainda tateiam. Quem lhes tornará credível a Boa Nova de Jesus?

Bento XVI, durante o seu pontificado, insistiu que o maior perigo para a Igreja não vem de fora, mas está dentro dela mesma, em seu pecado e em sua infidelidade. É momento de reagir. A conversão da Igreja é possível, porém começa pela nossa conversão, aquela de cada um.

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – 28 de novembro de 2010

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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