Nos jardins de Epicuro

NOS JARDINS DE EPICURO

João Loch
Apresentarei, inspirado em Epicuro, uma pequena reflexão sobre a arte de bem viver, procurando a alegria e o prazer, de tal forma que a vida tenha sentido e possa ser vivida com entusiasmo. Uma “paradinha” para pensarmos nos nossos prazeres e o que investimos para usufruir dos mesmos. Algumas propostas de Epicuro podem nos levar a uma aproximação de ensinamentos de Jesus que nos orientam a buscar o tesouro que não pode ser destruído e, assim, não nos perdermos no que a traça e a ferrugem podem destruir.
Epicuro, filósofo grego do período helenístico. Fundou uma escola filosófica que passou a ser chamada de epicurismo, por conta de seu fundador. Entre Grécia e Roma, o epicurismo foi difundido por séculos. Só o estoicismo teve uma duração maior. Durante o período helenístico as escolas filosóficas propunham verdadeiras doutrinas que visavam apresentar modos de vida que encurtassem o caminho entre o ser humano e a felicidade. Essa busca da felicidade que acompanha o homem de todos os tempos.
Na teoria de Epicuro, o ser humano deve buscar o prazer. Mas sua teoria não era tão simples como o hedonismo cirenaico, atribuída a Aristipo de Cirene, que viveu antes dele. O hedonismo epicurista era complexo e fazia uma divisão de tipos de prazer: havia os prazeres naturais e os prazeres não naturais. Para Epicuro, o ser humano deveria buscar os prazeres naturais, pois eles seriam os únicos que o levariam verdadeiramente à felicidade.
Os prazeres não naturais estão ligados àquilo que sai do controle da pessoa ou surgem, muitas vezes, por convenção social. Eles também são efêmeros, o que pode aumentar o potencial de adicção. A adicção torna o homem escravo, perdendo a sua liberdade de agir e alegria de viver.
Exemplos de prazeres não naturais: o sexo, o uso de entorpecentes e a busca por convenções que supostamente trazem prazer, como o poder, a riqueza e a fama. Tudo que dá prazer deve ser administrado com cautela, para não viciar. Pois o vício é uma escravização. Se escraviza tira a liberdade e alegria de poder decidir. Segundo a teoria de Epicuro, a riqueza, a fama e o poder dependem de uma série de fatores que estão fora do indivíduo, ou seja, o próprio indivíduo não as controla. Isso pode causar frustração, quando sair dos rumos desejados.
Para Epicuro era importante procurar viver da melhor forma. Para ele, a vida só tinha sentido se vivida com prazer, com alegria. Era prazeroso saber apreciar as coisas boas e belas, como o bom vinho, a bela literatura, música, as belezas da natureza, ter bons amigos e conversar sobre as coisas interessantes da vida. Esta é a proposta do hedonismo, que quer dizer justamente viver prazerosamente.
Epicuro teve um grande número de seguidores. Ficou famoso o belo jardim de sua casa, pelas estátuas que o ornamentavam e pelas noitadas intelectuais que ali aconteciam sempre no maior requinte. Séculos depois de sua morte seus discípulos ainda continuavam esta tradição.
Ao entrar em contato com esta filosofia, muita gente fica indignada, achando que este homem era um libertino, ou um inconsequente, pois a busca do prazer não pode ser assim tão proclamada. Será que não? Quando procuramos viver bem, estarmos felizes, sermos reconhecidos, termos sucessos, encontrarmos a mulher ou o homem que nos traga felicidade; quando procuramos viver de tal forma para termos a garantia de uma felicidade eterna, não é o viver com prazer que estamos proclamando, ou buscando?
E tem mais, Epicuro não era fã de um prazer buscado irracionalmente, desregradamente, sem avaliar as consequências. Para ele, se um prazer momentâneo tivesse como resultado um desprazer maior que o prazer tido no momento, a sabedoria estava em saber renunciar a este prazer. Pois a renúncia a este prazer era, justamente, ter o maior prazer. Aquele prazer que depois faz a pessoa sentir-se mal, amarga, triste, na concepção de Epicuro, não é bom. E o sábio saberá renunciar a este prazer. Acho que esta sabedoria continua servindo bem para os nossos dias. Viver com prazer e alegria, não é aceitar qualquer prazer e a qualquer custo. Um jardim de alegria, certamente, é um jardim de ponderação, de equilíbrio, de bom senso…
Cada um pode refletir sobre o que Epicuro teria para nos oferecer em nosso tempo, para vivermos melhor, iluminados pela fé cristã, que não fazia parte do mundo dele.
Para mim a sua filosofia seria um desafio para nos conectarmos mais com a natureza, suas belezas e possibilidades de vida que só podemos continuar tendo se cuidarmos para preservá-la, tirando dela o nosso sustento, mas sem tirar dela a capacidade de regeneração, para que nela possamos continuar usufruindo de tudo que este paraíso pode nos oferecer. Nos convidaria a nos sentirmos unidos a todos os outros seres que também são criaturas de Deus e que colaboram na harmonia que permite vida. Vida para todos. Sem essa sensibilidade, pensando só no prazer imediato, sem avaliar as consequências, podemos nem poder chorar as consequências, daqui a algum tempo, porque é bem capaz de estarmos nos varrendo da memória da terra, para que outros seres, menos destrutivos possam nela voltar a dar condições deste paraíso se regenerar e ser belo, mas sem a nossa existência como espécie pensante, orante, amante….mas que permitiu que a parte destrutiva fosse a dominante, extinguindo a si mesma, como um câncer que destrói o seu hospedeiro sem medir as consequências, principalmente o próprio fim.
Considerações finais
Nesse breve texto, sem condições de um aprofundamento maior sobre Epicuro e o hedonismo, minha intenção foi trazer algumas considerações que ajudem a refletir sobre a busca, muitas vezes, desenfreada pelo prazer. À luz dos Evangelhos é possível discriminar, nos ensinamentos de Jesus, a arte de bem viver, indo além dos prazeres momentâneos, depurando e dando um sentido transcendente à vida. A motivação para renunciar a um prazer imediato, para ter a vida eterna, conforme afirma Jesus em várias passagens evangélicas, supera de longe os motivos elencados por Epicuro, já que transcende esse tempo cosmológico e nos joga na perspectiva do tempo cósmico, o tempo de Deus. E este tempo, na completude de Deus, se apresenta como muito mais prazeroso que qualquer prazer que aqui podemos ser chamados a renunciar. O que é muito compensador para quem crê na ressurreição e também na conquista do paraíso eterno como mérito pelas escolhas de vida nessa transitoriedade.

Bibliografia
GAARDER, Jostein. O MUNDO DE SOFIA: romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
GOUNELLE, Laurent. O JARDIM DE EPICURO. Rio de Janeiro: Rocco, 2011
GUTHRIE, W.K.C. HISTÓRIA DA FILOSOFIA GREGA. Lisboa: 2012
INWOOD, Brad. A ÉTICA DE EPICURO. São Paulo: Loyola, 2011
O’KEEFE, Tim. EPICURO: a filosofia da felicidade. Martins Fontes: São Paulo, 2012
PORFíRIO, Francisco. “Hedonismo”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/hedonismo.htm. Acesso em 27 de outubro de 2024.

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Aprender com o silêncio

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Jean-Yves Leloup

Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos… Aprenda com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido…

Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido…

Aprenda com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores…

Aprenda com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo. Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa.

Aprenda com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e sabe que precisa corrigir, e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.

Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares…

Aprenda com o silêncio a respeitar o seu “eu”, a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida.

Aprenda hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar… Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença. Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos.

Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem-se confundido com prepotência e violência. Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol que nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar. Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude. As estrelas e galáxias descrevem as suas órbitas com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído. O oxigênio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões, circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença. A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, atuam com a suavidade de uma aparente ausência. Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física. Quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência.

A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência. Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos homens nem percebe a Sua ação. Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza. Até mesmo a morte chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.

O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência. “Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra”. “Boa Terra em teus pés, Água o bastante em tua semente, bom Vento para o teu sopro, Fogo em teu coração e muito Amor em teu ser.” “O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer.” E em respeito a você, eu me calo, me silencio, para que você possa ouvir o seu interior que quer lhe falar, desejar-lhe uma vida vitoriosa. Desejo uma semana de Paz e Silêncio para você.

*Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade. Membro da organização das Tradições Unidas, doutor honoris causa em ciências da Universidade de Colombo (Sri Lanka), Jean-Yves Leloup ensina na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul em diferentes universidades e institutos de pesquisa em antropologia fundamental. É autor de mais de cinquenta obras, além de ter comentado e traduzido os evangelhos de Tomé, Maria de Magdala, Felipe e João. Ele participa igualmente de vários encontros entre as diversas tradições.

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Experiência de completude

Quando ficamos inteiros no que estamos fazendo, vivemos a experiência de eternidade e por inteiro somos tocados. Nesses momentos o tempo não é mais cronológico. É a sensação do tempo cósmico que não mais é afetado pelos segundos ou minutos pois todo o passado e todo o futuro se condensam no presente e no presente sentimos com o corpo, com o coração, com a inteligência, e nisto fazemos a experiência do ilimitado onde não há representação, não há fazer de conta, não há a preocupação de se estar agradando. Apenas vive-se e as emoções brotam e transbordam.

Sempre que alguém se apresenta assim para nós, pela sua postura, também nos leva ao seu mundo completo, se permitirmos, e ficamos completos juntos.

Não é sempre que conseguimos viver assim, mas as vezes que atingimos este estado é sempre maravilhoso.

Muitas vezes são as lembranças que jogam nesse enlevo e, essas lembranças que nos tomam por inteiro, fazem-nos viver novamente a graça que já foi passado e que na recuperação total passa a ser novamente presente. Então, na recuperação de lembranças boas e na antecipação de acontecimentos bons, nós também podemos colaborar com nosso estado de felicidade. Bem o contrário é ficar na recuperação constante de lembranças ruins ou na antecipação desesperada, ou na obsessão de só esperar coisas que fazem mal.

Que essa experiência de eternidade que se mostra completa no que eu estiver fazendo ou sentindo, possa cada vez ser mais frequente. Não tem problema nenhum se nesses momentos algumas lágrimas escorrerem. Elas serão sempre de felicidade.

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Síndrome de Asperger

Conheça as características da doença.

Comemora-se o Dia Internacional da Síndrome de Asperger desde o ano de 2007. A data de 18 de fevereiro é aniversário de Hans Asperger, pediatra austríaco que deu nome à Síndrome.
A data visa destacar a importância da integração das pessoas com a Síndrome de Asperger na sociedade, sensibilizar a população para esta doença, sua relação ao espectro do autismo e o seu impacto nos indivíduos que com ela vivem.
A Síndrome de Asperger é uma condição psicológica do espectro autista caracterizada por dificuldades significativas na interação social e na comunicação não-verbal, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. Distingue-se do autismo clássico pois não implica atraso global cognitivo ou em termos de linguagem.
As causas da Síndrome de Asperger ainda não são totalmente compreendidas. Existe alguma informação que leva a pensar que seja provocada por um conjunto de fatores neurobiológicos que afetam o desenvolvimento cerebral.
A Síndrome de Asperger é frequentemente considerada uma forma altamente funcional de autismo. Diferentemente do autismo clássico, quem tem Asperger não apresenta comprometimento intelectual e atraso cognitivo. Por isso, os primeiros sintomas e sinais do distúrbio costumam ser ignorados pelos pais.
Os primeiros sintomas e sinais podem aparecer nos primeiros anos de vida da criança, mas raramente são valorizados pelos pais como algo negativo, especialmente se as manifestações forem leves. A grande maioria dos diagnósticos é feita na fase escolar, quando a dificuldade de socialização, considerada a característica mais significativa do distúrbio, manifesta-se com maior intensidade, juntamente com o desinteresse por tudo que não se relacione com o hiperfoco de atenção.

Características das pessoas com Síndrome de Asperger (SA):
– Interesses específicos e restritos ou preocupações com um tema em detrimento de outras atividades.
– Rituais ou comportamentos repetitivos.
– Peculiaridades na fala e na linguagem.
– Comportamento social e emocionalmente impróprio e problemas de interação social.
– Problemas com comunicação (não há comprometimento da linguagem, estritamente falando).
– Transtornos motores, movimentos desajeitados e descoordenados.
– Apresentar um Q.I. verbal significativamente mais elevado que o não-verbal.
– Dificuldades em relacionamentos – sente dificuldade em fazer amigos, conseguir parceiros, desinteresse sexual e afetivo por outrem.
– Às vezes as pessoas com SA podem ser consideradas rudes, frias nos seus comportamentos, mas na verdade é só seu modo de tentar reagir ou entender ações.
– Apresentar dificuldade em compreender as mensagens transmitidas por meio da linguagem corporal, não consegue “ler” as intenções do outro.
– Comportamentos variáveis, ora como uma pessoa adulta, ora como uma criança.
– Fazer tudo da maneira que acha mais confortável, sem se importar com a opinião alheia. Isto é válido principalmente em relação à forma de se vestir e aos cuidados com a própria aparência.
– Amor e rancor recíproco – como reagem mais pragmaticamente do que emocionalmente, suas expressões de afeto e rancor podem ser curtas e fracas.
– Pessoas com SA sentem-se compelidas a corrigir erros, ou aquilo que pensam estar errado, mesmo que não conheçam bem o assunto que corrigem. Por isso, podem parecer ofensivas.
– Pessoas com SA, tipicamente, tem um modo de falar “pedante”, usando um registro formal muitas vezes impróprio para o contexto.
– A interpretação literal é outro traço comum, tendo dificuldade em identificar ironias, gírias, sarcasmo e metáforas.

Não existe um tratamento específico ou cura. O objetivo é aliviar os sintomas. O tratamento ideal inclui terapias que abordem os três sintomas básicos: baixa capacidade de comunicação, rotinas obsessivas ou repetitivas e imperícia física.

Fonte: Biblioteca Virtual da Saúde do Ministério da Saúde

Divulgado pela Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Garça – SP

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Cotinha – minha amiga galinha

Ontem, dia 03 de Setembro de 2023, 18:30h, já anoitecendo, fui trancar o portão. Vejo algo branco do outro lado da rua. Achei que fosse um saco plástico. Observei melhor e vi que estava se locomovendo. Atravessou a rua. Quase foi atropelada por um carro. Era uma galinha. Se fosse um tatu, um sagui, um anu, sapo, lagarto…..nada de novo. Moro vizinho de um bosque e esses bichos vivem por ali e gostam de dar umas escapadinhas. Mas uma galinha? Não é comum galinha andar pela rua. Percebi que ela estava meio sem saber para onde ir. Galinha tem bastante dificuldade de enxerga no escuro.

E daí? Tento pegar a galinha ou deixo que ela se vire por aí.

Sempre me dei bem com galinhas. Cresci no sítio, onde convivíamos com galinhas, patos, gansos, marrecos, porcos, bois, cabritos.

Era comum, quando criança, que os moleques tivessem estilingue (funda) e atiravam pedras para todos os lados. Eu também tinha um brinquedo daqueles. Era muito ruim de pontaria. Podia atirar as pedrinhas tranquilo, porque sabia que não acertaria em nada. Estava um franguinho carijó, bonito, lá no meio do pasto. Acho que a uns 30 metros de mim. Resolvi atirar uma pedrinha nele. Afinal não iria acertar mesmo. Acertei. Que azar. Quebrou a perna do bichinho que começou a se debater. Pesaroso corri até ele. Pedi desculpas. Peguei-o no colo e fui cuidar do ferimento. Havia quebrado. Coloquei alguma coisa para ajudar a aliviar, enfaixei a perna dele e ele sobreviveu. Ficou meio manco, mas um belo galo. Nunca mais atirei pedra com estilingue em coisa alguma. Melhor não arriscar. Principalmente por causa de dores que pode causar em outro ser.

E esta galinha ali na rua? Sai, fui até ela. Já estava na esquina, olhando para todos os lados. Deixou que me aproximasse. Não é uma galinha orgulhosa, esnobe, precisando de ajuda e fazendo de conta que está tudo bem.

Perguntei se estava perdida. Ela respondeu que sim. Não sabia de onde vinha nem para onde iria. Ainda mais que já estava noite e aquelas coisas barulhentas com luz acesa passando para lá e para cá, Como uma galinha vai poder se orientar numa confusão dessa!

Perguntei se queria entrar, passar a noite…E ela prontamente aceitou o convite e já falou: Mas não tenho como pagar. Nem pix, nem cartão, nem cheque. Talvez um ovo, amanhã cedo…

Tudo bem. Sem problema. Peguei-a no colo. Uma galinha bem dada. Levei-a para a pequena horta que tenho. Ela se acomodou lá, deitou e dormiu a noite toda.

Agora cedo já estava cantando bem baixinho. Pensei: acho que vai por o ovo. Mas até agora nada.

Coloquei água, quirera e ela está lá ciscando. Falou-me bom dia e disse que pode ficar por ali. Gostou do lugar.

Não sei como os cachorros vão se comportar quando perceberem que lá no cercadinho está uma galinha toda faceira…..

Demos até um nome para ela. Cotinha. De pequena cota…..

Olha ela aí.

Os cachorros não demoraram a perceber que algo novo estava acontecendo por ali. Viram meu comportamento e talvez também a conversa da galinha, apesar de estar falando baixo.

E aí estão eles, observando o comportamento da Cotinha. Doidinhos para fazer uma carícia nela, apostar corrida….. Mas já falei que ela é meio tímida. Pode ficar sem graça com os olhares deles, porque são indiscretos. Talvez ela já tenha tido algum trauma com cachorros extrovertidos.

Não gostaram muito mas estão se resignando. Não se cansam de voltar aí, para o ponto de observação. A Cotinha, meio previdente, já falou: “não vem que não tem. Eu sou uma galinha reservada. Tenho certas reservas com cachorros”.

No terceiro dia aqui, Cotinha me falou que está gostando muito do local, dos meus cuidados…. Mas está se sentindo meio solitária. Não ter quem converse a mesma língua é um pouco triste…..

Perguntei se não gostaria de bater um papo com os cachorros….

Respondeu que já tentou, ali pelo vão do portão. Mas eles falam muito alto e têm uma boca grande cheia de dentes. Acham que por serem maiores, mais fortes, têm direito de fazer o que quiserem com ela. Para ela eles sendo mais fortes deveriam demonstrar que estão dispostos a protegê-la. Mas não tem notado isto no comportamento deles. Parece que estão com umas intenções meio esquisitas… Expliquei que essa ideia dela é muito boa e é o que deveria mesmo acontecer. Mas é uma ideia que não entra na cabeça de alguns bichos.

Vou ver se encontro uma companhia para ela, ou um lugar onde possa conviver com semelhantes, falando a bela linguagem galinácea e tendo a mesma compreensão da vida.

Ela me respondeu que se não achar, não tem problema. Ela se adapta. O que ela quer é viver bem os dias que lhe são oferecidos. Viver com alegria, mesmo sentindo falta de algumas coisas…. Disse-me que o essencial ela tem: um local para morar, uma bela vista para o céu, sombra, comida e água fresca. E, principalmente, a vida, que ela gosta muito, além de sentir que alguém gosta dela e a protege.

Até me emocionei.

Cotinha se despediu de mim….

Depois de quatro dias de convivência e aprendizado com a Cotinha, concluímos, eu e ela, que era hora de ela ir embora. Percebi que mesmo fazendo esforço para demonstrar alegria, se aproximar de mim sempre que ia visitá-la, seus belos olhos deixavam transparecer uma tristeza sutil. Talvez a solidão. Alguns bichos, principalmente os acostumados a viverem em grupos, sofrem muito com a solidão.

A vida é assim. As coisas e os seres têm um tempo na nossa convivência. Alguns mais, outros menos. Alguns em pouco tempo nos marcam mais que outros durante muito tempo. E quando amamos algum ser e queremos o seu bem, se ele demonstra que quer ou precisa ir. É bom deixar e até facilitar que se vá. É para o seu bem. E se o amamos, não tem sentido aprisioná-lo. Seria um egoísmo muito grande.

Falei para ela que, se ela achasse melhor, eu a levaria para uma chácara onde vivem mais galinhas e também patos, faisões, cabritos…. Um local preparado para animais, porque a dona é veterinária. E também para pessoas, porque tem um espaço para festas de aniversários, de casamentos, de amigos… Tem até uma capelinha em homenagem a São Francisco, o protetor dos animais.

Ela me respondeu que iria sentir minha falta e da atenção exclusiva e carinhosa que eu lhe dava. Tanto que gostava de ficar no meu colo. O que surpreendia a ela mesma, porque nunca havia ficado no colo de alguém. Era grata por ter sido resgatada da rua, da terra de ninguém. Mas também ficaria contente se eu desse a ela a oportunidade de viver entre suas semelhantes. Sendo um lugar assim, como lhe falei, certamente estaria bem, apesar da saudade.

Uma coisa que me surpreendeu na Cotinha foi perceber que ela tem um grande senso de observação do comportamento das galinhas. Tanto que me falou que terá algumas dificuldades no início, pois as galinhas formam grupos e são resistentes à aceitação de um novo membro. São grupos meio fechados. Terá que ter um pouco de paciência, aceitar as regras da casa e…depois que conquistar a confiança, aí sim, poderá questionar algumas coisas e propor novas regras.

Pela experiência de vida da Cotinha, poderá até se tornar uma espécie de guru para as outras. Tem muito a ensinar. As aventuras, os sustos, a persistência em achar um bom lugar. Olhar para frente e não desanimar diante das dificuldades. Quando tudo parecia que ia dar errado houve uma guinada. Ela me falou que se não tivesse se mantido forte, não teria tido a chance de viver as alegrias que agora lhe foram oferecidas…. No seu passado há muitas coisas. Vai se concentrar mais nas coisas boas e também olhar com alegria para o futuro que está sempre se tornando passado.

E, depois disso, ela deixou escorrer uma lágrima daqueles olhinhos espertos. Agradeceu-me e disse: vamos. Se demorar muito é capaz de eu pedir para não sair daqui. Eu preciso dar esse passo.

Falou-me que no coração enorme dela eu sempre ocuparei um local colorido e bom. Também lhe falei a mesma coisa, dei-lhe um abraço, acariciei sua cabecinha que ela encostou no meu ombro e fomos para o seu novo lar.

Felicidades Cotinha. Obrigado pelos seus ensinamentos e carisma.

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Gestos

Gestos vão onde as palavras não chegam:

Um inclinar de cabeça,

Um aceno de mão,

Uma mudança sutil no olhar

com um sorriso emblemático

ou uma lágrima a escapar….

Ah estes gestos que parecem ser independentes

do que queremos expressar!

Clareiam tudo o que não sabemos ou não conseguimos declarar.

Eles abrem as janelas, mesmo que racionalmente nós a queiramos fechar.

Extraordinário quando no gesto a expressão é AMAR!

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Consciência da Graça

“Somente aceita o fato de que és aceito”

Ter consciência da graça

“…a graça tampouco significa simplesmente que tenhamos alcançado progresso no controle de nossa vida moral, em nossa luta contra determinadas faltas, e em nossas relações com os demais homens e a sociedade. (…) A graça nos absorve quando nos achamos tomados por uma grande dor e inquietação; quando andamos pelo obscuro vale de uma vida vazia e sem sentido, quando sentimos que nossa separação é mais profunda que de costume, porque violamos outra vida, uma vida que amávamos ou uma vida da qual fomos rejeitados, quando nosso fastio por nosso próprio ser, nossa indiferença, nossa fraqueza, nossa hostilidade, nossa falta de direção e de serenidade passaram a ser intoleráveis para nós; quando ano após ano, a desejada perfeição de nossa vida não se realiza; quando as antigas compulsões reinam hoje em nós como o fizeram durante muitas décadas; quando o desespero destrói toda alegria e toda integridade. Às vezes, nesse momento, uma onda de luz rompe em nossa obscuridade e é como se uma voz nos dissesse: “És aceito”. És aceito por quem é maior que tu e cujo nome ignoras. Não perguntes seu nome, agora; talvez o descobriras mais tarde. Não tentes fazer nada, agora; talvez mais tarde farás muito. Não busques nada, não realizes nada, não inicies nada. Somente aceita o fato de que és aceito” (Paulo Tillich, citado por Andrés Torres Queiruga, Paulinas, 2010, p. 387).

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“A VERDADE TEM UMA GRANDE VIRTUDE, MAS TAMBÉM UM GRANDE DEFEITO…”

Mesmo o mais intelectualizado Marx é indissociável das mãos borradas de tinta e da aspereza do papel-jornal. Ele passou mais de duas décadas escrevendo para jornais, os editando e publicando. Por Pedro Marin | Revista Opera

Por

 Pedro Marin

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fevereiro 9, 2023

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O texto a seguir foi publicado como prefácio do livro “Imprensa e Revolução: Escritos jornalísticos de Marx e Engels” (Ruptura Editorial, 2022). O livro está disponível para compra com desconto no site da Ruptura Editorial.


“Do outro lado da rede está a realidade, deste
lado da rede também está
a realidade; a única irreal
é a rede; a liberdade é real embora não se saiba bem se pertence ao mundo dos vivos, ao mundo dos mortos, ao mundo das
fantasias ou ao mundo da vigília, ao da exploração ou ao da produção.
Os sonhos, sonhos são; as recordações, aquele
corpo, essa taça de vinho, o amor e
as fraquezas do amor, é claro, formam
parte da realidade; um disparo na
noite, na frente desses irmãos, destes filhos, aqueles gritos irreais de dor real dos torturados no
ângelus eterno e sinistro em uma brigada de polícia qualquer
são parte da memória, não implicam necessariamente o presente, mas pertencem à realidade.
[…] Embora pareça às vezes uma mentira, a única
mentira não é sequer a traição, é
simplesmente uma rede que não pertence à realidade.”
(Trecho de “A verdade é a única realidade”, de Francisco Paco Urondo, escrito na Prisão de Villa Devoto, em abril de 1973.)

Averdade tem uma grande virtude, mas também um grande defeito. Sua virtude, tamanha a grandeza, é autoevidente: quem está com a verdade não está errado. Talvez a frase, por sua redundância explícita, possa passar despercebida ao leitor e à leitora, não merecer sua atenção. Mas que outra coisa nesta vida nos é garantia da certeza, senão a verdade? Que outra luz pode dar-nos a confiança num determinado caminho, mesmo quando todos o vêem torto? Que outra substância no universo oferece um efeito tão poderoso quanto ver as coisas tal como são? Para compreendermos seu valor, bastaria imaginarmos, por um minuto que seja, como seria o mundo ao nosso redor se a verdade sempre se apresentasse cristalina: quantos líderes não teriam passado de pequenos burocratas, quantas guerras teriam sido impossíveis, quantas circunstâncias “normais” não ruíriam violentamente num estalar de dedos.

Chegamos, então, ao seu defeito, que é de tal profundidade que, no mais das vezes, subjuga a primeira virtude: a verdade costuma se esconder. Mesmo sem a ação dos mentirosos, dos sofistas e dos farsantes, as coisas não se apresentariam tal como são, talvez porque só possamos apreendê-las a partir do que somos, de nossos interesses e concepções. A verdade dos objetos em si é matéria das ciências naturais. Aquelas verdades sociais – que envolvem sempre o objeto mirado e aquele ou aqueles que o miram – só podem ser encontradas em algum ponto entre o observador e o objeto, nunca em um só dos pontos. Bastará estudarmos um pouco da história da genética, e colocá-la ao lado da história do eugenismo, para compreendermos quão difícil pode ser achar a verdade, e quão perigoso pode ser tomar a mais assertiva descoberta científica como uma guia social.

Poderosa, por um lado; por outro tímida. Esta dupla natureza da verdade fascinou e assombrou os filósofos e os homens por séculos, até que a própria concepção de verdade entrasse em decadência. Aos jornalistas, ela é, ou deveria ser, tanto a argamassa básica do seu ofício quanto sua obra mais refinada. Os jornalistas tornaram-se figuras respeitáveis ao longo da história não só por divulgarem aquilo que apuravam e que o povo não poderia apurar, por sua dedicação exclusiva e sua capacidade técnica na busca dos fatos, mas também por ser sua a função de se jogar num oceano de fatos até encontrar, lá no fundo, as verdades recônditas. A figura do jornalista está associada à do pregador, aquele que divulga, mas também à do revelador, do profeta, aquele que tira toda a poeira da visão para revelar o clarão.

Infelizmente, como dizia, a noção de verdade está em crise. Na história do jornalismo, esta crise começa no final do século 19. Não é que antes disso não houvesse a mentira. É que a partir dali se buscou restringir o trabalho jornalístico a uma fração da verdade, o que talvez possamos chamar de sua célula básica, que é o fato. O jornalista deixava de ser um intelectual mediador, alguém que cotidiana e mais ou menos conscientemente buscava interpretar e extrair a verdade dos fatos, com interesses e posições próprias e reconhecidas, com boa formação cultural e não raro advindo das classes populares, e se tornava uma máquina de narrar fatos desconexos, excluindo qualquer possibilidade interpretativa de seu conjunto em busca de uma imaginada “neutralidade”, obsessivamente treinado para escrever, como se diz nas faculdades de jornalismo, de forma que “o texto pareça não ter sido escrito por ninguém” e os fatos “apresentem-se por si mesmos”.

Além de época definida, esta mudança se deu num local específico, apesar de se tornar hegemônica em todo o mundo, e se dirigiu também a uma classe, apesar de atingir a todas: se fortificou entre os Estados Unidos e a Inglaterra, num momento em que, com o avanço das ligações de telégrafos, os jornais buscavam atender à demanda por notícias rápidas e objetivas. Evidentemente, se o jornalista não se preocupava mais em conferir um caráter interpretativo ou analítico às informações, trocando profundidade por velocidade, é porque seu leitor preferencial o demandava. Este leitor era um homem que precisava saber de fatos do outro lado do mundo o mais rapidamente possível, que estava disposto a pagar por eles e por tal rapidez, e que tinha capacidade de interpretá-los convenientemente. Era o banqueiro, o latifundiário, o empresário; o burguês. Que o jornalismo tenha passado por mudanças tão profundas para atender a um público tão restrito não implicou somente mudanças na profissão, no financiamento dos jornais, na técnica dos profissionais; implicou também uma mudança profunda nas relações entre o jornalismo, a sociedade e a política. O jornal deixou de ser estandarte de batalha de frações políticas distintas competindo por hegemonia por meio da comunicação, como havia se consagrado na França, e se tornava um produto; um pacote de notícias, ou melhor, de fatos úteis ao “mundo econômico”. Deixou de ser “manifestação individual, coisa que não dava lucro”, para se tornar “grande empresa, propriedade de venturosos donos, destinado a lhes dar o domínio sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para seus desejos inferiores, para os seus atrozes lucros burgueses”, como escreveu Lima Barreto[1]. Nesta concepção anglo-americana do jornalismo se reconhecia que a verdade era coisa inencontrável, que todo esforço por achá-la envolveria tomar posição, e que portanto o jornalista deveria deixar tal busca de lado, em nome da imparcialidade. A função “reveladora” do jornalista era completamente abandonada.

Após a Segunda Guerra, emergiram no campo das teorias da comunicação tentativas de recompor um espaço público comunicativo. Muitas vezes, essa tendência partia do pressuposto funcionalista de que a incomunicação era a geradora de horrores como os que os europeus acabavam de assistir em seu continente. A comunicação seria uma função social fundamental à democracia liberal, seu mal-funcionamento um dos fatores a promover a guerra e o autoritarismo. Esta concepção rejeitava o jornal como ferramenta de combate ou lucro, em prol de um jornalismo “cidadão”, voltado a constituir (ou reconstituir) uma esfera pública, lugar onde a sociedade civil, em meio à circulação democrática e profissional das informações, estabeleceria uma grande ágora democrática frente a seus próprios governos. Faltava definir de que democracia se falava, que “sociedade civil” a comunicação buscava atender, quem controlava os jornais, que modelo de propriedade e que técnicas de redação prevaleceriam nesse tipo de comunicação. Poderia a esfera pública ser reconstituída ao mesmo tempo que os jornalistas – agora profissionais especializados, formados em faculdades – escreviam como se não existissem de fato, para dar notícias “neutras” e “imparciais”, apesar de seus jornais serem controlados por homens de muitos interesses? Poderia essa esfera a ser reconstituída ser verdadeiramente “pública” ou democrática sem que se tocasse nos fundamentos da propriedade privada na comunicação, incluindo aquelas alterações que esta propriedade havia imposto ao próprio jornalismo? Teria a livre circulação de informações a capacidade de preencher as lacunas e abonar os conflitos sociais e políticos de fato existentes? Evidentemente, não, e este sonho desfez-se rapidamente.

Dos destroços dessa concepção emergiu, então, um novo tipo de rejeição à ideia de verdade, que sobrevaloriza os aspectos subjetivos dos emissores das informações e subestima o objeto da comunicação: a própria verdade. Seguindo a mesma rota daquela primeira concepção anglo-americana, esse ideário também promulgaria que a verdade é coisa inencontrável, porque dependente do observador. Falar em verdade seria incorrer numa tara positivista ou até autoritária. Mais apropriado seria falar em narrativas, formuladas de acordo com a subjetividade de cada emissor. Este seria o ângulo que tornaria possível constituir uma verdadeira esfera pública; uma que incluísse todas as vozes, que corrigisse não só as desigualdades na comunicação, mas também que, por meio da comunicação, corrigisse as desigualdades econômicas e de poder. A internet foi o cume luminoso dos que sonhavam com tais concepções; agora qualquer um – até os marginalizados da comunicação – poderia se comunicar livremente. Sem tocar na propriedade, e desconsiderando o outro polo da comunicação – o receptor – tal concepção hoje se encontra em pleno declínio. Se descobriu que a internet não era coisa tão livre quanto se pensava; que mesmo que fosse, todos os hábitos e formas moldadas durante a longa história da comunicação prevaleceriam nela, e os promulgadores de tal posição logo se espantaram ao perceber que seus inimigos mais contundentes também eram capazes de formular ou criar “narrativas”, e que muitas vezes seus receptores estavam muito mais abertos a essas “narrativas”, as dos inimigos, do que às deles. Se prometia a voz livre dos excluídos e a democratização da comunicação; nos foi entregue mais concentração dos meios e um fracionamento social ainda mais profundo, tendo como base a comunicação. Como consequência, até a mentira mudou de nome, popularizando-se e espalhando-se como “pós-verdade” ou “fake news”.

É bom que se perceba que o surgimento de todas essas concepções teve uma linearidade. O abandono da busca da verdade para a transmissão rápida dos fatos, abandono forçado pelas demandas da classe dominante sobre uma maioria dominada, prosseguiu naquela época em que se falou em “esfera pública” e “sociedade civil”. O jornalismo, nesta concepção, deveria prosseguir como transmissão altamente profissional de fatos; as verdades as sociedades encontrariam com base neles. Mas como encontrá-las, se os fatos não eram capazes de tocar na própria dinâmica desta sociedade, nas divisões existentes mas nunca anunciadas (porque anunciá-las implicaria tomar posição) deste mundo? A terceira concepção também não rejeitou nenhuma das duas anteriores: tratou-se de fato simplesmente de tentar incluir as vozes marginalizadas naquela imaginada ágora, sem pôr em questão as dinâmicas que as marginalizaram, prosseguindo com a rejeição à verdade, e sem reconhecer que tal ágora, se sonho foi, foi curto. Não se tratava da rejeição aos fatos, simplesmente de dizer que alguns fatos são mais importantes do que outros, a depender de quem os vive ou narra. Mas e a verdade?

Uma comunicação hiper-centralizada em mãos privadas; uma dinâmica contínua e hiperveloz de divulgação de fatos desconexos; múltiplas vozes individuais falando potencialmente para o mundo e de fato sozinhas, sempre de uma perspectiva ultraindividual. Este é o caos comunicativo no qual nos encontramos no segundo decênio do século 21.

Se quisermos uma outra comunicação, um outro jornalismo, deveremos retornar à concepção de verdade. Teremos não só de rejeitar as “narrativas”, terminar de promulgar a morte de sociedades ideais altamente informadas, mas também voltar àquele século 19. É necessário pôr em questão os fatos. Eles às vezes se escondem para que a verdade não possa emergir; mas também a verdade, às vezes, se esconde atrás deles. Tornou-se célebre a crítica do documentarista alemão Werner Herzog às concepções “factuais” no cinema documental. Ele nos recorda de que, se o que buscamos são fatos, encontraremos milhares deles alinhados numa lista telefônica – mas uma lista telefônica pouco pode nos dizer sobre qualquer coisa que importe, e hoje sequer será útil para a maior parte dos seus leitores. Herzog, que compartilha o sobrenome com um de nossos mártires, compreendeu bem que sua posição de comunicador não poderia ser a de um reprodutor de fatos, mas sim que ela implicava, ao menos no que tange às verdades mais importantes, em um esforço ativo por interpretá-las e comunicá-las em sua dimensão real, que paradoxalmente poderia envolver a ficção. Em seu texto “Sobre o Absoluto, o Sublime e a Verdade Extática”, por exemplo, ele rememora como “depois da primeira guerra no Iraque, enquanto campos de petróleo queimavam no Kuwait, a mídia – e aqui, refiro-me especialmente à televisão – não se encontrava na posição de mostrar o que constituía, além de um crime de guerra, um evento de dimensões cósmicas, um crime contra a própria criação”. Ora, sequer reconhecer tal coisa como um crime de guerra ou como um evento de dimensões cósmicas – duas verdades bastante óbvias – seria já cruzar a linha da tão louvada imparcialidade, ir além dos fatos, aproximar-se – heresia! – da verdade. Mais adequado ao jornalismo profissional seria transmitir em replay a mesma coleção de imagens de fogaréus e nuvens de fumaça, com uma narração quase literal das imagens por jornalistas alinhados numa bancada, com a eventual declaração de alguma autoridade adornando o rodapé da tela; procedimento este que assistimos há pouco, à medida que a guerra se instalava espetacularmente na Europa. Herzog, ao invés disso, produziu um filme cujo objetivo era oferecer ao espectador aquela “dimensão cósmica” da destruição, e abria-o com uma citação falsificada de Blaise Pascal: “o colapso do universo estelar ocorrerá – como a criação – em um esplendor grandioso.” Este filme foi prontamente criticado como “estetização do horror”.

O jornalista não deve ir tão longe ao ponto de formular frases falsas para causar um certo efeito. Mas não será talvez que o padrão com que diferentes fatos são apresentados – a morte por hipotermia de um morador de rua, a guerra entre grandes potências, uma queda na bolsa de valores de São Paulo – comunica ao leitor o peso que tais fatos realmente têm? Atribuir pesos diferentes a coisas diferentes é um dos aspectos básicos da aproximação à verdade, mas significa, necessariamente, retirar-se debaixo do manto da imparcialidade, manchar a tinta com que se escreve do suor e lágrimas de quem bate as teclas. A que serve uma linguagem que só é capaz de descrever o horror mais sombrio com os mesmos caracteres da mais soberba alegria? Será possível alcançar uma linguagem diferente se não deixarmos de lado a imbecil doutrina factual? Não será uma forma de mentira esta que confunde e afoga o leitor num oceano de normalidade factual? O horror, para ser tomado na sua dimensão real, não deve ser “estetizado” por aquele que faz de seu ofício comunicar, para que aquele que é objeto da comunicação possa tomá-lo em sua inteireza?

O jornalista, na verdade, deve ser menos um comunicador de fatos, e mais um decodificador da verdade, um tradutor do mundo material que converte as ações e inações de um punhado de homens em palavras compreensíveis à humanidade. O caráter revolucionário da atividade é duplo: por um lado, porque a decodificação tem alvo; normalmente visa precisamente aqueles que, sozinhos, não poderiam fazê-la. Por outro, porque seu objeto é a verdade, essa coisa agreste, que cala fundo e emociona o coração de qualquer um, mas que vive adornada de hermetismo por todas as bordas. O jornalista deve ser um pregador e um relevador; sem a pregação, suas revelações são inúteis; sem as revelações, suas pregações são desprovidas de sentido.

Um bom jornalista guarda um certo rancor informativo, que nele faz dos enganos e enganações feridas. Aprende cedo a odiar a mentira. Ele guarda uma desconfiança perpétua, sabendo que todos e tudo mente. Um bom jornalista odeia e ama toda palavra, e contra todas elas luta. Adora que elas sejam veículo de comunicação; odeia que sejam, em si, mentiras, e que bem manobras possam trair muito mais que seu significado. Aprende cedo a lição de Magritte: dizer cachimbo não é poder fumá-lo, sentir os odores agridoces da fumaça e a garganta pigarrear. Mas, ao mesmo tempo, dizer cachimbo é quase isso; é invocar todas as sensações que a coisa em si carrega, é compartilhar e tornar eternas estas sensações com toda a humanidade. Um jornalista que não odeia profundamente a mentira, que não reconhece o limite da palavra e se esforça por superá-lo, e que não sabe que tudo mente – até os fatos – é necessariamente um impostor ou um estúpido, útil, de toda forma, à mentira e a seus adeptos.

O jornalismo do futuro, em uma sociedade altamente fracionalizada, orientada por uma comunicação caótica da qual muitos participam mas uns poucos são donos, virá, estou certo, do jornalismo do passado. O jornalista justo, aquele que atravessa os fatos em busca da verdade, quase invariavelmente torna-se revolucionário e, por vezes, por seu amor à verdade, é levado à morte fraudulenta por poderosos; por milicos, por burgueses e assassinos afins. O revolucionário compromissado, que torna seu o encargo de tornar a justiça universal, lançando o próprio corpo ou cérebro contra cada partícula de desigualdade e injustiça que haja no mundo, invariavelmente confronta-se também com a forma retórica da opressão: a mentira, baseada ou não em fatos.

Talvez isso explique tanto o comum fascínio com o qual os estudantes de jornalismo se jogam na profissão, por um certo impulso, muitas vezes infantil, de “mudar o mundo”, quanto o fato de tantos revolucionários terem tido-o como ofício: Marx, Engels, Lênin, Fidel, Che, Giap. Mas também Paco Urondo, García Márquez, John Reed, e o maior de todos: Rodolfo Walsh. Revolucionários jornalistas e jornalistas revolucionários; uns, buscando a mudança, encontraram a palavra; outros, procurando a palavra, acharam a trilha da mudança.

Marx, autor dos textos que compõem este livro, é um bom exemplo deste antigo e revolucionário jornalismo no qual devemos nos inspirar. É um bom exemplo do jornalista-revolucionário e do revolucionário-jornalista. É, acima de tudo, um exemplo perfeito daquele que busca a verdade efetiva das coisas, para além da forma com a qual elas se apresentam.

Pelo fato de Marx, para produzir uma concepção científica do mundo e das relações sociais e econômicas, ter tido de se confrontar com as próprias bases que compõem uma concepção científica – ou seja, pelo fato de ter tido de inaugurar uma nova concepção filosófica pela qual o mundo poderia ser compreendido – ele foi muitas coisas; tantas que, por vezes, é difícil categorizá-lo. Os amigos d’O Capital lembram do Marx economista; os da Teses sobre Feuerbach o filósofo; os do Crítica ao Programa de Gotha e do Manifesto Comunista o estrategista e militante; os do 18 Brumário de Luís Bonaparte e Luta de Classes na França o analista. Poderíamos ainda lembrá-lo como sociólogo, apontar à sua obra ficcional, e até falar de suas aventuras pelo mundo da matemática, e tudo isso daria prova de que tratamos aqui de uma mente privilegiada, de um intelectual completo.

No entanto, há um aspecto pouco observado e comentado de toda essa trajetória: o fato de que boa parte dessa produção, que tanto amedrontou os proprietários e enfureceu os reacionários de seu tempo, e que hoje é por vezes analisada e discutida como se de um enigma se tratasse, foi escrita para e publicada em jornais ou revistas. É dizer: há também um Marx jornalista, e mesmo o mais intelectualizado Marx é indissociável das mãos borradas de tinta e da aspereza do papel-jornal. Ele passou mais de duas décadas escrevendo para jornais, os editando e publicando.

Mas dizer isso não basta. Não é necessário somente observar como aquela produção refinadíssima de Marx foi produzida para jornais, meios muito mais abertos do que hoje são as tecnológicas redes sociais. É necessário também compreendermos como os jornais colaboraram para que Marx refinasse sua produção. O ofício jornalístico não tem um aspecto pedagógico só para quem o lê; o tem também para quem o faz. O catedrático pode dar-se o luxo de dedicar sua mente somente àqueles problemas que ele impõe a si; o jornalista não, há de lidar com todos os problemas que a pauta do dia joga em seu caminho, sejam camponeses pobres roubando madeira, seja a guerra civil americana, seja o enfrentamento entre a polícia e operários na França. Isso implica, para o intelectual, formular continuamente tendo em mente o real, os últimos acontecimentos, o conjuntural. Deveria implicar, para o jornalista, buscar aquelas ideias capazes de superar a redação hipodérmica dos acontecimentos; capaz de torná-los mais claros ou, ainda, coisas do passado. O jornalismo, além disso, submete o teórico a um esforço de caráter mais prático, não só na medida em que ele pode propagar sua teoria usando as melhores e mais concretas metáforas – ou seja, os acontecimentos do dia –, mas também porque, para propagá-las, há de tornar compreensível a um amplo público toda a sua maquinação mental. Quem já ousou escrever sabe com quanto esforço uma ideia passa para chegar ao papel; mas também como, quando ela chega, toda uma sensação de pressentimento nos abandona. O enigma que construímos em nossa cabeça se desfaz; “agora está tão claro!”, pensamos. Tornou-se claro, por insistência e por necessidade, mas tornou-se claro porque tornou-se compartilhável, tornou-se força material.

Espero que a publicação destes escritos sirva para aproximar os jornalistas de Marx. Afinal, a luta pela atenção do público, a luta para que os fatos sempre se imponham sobre as perguntas que estes mesmos fatos deveriam suscitar, a luta sobre quem controla os meios de comunicação são aspectos, também, da luta de classes. A imposição de uma “técnica” para a reprodução “neutra” das informações não é nada mais que ideologia; a exigência de que escrevamos não como humanos, mas como se os fatos narrassem a si próprios, nada mais é do que fetiche; a superexploração nas redações, as horas-extras infindáveis, a obrigação de cumprir cinco tarefas ao mesmo tempo; tudo isso é extração de mais-valia.

Mas espero, acima de tudo, que este livro sirva para aproximar os leitores de Marx do jornalismo. Afinal, como ele mesmo escreveu, “é certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material, mas também a teoria se transforma em poder material logo que se apodera das massas”. “A máquina de escrever, dependendo de como a maneja, pode ser um abanador ou uma pistola”, traduziu Rodolfo Walsh. E, como deu testemunho o montonero Paco Urondo, invertendo a fórmula: “empunhei as armas buscando a palavra justa”.

Notas:
[1] O personagem de Lima Barreto – ele mesmo um exemplo de jornalista advindo das classes populares, desprezado por sua cor e censurado nos jornalões por suas críticas –, diz ainda que “não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes ideias, fundar um [jornal] que os combata… Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal…”. BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1995.

Pedro Marin

27 anos, é editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. É autor de “Golpe é Guerra – Teses para enterrar 2016” e co-autor de “Carta no Coturno – A volta do Partido Fardado no 

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Transcendência…

“…É um momento de eternidade no tempo”

Jung, ao discorrer sobre a experiência da transcendência da vida, dentre os aspectos apontados ele fala sobre a missa. Ele não é católico e não faz uma análise como teólogo, mas como psicólogo analisando a importância da vivência religiosa, da experiência do transcendente como fator importantíssimo para a saúde mental e equilíbrio emocional. E afirma o seguinte:

“Um exemplo vivo do drama do mistério que representa a permanência e a transformação da vida é a missa. Se observarmos os fiéis durante o ofício litúrgico, podemos notar todos os graus de participação, da simples presença indiferente até a mais profunda compenetração emocionada. Os grupos masculinos que se aglomeram à porta da saída, conversando sobre coisas nenhumas, fazendo o sinal da cruz e se ajoelhando mecanicamente partilham do ritual sagrado apesar de sua dispersão, pela simples presença no espaço cheio de graça. Na missa Cristo é sacrificado através de um ato exterior ao mundo e atemporal, ressurgindo novamente na substância transformada pela consagração. A morte sacrifical no rito não é uma repetição do evento histórico, mas um ato eterno que ocorre por primeiro e única vez. A vivência da missa é pois participação em uma transcendência da vida, que ultrapassa todas as barreiras de espaço e tempo. É um momento de eternidade no tempo”.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes. 3a ed., 2003, p. 123, $ 209

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Os vícios: cavalgando a roda de Íxion.

“Não existem Infernos mais infernais do que os vícios, pois nada parece mais conclusivamente nossa culpa. …..Mas o que nos escraviza é uma ideia, ….ancorada no passado, sombria e não assimilada.”

Os vícios: cavalgando a roda de Íxion.Íxion faz parte da mitologia grega. Atreveu-se a tentar seduzir Hera e teve como castigo de Zeus ficar preso a uma roda que girava sem parar, no Hades. Só a música de Orfeu era capaz de parar a roda, mas só por uns instantes.A situação de Íxion é familiar. Um pensamento obsessivo seguido de um ato compulsivo nos faz ficar presos girando no que é velho. Que fumante não se recrimina após repetidos fracassos ao tentar parar de fumar? Qual a pessoa que bebe que não bebe para mitigar a culpa do drinque anterior? Qual a pessoa que come compulsivamente que não estremece diante da gordura que cada vez mais se acumula? Quem não se sente encurralado na roda de ferro dos pensamentos e comportamentos autoderrotistas, mesmo os mais adeptos do autocontrole ou da realização social?Em vez de ver o alcoólatra como um perdedor, como uma pessoa sem força, de vontade, muitos o viram como extremamente envolvido com a necessidade de controlar o senso do eu. Gregory Bateson sugeriu que a pessoa que bebe compulsivamente acredita ser capaz de invocar os espíritos e controlá-los. Enquanto não se dobrar e aceitar que impotente diante do álcool,e que sempre será vencido; enquanto não tiver uma humildade sincera de que é impotente e quiser testar de novo, não vai sair dessa roda. Querer controlar o incontrolável é abrir caminho para o próprio nocaute. Querer testar é sucumbir.Jung salientou para os fundadores do A.A. que “o anseio pleo álcool (é) equivalente, em um nível mais baixo, da sede espiritual que o nosso ser sente da totalidade”, Uma tentativa implícita de se conectar a um poder superior. A psicologia de qualquer droga, inclusive o álcool, que altere a disposição de ânimo, oferece uma breve promessa dessa conexão e depois a leva embora, sobrando a prostração, a tristeza, o vazio…Aí a pessoa precisa continuar para anestesiar essa nova dor, e assim o processo continua.Somente através da submissão da fantasia do controle, ou sofrendo desse modo não apenas a perda da dominação do ego, como também a dor da dor, podemos nos libertar da roda de Íxion. Isso se assemelha à experiência de submeter nossa vontade aos poderes divinos – “não a minha vontade, e sim a Tua”.Na sequência, Hollis cita Marion Woodman num trecho que trata sobre esse assunto: “Atrás das máscaras dessas vidas bem-sucedidas, assoma a desilusão e o terror. Um fator comum aparece repetidamente. Conscientemente, os indivíduos estão sendo levados a ter um desempenho cada vez melhor dentro da rígida estrutura que criaram para si mesmos; inconscientemente, eles não conseguem controlar seu comportamento. Existem inúmeras razões individuais e coletivas para a explosão do caos tão logo a rotina diária é concluída. A força de vontade só pode durar esse período de tempo. Se essa força de vontade tiver sido mantida à custa de tudo o mais na personalidade, então o nada é óbvio. Quando à noite é chegada a hora de voltar para si mesmo, a máscara e o Ser interior não se comunicam…As compulsões estreitam a vida até que esta deixa de existir – existência, talvez, mas não vida………..nossos padrões de vício são defesas contra a angústia quer o saibamos ou não. Todos os vícios são, na verdade, técnicas de administrar a ansiedade. Quando o material psíquico ao qual tal afeto está apegado é ativado, nossa psique inicia sua defesa.Á medida que a angústia aumenta, nós nos entregamos a algum comportamento repetitivo que nos permite “nos conectarmos”, fazendo com que a ansiedade recue temporariamente, para em seguida exigir a repetição….e a roda não para, a pessoa voltando sempre onde começou……………….Não existem Infernos mais infernais do que os vícios, pois nada parece mais conclusivamente nossa culpa. …..Mas o que nos escraviza é uma ideia, ….ancorada no passado, sombria e não assimilada. Precisamos nos lembrar de que, quando essa ideia nos encurrala no passado, ela também nos constringe às limitação da infância. Essas ideias estreitam nossa vida; elas possuem uma origem e uma consequência reducionista, defesas contra a angústia que é a concomitância necessária do crescimento. Temos que romper esse ciclo do relacionamento infantil doentio, para podermos crescer, para nos tornarmos adultos, para sairmos da roda de Íxion.Nossa aterrorizante tarefa é nos escondermos na obsessão, eliminar o vício, encontrar a ideia primordial e não assimilada tão profundamente enterrada. Depois, quando adultos, podermos ser capazes de suportar o insuportável, pensar no impensável, sofrer o insofrível, a fim de nos libertarmos…………Descer ao estado de ansiedade, sentir o que realmente sentimos, significa “atravessar” e romper a tirania das emoções intemporais que nos perseguem. Involuntariamente nós construímos o inferno e, reflexivamente, nós o servimos…..Somente a descida ao Hades é capaz de nos libertar do Hades.(James Hollis. Os pantanais da alma: nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 3e. 2011, pp. 121-125 – praticamente uma transcrição do texto do autor, com algumas lacunas e uns poucos comentários pessoais embutidos)..

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