A MULHER BRABA

A MULHER BRABA
 
Em seu livro “Mulheres que correm com os lobos” cap.8, p. 269-271, Clarissa Pinkola Estés, usa o conto “os sapatinhos vermelhos”, para tratar de uma situação emocional que atinge muitas mulheres, chamando a atenção para o perigo ou os perigos que correm as mulheres que foram privadas por determinado tempo de sua “alma selvagem natural”, ou poderíamos dizer, em outras palavras, da espontaneidade, da possibilidade de serem elas mesmas e viverem com alegria e liberdade de espírito, com todas as qualidades e possibilidades com as quais vieram ao mundo. Quando percebem esta domesticação e se libertam desse controle doentio que as tira a vida e tendo perdido o instinto natural de proteção e percepção dos perigos que as rondam, correm o risco de caírem em armadilhas que as podem machucar muito. Na sede profunda de recuperar o tempo perdido e na ânsia de algo que as preencha podem confundir alguns venenos como se fossem a salvação. Por este motivo, tornam-se presas fáceis, justamente por não conseguirem identificar as armadilhas dos caminhos, as arapucas, as iscas envenenadas.
É muito comum e frequente encontrarmos estas mulheres feridas que, ao sair de uma situação que as impediu de viver, lançaram-se, pela pressa em compensar o tempo perdido e querendo usufruir de tudo que se sentem no direito, ficarem desnorteadas ao levarem algumas “pauladas” de onde nunca imaginaram. E aí, machucadas e sem saber o que fazer, quando já achavam ter encontrado o paraíso, tem que se começar uma caminhada lenta de reconstrução de si mesmas com esperança e coragem, aceitando que precisam ser mais seletivas com os “alimentos” que podem aceitar.
Vamos ler um pequeno trecho do livro da autora que citei acima. É bem ilustrativo e pode ser que lhe ajude um pouco.
 
“A mulher braba
 
Segundo o Oxford English Dictionary, a palavra feral, em inglês, deriva do latim fer … que significa “animal selvagem”. No emprego mais comum da palavra, um animal “brabo” é aquele que um dia foi selvagem, foi depois domesticado e voltou ao estado natural ou indomado.
 
A mulher braba é aquela que um dia viveu num estado psiquico natural – ou seja, em perfeito estado mental selvagem – e que depois se tornou cativa de alguma reviravolta dos acontecimentos, passando, assim, a ser excessivamente domesticada e amortecida nos seus instintos próprios. Quando essa mulher tem a oportunidade de voltar à sua natureza selvagem original, quase sempre ela é vítima de todos os tipos de armadilhas e venenos. Como seus ciclos e seus sistemas de proteção foram manipulados, ela corre riscos naquele que costuma ser seu estado selvagem natural. Já não mais alerta e desconfiada, ela se torna presa fácil.
 
Existe um padrão específico para a perda dos instintos. É essencial que estudemos esse modelo, que na realidade o decoremos, para que possamos proteger os tesouros das nossas naturezas básicas bem como os das nossas filhas. Nos bosques psíquicos, há. muitas armadilhas enferrujadas que ficam escondidas por baixo das folhas verdes do chão da floresta. Em termos psicológicos, o mesmo vale para o mundo objetivo. Existem vários chamarizes aos quais somos suscetíveis: relacionamentos, pessoas e empreitadas tentadoras. Dentro da isca sedutora há, porém, algo afiado, algo que acabará com nosso espírito no momento em que dermos a primeira mordida.
 
As mulheres brabas de todas as idades, e especialmente as jovens, têm uma enorme vontade de compensar períodos de fome e de isolamento. Elas se arriscam quando fazem esforços excessivos e irracionais para se aproximar de pessoas e objetivos que não são benéficos, concretos ou duradouros. Não importa onde ou em que época elas vivam, há sempre arapucas à sua espera. Há sempre vidas menores para onde as mulheres se vêem forçadas ou atraídas.
 
Se você alguma vez foi capturada, se você alguma vez sofreu de hambre del alma, uma fome da alma, se você alguma vez se sentiu num alçapão e especialmente se você tem uma compulsão a criar, é bem provável que você tenha sido ou seja uma mulher braba. A mulher braba tem em geral uma fome extrema por algo profundo e, muitas vezes, pode ingerir qualquer veneno disfarçado na ponta de uma flecha, na crença de que ele é aquilo pelo qual sua alma anseia.
 
Embora algumas mulheres brabas se desviem das armadilhas no último instante com mínimas perdas de pêlo, um número muito maior cai nessas armadilhas sem perceber, ficando temporariamente desorientadas, enquanto outras são alquebradas pelas armadilhas e ainda outras consigam se libertar e se arrastar dali até uma caverna para cuidar dos seus ferimentos sozinhas.
Para evitar esses ardis e engodos propiciados pelo tempo que a mulher passa no cativeiro e na fome, precisamos ter a capacidade de prevê-los e de nos desviarmos deles. Temos de voltar a desenvolver o insight e a prudência. Temos de aprender a nos desviar. Para poder distinguir as opções corretas, temos de poder ver as erradas.
 
Existe uma história ilustrativa contada por velhas a respeito das aflições da mulher esfaimada e braba. Ela é conhecida pelos títulos diversos de “As sapatilhas do Diabo”, “Os sapatos ardentes do Diabo” e “Os sapatinhos vermelhos”. Hans Christian Andersen escreveu um conto de fadas baseado nessa antiga história, dando-lhe este último título. Como um verdadeiro contador de histórias, ele envolveu o enredo básico com uma boa parte da sua própria inteligência e sensibilidade étnica, mas o esqueleto da história é o mesmo.
Segue-se uma versão gerrnânico-magiar que minha tia Tereza costumava nos contar quando éramos crianças. Na sua versão da história, ela sempre começava dizendo: “Olhem para os seus sapatos e agradeçam por eles serem sem graça … porque é preciso que se viva com muito cuidado quando os sapatos são vermelhos demais.”
 
Em seguida a autora conta a estória dos “Sapatinhos Vermelhos” e continua fazendo seus comentários sempre muito bons.
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Sobre joaoloch

Psicólogo. Acupunturista. Quiropraxista, Terapeuta em Florais de Bach e Reiki, Mestre em Educação. Prof. Universitário. Clínica particular de Psicologia e Acupuntura End.: Rua Carlos Gomes, 697 - Vila Williams - Garça SP Fone (14) 34061605
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