O RUGIDO DO DESPERTAR

Falando sobre o processo de autoconhecimento e crescimento pessoal, June Singer, em seu livro “A mulher moderna em busca da alma”, fala o seguinte:
“Mover-se na direção do Si-mesmo é uma busca de auto-entendimento: é a revelação, a nós, de quem somos realmente. Isso não é uma coisa que acontece de uma vez para sempre; é um processo gradual, pontuado por súbitas e espantosas constatações que nos impelem a aprofundar a ideia que vamos construindo a cerca de nossa verdadeira identidade….Então, um dia, quando eu não estava realmente buscando, e lia um texto sobre um assunto totalmente à parte – a mitologia do leste da Índia -, encontrei o que estava procurando. No livro de Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, achei uma história que mexeu fundo comigo. Chamava-se o rugido do despertar”.
Em seguida a autora narra a lenda:
Uma tigresa, grávida e perto de dar à luz, andava sorrateira pela borda de um alto penhasco, caçando comida. Espiou lá embaixo, na ravina, e localizou um rebanho de cabras pastando ao sol.Embora com muita fome, hesitou, pois a queda seria vertiginosa. Então ela deu um grande salto e na queda perdeu o equilíbrio. O barulho fez com que as cabras saíssem em fuga desabalada para o meio da mata, onde se esconderam. O pescoço da tigresa quebrou quando ela bateu no chão, mas em seus últimos instantes, antes de morrer, ela conseguiu dar à luz. Depois tudo caiu em absoluto silêncio.
Pouco a pouco, as cabras curiosas saíram da floresta e se acercaram da fera morta. Encontraram a pequena criatura, levaram-na com elas e criaram-na como se fosse uma delas. O pequeno tigre aprendeu a comer grama e a adaptar sua voz aos delicados balidos das cabras. A dieta vegetariana fez com que ele ficasse muito magro e marcou seu temperamento com uma notável meiguice. Certa noite, quando o jovem tigre estava acordado em meio ao rebanho, enquanto todas as cabras dormiam, um estrondoso rugido de repente fez com que todo o rebanho saísse em disparada, e só ele ficou na ravina, sem o menor vestígio de medo. Um tigre feroz veio até ele, andando devagar, e o jovem tigre olhou totalmente surpreso para aquela aparição à sua frente.
“O que você está fazendo junto dessas cabras?”, indagou o poderoso agressor numa voz que o jovem tigre conseguiu entender. Como resposta, ele só baliu. O tigre da floresta apanhou o jovem pela pele da nuca e o carregou até um lago ali perto, forçando-o a olhar para sua imagem espelhada na água, que brilhava à luz do luar. “Olhe essas duas caras. Você consegue ver que a sua é exatamente igual à minha? Nós dois temos essas listas finas. Então por que você imagina que é uma cabra, balindo com essa voz esquisita, e mascando grama?”
O pequeno tigre olhou e, em resposta, tremeu de cima embaixo Antes que pudesse responder, o tigre mais velho levou-o até seu covil e ofereceu-lhe um pedaço de carne sangrenta, que tinha sobrado de uma caça feita naquela mesma noite. “Pegue! Coma!” Quando o jovem recusou, o mais velho forçou sua boca a se abrir e colocou la dento um pedaço da carne. Para a surpresa do jovem animal, tinha um gosto estranhamente bom. Espantado, quis pegar mais, e cada bocado lhe dava mais satisfação, conforme essa comida nova ia preenchendo-o com uma força e uma sensação de prazer mais e mais intensas. Esticou as patas, abanou a cauda, escancarou a boca num bocejo formidável, e dava a impressão de estar acordando de um sono muito, muito longo. Então atirou a cabeça para trás e soltou um tremendo rugido. O tigre mais velho ficara a observá-lo com muita atenção conforme a transformação ia acontecendo. “Agora você sabe quem é?”, ele perguntou, e, para completar a iniciação de seu jovem discípulo no conhecimento de sua verdadeira natureza, disse-lhe: “Agora iremos juntos para a floresta.”
Um mito pode despertar sentimentos diferentes em cada pessoa ou na mesma pessoa, conforme o momento que toma contato com ele, por ativar alguns sentimentos. Para June teve um significado muito importante, conforme ela narra:
– Esse mito fala de um outro tempo, de um outro lugar, mas para mim abriu as portas da percepção. Lembrei, com ele, do que tinha esquecido há muito tempo, ou seja, que eu era e ainda poderia ser uma criança imaginativa, cheia de assombro e capaz de viver em dois mundos, no ensolarado mundo do dia-a-dia e na floresta da noite. É dessa maneira que a mitologia pode nos transportar ao local em que se encontram o pré-pessoal e o transpessoal. No confronto entre o mundo arcaico e o mundo potencial, a pessoa pode eventualmente descobrir sua própria identidade e significação.
E a autora continua fazendo seus comentários que não são possíveis transcrever aqui. Mas fica a sugestão para que você leia o livro. Acho que compensa.
João Loch.

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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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